Radar económico

Como será o futuro do Turismo?

6 Julho, 2020

A pandemia de Covid-19 impactou fortemente o turismo, um setor que tem vindo a assumir um grande peso na economia portuguesa e mundial. Agora que, lentamente, as fronteiras voltam a abrir com novas regras, como será o seu futuro próximo?


Setor do turismo sofre quebras de 60% a 80% devido à pandemia

2020 ficará para a história como o ano em que, durante alguns meses, os aviões deixaram de cruzar os céus. Depois de se conhecer o forte impacto do novo coronavírus, um pouco por todo o mundo, os países procuraram travar a sua expansão encerrando as suas fronteiras. Uma medida que teve efeitos imediatos sobre o transporte de passageiros, com viajantes a ficarem retidos em cruzeiros e turistas impossibilitados de seguir viagem. Em março, depois de vários países europeus tomarem diversas medidas de precaução contra o vírus, o volume mundial de turistas sofreu uma redução drástica. Dos 217 destinos em todo o mundo, 72% pararam completamente o turismo internacional devido à pandemia, revelou a Organização Mundial do Turismo (OMT). Isto fez com que em todo o mundo, mas em especial na Europa – onde 83% dos países fecharam por completo as fronteiras -, o setor do turismo enfrente atualmente uma crise económica sem precedentes.

O impacto desta paralisação é facilmente percetível se tivermos em conta que o turismo representa 10,4% do PIB mundial e é responsável por cerca de 320 milhões de postos de trabalho. Por causa da pandemia, a OMT espera, em 2020, uma quebra de 60% a 80% no volume de turistas internacionais em comparação com o último ano. Só na Europa, de acordo com a Oxford Economics, durante os oito meses – de fevereiro a setembro – que se prevê que se façam sentir os efeitos das medidas de confinamento e consequentes levantamentos das restrições, estima-se que as viagens turísticas sofram uma queda de 39%, cerca de menos 287 milhões de chegadas internacionais quando comparado com o período homólogo do ano anterior.

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Uma quebra que se reflete na faturação e também nos dados do emprego. Só até ao mês de março, a OMT já tinha registado uma queda média de 22% nas chegadas internacionais o que representava cerca de €75 mil milhões de euros de “exportações perdidas”. Também ao nível do emprego, as consequências poderão ser bastante graves. “O turismo recebeu um duro golpe, e são milhões os postos de trabalho que se encontram em perigo, num dos sectores da economia que mais mão-de-obra emprega”, explicou Zurab Pololikashvili, secretário-geral da OMT. A organização fala em 100 a 120 milhões de empregos diretos em risco neste setor. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) alerta também para esta realidade e avança que 50 milhões de empregos em todo o mundo estão em risco imediato.

Portugal é o terceiro país europeu com uma maior queda do turismo internacional

Portugal, onde o turismo representa 16.5% do PIB, é um dos países mais preocupados em minimizar os efeitos da pandemia. A Oxford Economics estima que, este ano, Portugal registe menos sete milhões de entradas internacionais, o correspondente a uma queda de 40% em comparação com 2019. Uma situação que corresponderá à terceira maior queda no turismo internacional ao nível dos países europeus. A própria secretária de Estado do Turismo adiantou que as empresas nacionais deste setor deverão ver a sua faturação bastante afetada pela pandemia, com quebras na ordem dos 50% face a 2019.

Conscientes dos efeitos da pandemia e do confinamento, o governo e os responsáveis do setor procuram definir estratégias para relançar o turismo nacional. A imagem do país saiu reforçada do embate com a primeira vaga do novo coronavírus. Portugal tomou medidas atempadamente que permitiram controlar o surto e evitar o colapso do sistema nacional de saúde, ao contrário de outros países europeus, como Itália ou Espanha, dois dos principais concorrentes do país como destinos turísticos. Uma situação que causou boa impressão ao nível internacional e que pode revelar-se uma vantagem agora que as fronteiras voltam a abrir-se. Para isso é fundamental que se consiga manter sob controlo os números de novos casos ao mesmo tempo que se retoma a economia e as empresas voltam a laborar.

Em Portugal o regresso do turismo está assim a assentar na segurança, na higienização e na capacidade de resposta ao nível da saúde. Para certificar o elevado nível de segurança e higiene da oferta turística do país, o Turismo de Portugal desenvolveu o selo “Clean & Safe” que assegura aos turistas que determinado estabelecimento cumpre todas a regras exigidas pela Direção-Geral da Saúde. Também o WTTC lançou um selo mundial de garantia para o turismo, o “Safe Travels”, que visa “reconhecer destinos que cumprem protocolos de saúde e higiene alinhados com os Protocolos de Viagens Seguras emanados pelo WTTC”. Portugal foi o primeiro país da Europa a recebê-lo.

O futuro do turismo mundial

Lentamente e com cuidados redobrados, as fronteiras voltam a abrir, mas não se espera que o turismo fervilhante tal como se via há pouco tempo volte nos próximos meses. Os especialistas avançam que o turismo deverá ser dos últimos setores a recuperar os níveis de crescimento que registava no pré-pandemia, algo que só deverá acontecer em 2021 segundo um estudo da Deloitte. Ainda assim, a OMT acredita que as “viagens de lazer, especialmente para visitar amigos e familiares, devem recuperar mais rapidamente do que as viagens de negócios”. A secretária de Estado do Turismo defendeu também que, nesta retoma do turismo, “as pessoas vão procurar destinos ligados à natureza, ao ar livre, e viajar em pequenos grupos”.

Tendo em conta a evolução da pandemia e da crise económica, é esperado que o turismo de proximidade seja o primeiro a verificar melhorias, com boa parte dos turistas a escolher passar férias nos seus países de origem ou num destino relativamente próximo. Outra aposta deverá passar pela maior aposta nas deslocações de carro e a escolha de alojamentos locais isolados e com comodidades tais como jardim e piscina para, assim, evitar as grandes aglomerações. A higienização dos espaços e o cumprimento das regras vão também influenciar as escolhas dos turistas.

A European Travel Comission (ETC) partilha desta visão e acredita que este verão na Europa será como “regressar aos anos 1970 ou 1980”, com os europeus a optarem pelo turismo de proximidade. Eduardo Santander, diretor executivo da ETC, vê nesta crise uma oportunidade para se repensar o setor, pois “o turismo estava a atingir uma capacidade limite devido ao seu aumento exponencial, que já era quase insustentável em alguns locais, […] e agora podemos reajustar a forma de fazer turismo, para que seja mais educativo, para se tornar mais competitivo e seguir práticas sustentáveis”.

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