Radar económico

O combate às alterações climáticas depois da pandemia

8 Junho, 2020

O ano de 2020 começou com o combate às alterações climáticas e o Pacto Ecológico Europeu a dominar a agenda europeia. Porém, com o surgimento da pandemia, as prioridades alteraram-se e as atenções centraram-se na luta contra a COVID-19. Ainda assim, a crise climática não pode ficar esquecida e é preciso perceber que espaço ocupará no pós-pandemia.


Pandemia acelera diminuição na emissão de gases poluentes e transformação digital

No último ano, a crise climática e a transição verde ganharam preponderância na agenda política europeia, tendo inclusive dado origem ao Pacto Ecológico Europeu, o primeiro acordo estabelecido no seio da União Europeia para alcançar a neutralidade carbónica no continente. A chegada da  COVID-19 veio alterar as prioridades e o foco passou a centrar-se no combate à crise sanitária, mas as questões relacionadas com as alterações climáticas não foram esquecidas.  Cedo o confinamento provocado pela pandemia revelou ter impactos no combate à poluição atmosférica, sendo os primeiros indicadores positivos. Segundo um estudo divulgado no início de abril, durante o confinamento causado pela COVID-19, as emissões globais de dióxido de carbono caíram 17%, tendo sido emitidas menos 17 milhões de toneladas do que no mesmo período de 2019. A redução de 43% nas deslocações automóveis e a quebra semelhante nos setores da indústria e da produção energética foram dois dos principais motivos na origem da diminuição das emissões de gases poluentes. O estudo prevê ainda que, no final do ano, a queda nas emissões globais de dióxido de carbono se situe entre os 4% e os 7%. Mas, como explica a investigadora Corinne le Quéré, estas “reduções extremas deverão ser temporárias, contudo, porque não refletem mudanças estruturais nos sistemas económicos, de transporte ou energéticos”.

A pandemia será também responsável pela primeira queda no setor das energias renováveis nos últimos vinte anos. A Agência Internacional da Energia prevê que este ano seja registada uma descida de 13% nas novas instalações renováveis de produção elétrica ligadas à rede, ou seja, menos 20% do que estava previsto. Esta quebra deve-se essencialmente aos atrasos na construção provocados pelo confinamento e pelas medidas de distanciamento social e ao aumento dos custos e dificuldades financeiras para prosseguir com os projetos. A queda na produção de novas instalações terá um impacto significativo sobretudo na Europa, onde se espera que possa corresponder a menos de um terço do previsto. Também os biocombustíveis deverão registar uma quebra de 13% em 2020, devido à diminuição do preço do barril de petróleo que acabou por os tornar menos competitivos. Já em abril, a comissária europeia da Energia, Kadri Simson, tinha alertado para a situação preocupante que estava a viver a indústria europeia das energias renováveis, em particular a solar e a eólica, pois “a crise mostrou a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento, reduziu os níveis de investimento, reduziu os mercados, causou atrasos nos projetos nos mercados emergentes e, em alguns casos, parou a produção na Europa”.

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Em Portugal, a COVID-19 contribuiu ainda para a aceleração da transformação digital, com os portugueses a optarem pelo consumo online devido ao confinamento e a manifestarem interesse em aumentar o uso destas tecnologias depois da pandemia. Para Oliver Wright, um dos responsáveis pelo estudo da Accenture que está na origem destas conclusões, a “pandemia poderá fomentar uma era de consumo mais sustentável e saudável nos próximos dez anos, fazendo com que os consumidores sejam mais conscientes nas compras que fazem, bem como na utilização do seu tempo no que se refere a questões globais de sustentabilidade — sugerindo uma utilização humana mais saudável do planeta”.

Portugal e Bruxelas colocam a transição verde no centro da recuperação europeia

Ao mesmo tempo que se aliviam as medidas de confinamento na generalidade dos países europeus, surgem cada vez mais dados sobre o forte impacto económico que a pandemia está a ter em todo o mundo. A fim de evitar os piores cenários, anunciam-se medidas que visam impulsionar a recuperação económica e, enquanto alguns especialistas temem o abrandamento ou mesmo o retrocesso das chamadas “políticas verdes”, outros veem este momento como uma oportunidade para acelerar a transição ecológica e a neutralidade carbónica. A Europa tem-se mostrado comprometida com a segunda hipótese. Tanto a Comissão Europeia como o Governo português afirmam que a recuperação económica deverá passar pela transição verde e pelo Pacto Ecológico Europeu. Frans Timmermans, vice-presidente da Comissão Europeia, foi um dos primeiros a defender este cenário, afirmando que “temos de evitar uma recuperação económica presa às velhas e poluentes tecnologias. O Green Deal não é um luxo demasiado caro, mas sim um investimento necessário“.

Este objetivo da Comissão Europeia (CE) é inclusive visível no fundo de recuperação apresentado por Bruxelas no final de maio. No pacote de 750 mil milhões de euros está previsto que uma parte do valor – 40 mil milhões de euros – sejam direcionados para o Fundo de Transição Justa, de forma a ajudar os Estados-membros a acelerar a transição para a neutralidade carbónica. Além disso, a proposta levanta ainda a possibilidade de serem criados novos impostos com impacto direto no combate às alterações climáticas: uma “extensão” da tributação sobre as emissões dos “setores marítimo e da aviação”; uma nova taxa sobre o carbono; e um novo imposto “baseado num IVA simplificado e nos plásticos não-recicláveis”. Ainda no contexto do Pacto Ecológico Europeu, a CE apresentou também, em maio, a sua “Estratégia da Biodiversidade” com um financiamento de 20 mil milhões de euros por ano para estender a agricultura biológica a 25% das terras agrícolas até 2030 e transformar pelo menos 30% das terras e dos mares da Europa em zonas protegidas.

Já no que respeita a Portugal, Bruxelas deixou claro nas recomendações que enviou ao Governo que a recuperação económica deverá passar pelo combate à crise climática, aconselhando o país a focar “o seu investimento na transição verde e digital, em particular na produção e uso de energia limpa e eficiente, infraestruturas ferroviárias e inovação”. No seguimento destas recomendações, Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Ação Climática, anunciou que serão mobilizados 4,5 mil milhões de euros para investimentos focados na sustentabilidade e projetos que favoreçam a redução de emissões, promovam a transição energética, a mobilidade sustentável, a circularidade da economia e a adaptação e a valorização do território. Além das áreas mencionadas pelo ministro, Ana Isabel Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, acredita que também a indústria pode beneficiar da situação atual para se transformar e tornar mais verde.

Em Portugal, o setor energético deverá ser o protagonista desta “estratégia verde” para a recuperação económica pós-pandemia. Várias das elétricas nacionais juntaram-se às congéneres europeias numa carta aberta enviada ao vice-presidente executivo da CE onde pediram uma aposta clara na transição energética e no hidrogénio verde, optando por soluções “mais eficientes, sustentáveis e com um melhor custo-benefício para descarbonizar a economia e criar empregos”. Esta é também uma das principais apostas do Governo português que espera, até 2030, atrair 7 mil milhões de euros em investimentos para projetos de produção de hidrogénio verde.  O ministro do Ambiente defendeu mesmo que “os investimentos na produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis serão cruciais para ultrapassar a crise provocada pela pandemia”.

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