Radar económico

Combater a crise económica gerada pela pandemia: do aumento de liquidez à poupança

2 Junho, 2020

A pandemia do novo coronavírus colocou o mundo diante de uma nova crise económica e os bancos centrais assumem um lugar de destaque nos planos de recuperação. No entanto, alguns especialistas lembram que, para além das políticas monetárias, a poupança também é importante para fazer face às dificuldades que possam vir a surgir.


Bancos centrais apostam no aumento de liquidez como resposta à crise pandémica

Uma década após a última crise mundial, as políticas monetárias implementadas pelos bancos centrais voltam a ser fundamentais para o financiamento dos Estados a custos reduzidos e para impulsionar a recuperação económica depois do abalo provocado pela Covid-19. As autoridades monetárias uniram-se novamente de forma a dar uma resposta forte e coordenada à chamada “crise pandémica”. De características inéditas e sobre a qual ainda estamos a aprender, a nova crise levou as autoridades monetárias das grandes potências a agir de forma imediata e a recorrer aos instrumentos que já tinham ao seu dispor, utilizando-os com a dimensão e a rapidez necessárias para alcançarem um efeito significativo neste combate e impulsionar a economia mundial.

As estratégias apresentadas não são novas, mas revelam-se fundamentais para dar confiança aos mercados. Os principais bancos centrais estão a apostar no reforço da compra das dívidas públicas e no corte ou manutenção das baixas taxas de juro como forma de aumentar a liquidez das economias. No que toca à compra de ativos, o BCE lançou um programa de compras especial de resposta à pandemia no valor de 750 mil milhões, onde não é estabelecido qualquer limite à aquisição de dívida pública de um mesmo país. Também o Banco do Japão prometeu realizar compras ilimitadas de títulos de dívida pública e empresarial. A Fed foi outro dos bancos centrais que recorreu a este instrumento para comprar títulos do tesouro e obrigações municipais, que abrangem dívida de curto prazo dos estados, das cidades com mais de um milhão de habitantes ou dos condados com mais de dois milhões de pessoas. Já o Banco de Inglaterra anunciou que irá passar a comprar papel comercial emitido pelas empresas com prazos até 12 meses.

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As taxas de juro diretoras, que têm estado em valores baixos, viram, em muitos casos, o acentuar dessa tendência. A Reserva Federal norte-americana (Fed) cortou as suas taxas de juro diretoras, situando-se agora num intervalo entre 0% e 0,25%. Também o Reserve Bank of New Zeland recorreu a este instrumento quando anunciou um corte de emergência nas taxas de juro do país em 75 pontos base para os 0,25%, tendo, ainda, garantido que iria manter este nível durante, pelo menos, o próximo ano. O mesmo aconteceu ainda com o Banco da Coreia do Sul que realizou um corte na taxa de juro em 50 pontos base para os 0,75%. O BCE – que apresenta taxas de juro muito baixas-, o Banco Popular da China e o Banco do Japão optaram, por manter as suas taxas de juro inalteradas.

Além disso, numa operação conjunta de vários bancos centrais, foi acordada uma ação coordenada para a realização de operações em dólares. A Fed, o BCE e Através de todas estas medidas, os bancos centrais têm procurado injetar liquidez na economia, de forma a impulsioná-la e a evitar consequências maiores. As autoridades monetárias pretendem que as baixas taxas de juro se reflitam também nos empréstimos que os bancos fazem às empresas e aos particulares de forma a estimular o investimento e a circulação do dinheiro. No entanto, é importante relembrar que as poupanças também desempenham um papel fundamental na resposta a esta crise pandémica e podem representar uma almofada financeira para os desafios e oportunidades que possam surgir a médio-prazo.

A poupança também deve fazer parte da resposta à crise pandémica

Antes da crise pandémica chegar à Europa, os dados do Eurostat eram bastante animadores com as taxas de poupança e de investimento da Zona Euro a crescerem no último trimestre de 2019. Entre outubro e dezembro do ano passado, a taxa de poupança registada foi de 13,0%, o que representa a igual período de 2018. Dados que contrastam com a realidade nacional. De acordo com o Banco de Portugal, no último trimestre de 2019 – período a que correspondem os últimos dados conhecidos -, a poupança dos portugueses situou-se no valor mais baixo da última década, 7,2%. Segundo os dados das contas financeiras nacionais, este valor corresponde a 3,4 mil milhões de euros, o equivalente a apenas 1,6% do PIB nacional. Situação que pode colocar em causa a capacidade de resposta nacional, uma vez que as empresas e as famílias portuguesas são obrigadas a enfrentar a crise do novo coronavírus com a mais curta almofada financeira de uma década.

O primeiro alerta em relação ao impacto da poupança nos efeitos económicos da pandemia veio da parte do FMI. Poul Thomsen, diretor do departamento Europeu do FMI, explicou recentemente que as baixas poupanças das pequenas e médias empresas nacionais podem ser um grave problema para o país no contexto atual, na medida em que estas empresas que possuem almofadas financeiras mais limitadas poderão vir a ser mais afetadas no curto prazo por não terem recursos suficientes para aguentar um choque económico significativo, Porém, caso as medidas dos bancos centrais se prolonguem por demasiado tempo, esta situação poderá agravar-se ainda mais. Como realça a economista Inês Domingos, “existe um risco de as taxas de juro serem permanentemente baixas, ou ficarem baixas durante um período muito prolongado, o que também tem um impacto sobre as poupanças das famílias e sobre as pessoas que dependem das poupanças”.

Alguns especialistas esperam que o surgimento desta nova crise económica possa vir a aumentar a poupança, uma vez que esta tendência já se registou noutras crises anteriores com os consumidores a preferirem precaver-se face à incerteza da evolução dos mercados. No entanto, também é possível que esta almofada financeira diminua ainda mais caso a crise se prolongue por mais tempo. António Ribeiro, analista de mercados financeiros e economista da Deco, antevê um futuro a curto prazo muito complicado para as famílias portuguesas, pois “muitas delas já tinham resgatado os produtos financeiros na anterior crise, e ainda não houve tempo suficiente para fazer algumas poupanças”. É por isso fundamental que a questão da poupança não seja descurada na resposta à crise pandémica e que, tanto empresas como famílias, tenham uma proteção extra contra eventuais imprevistos e crises inesperadas como esta.

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