Radar económico

Competitividade, Inovação e Banca: trunfos para a recuperação económica pós-Covid-19?

4 Agosto, 2020

A Covid-19 trouxe uma recessão económica mundial. Mas estará Portugal hoje mais preparado para enfrentar esta crise inesperada?


PIB português caiu 16,5% entre abril e junho de 2020, em termos homólogos

É inegável o profundo impacto que a Covid-19 está a ter em todas as áreas da nossa vida. Para além de nos estar a exigir uma enorme adaptação no dia a dia, as suas consequências económicas estão a obrigar a avaliar o futuro da economia, das poupanças e dos investimentos. As previsões relativas ao impacto económico e à forma como a recuperação se fará são muitas e muito díspares.

Em abril, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa, para este ano, uma contração da economia mundial de 3% devido aos efeitos da pandemia de Covid-19, com uma recuperação de 5,8% já em 2021. Por cá, no Programa de Estabilização Económica e Social, o Governo estimava uma queda do PIB de 6,9% este ano, devido à pandemia, e previa um crescimento de 4,3% em 2021.  No entanto, os primeiros dados relativos ao segundo trimestre de 2020 revelados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), indicam que estes valores poderão ter de ser revistos. Entre abril e junho de 2020 a economia portuguesa contraiu 16,5% em termos homólogos, a maior queda do PIB num trimestre de que há registo oficial.

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Como será a Recuperação económica pós-Covid-19? 

Também a forma como se fará a recuperação económica está rodeada de muitas incertezas. Se inicialmente, muitos especialistas defendiam uma recuperação económica em V, ou seja, com uma queda abrupta e uma rápida melhoria, com o passar do tempo, as opiniões dividiram-se e hoje existem previsões e modelos com variados cenários.

Nunca houve no mundo globalizado uma crise económica provocada por uma pandemia desta dimensão. De um momento para o outro, vários países tiveram de encerrar, quase na totalidade, as atividades económicas. As populações foram obrigadas ao confinamento, as deslocações intra e inter países foram interrompidas. O setor do turismo, que se destacava no início do ano, parou quase por completo e os padrões de consumo alteraram-se drasticamente. Com boa parte da indústria mundial encerrada, as cadeias de abastecimento sofreram interrupções que expuseram as fragilidades do mundo globalizado. Situações que nunca se tinham vivido a esta escala e que nos permitem entrever as dificuldades para se estabelecerem previsões sobre como as economias se irão comportar.

É certo que Portugal, país onde em 2019 o turismo era responsável por 14.6% do PIB, está a ser fortemente afetado pelos impactos económicos da pandemia. O Governo tem apostado numa estratégia de apoios económicos para empresas e trabalhadores e o clima tem sido de ponderação e cautela face aos próximos anos. Apesar das naturais preocupações que se levantam, este ano o país tem-se destacado pela positiva em vários estudos e rankings internacionais, nomeadamente, ao nível da competitividade, da inovação e da banca. Dados que podem indiciar que Portugal está hoje mais preparado para enfrentar uma crise e que isso vai ajudar na recuperação económica do país.

Banca em Portugal: valor mínimo de exposição aos setores mais afetados pela pandemia

Os sinais que chegam da banca portuguesa são animadores. O último relatório de estabilidade financeira elaborado pelo Banco de Portugal conclui que a banca portuguesa, em comparação com a generalidade dos bancos europeus, é uma das menos expostas aos setores mais sensíveis nesta crise. No relatório lê-se que a exposição de Portugal “aos oito setores mais sensíveis em percentagem dos ativos ponderados pelo risco situava-se em 28%, o valor mínimo no conjunto de países considerados”. No extremo oposto está a Holanda com uma exposição a rondar os 53%. Uma banca mais sólida e resiliente será fundamental para apoiar as empresas durante este período conturbado. E a dar provas de solidez temos o Banco Finantia cujo rácio Common Equity Tier 1 (CET1), em 2020, manteve-se acima dos 20% (20,4%), um dos mais elevados da banca europeia.

Portugal subiu duas posições no ranking mundial da Competitividade

E não é só pela banca que Portugal está mais preparado, também a competitividade tem registado melhorias. Portugal tornou-se este ano, de acordo com o ranking mundial de competitividade do instituto suíço de gestão IMD, mais competitivo. O país conseguiu subir da 39ª para a 37ª posição entre 63 países e territórios.  E quais foram, afinal, os indicadores, entre os 235 avaliados pelo IMD, nos quais Portugal se destacou?

Portugal destaca-se nas categorias de Estrutura Social e Legislação Empresarial (22ª posição), na de Infraestruturas Educativas, Saúde e Ambiente (24ª posição), na de Preços (30º país mais competitivo a nível mundial) e na categoria de Comércio Externo, que confere ao país a 31ª posição. A par com os resultados do ano passado, categorias como a mão-de-obra qualificada, o custo de oportunidade e a estabilidade das infraestruturas continuam a ser alguns dos principais indicadores de atratividade do país. Por outro lado, as categorias com margem para melhoria são as políticas públicas em matérias de política tributária (53.ª posição) e a das empresas em matérias de prática de gestão (52.ªposição).

Portugal entre os países “fortemente inovadores” da União Europeia

Outro campo que merece destaque é a inovação tecnológica. O país tem apostado nas startups nos últimos anos, desenvolvendo programas como o Fundo 200M – coinvestimento do Estado com investidores privados em startups e scaleups portuguesas; e o fundo de coinvestimento para a inovação social, onde o Estado se alia a privados para investirem em empresas com projetos inovadores e de impacto social. E esse investimento deu frutos. Portugal subiu no ‘ranking’ “European Innovation Scoreboard”, a publicação anual da Comissão Europeia que destaca os países mais inovadores na UE. O país atingiu a melhor classificação de sempre ao conquistar a 12ª posição e entra, assim, para o grupo dos países “fortemente inovadores”.

Isto deve-se essencialmente ao facto de Portugal ser, pelo segundo ano consecutivo, líder numa das dimensões do ‘ranking’, a “inovação nas pequenas e médias empresas (PME)”, tendo em conta indicadores que exprimem a percentagem destas empresas com inovação de produtos/processos, marketing/organizacional e a percentagem de PMEs inovadoras que colaboram com outras PMEs. Dado que se torna mais relevante se atendermos ao facto de que Portugal é um país de PME, já que estas representavam, em 2017, 99,9% do tecido empresarial português. Importa igualmente destacar o contributo da qualificação dos recursos humanos para a subida no ‘ranking’, com especial destaque para o alargamento da população com ensino superior.

Uma banca sólida e um país mais competitivo e inovador podem, na opinião de muitos especialistas, revelar-se fatores fundamentais na recuperação económica de Portugal no pós-Covid-19.

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