Radar económico

Escassez de água coloca a economia em alerta

13 Janeiro, 2020

Todos sabemos como a água é fundamental para a vida no planeta Terra, mas na correria do dia a dia, é fácil esquecermo-nos de que este recurso não é ilimitado e inesgotável. A escassez de água e, sobretudo, de água potável cria tensões a nível global e coloca em causa o desenvolvimento e a sustentabilidade económica dos países.


Crises de água em 4º lugar no ranking dos riscos que terão mais impacto na economia

O crescimento da população mundial, o desenvolvimento económico e as alterações climáticas têm contribuído para o agudizar das disputas pelos recursos hídricos em todo o mundo. A água não merece especial destaque no sobe e desce dos mercados financeiros, mas a verdade é que este é um recurso inestimável e, devido à sua crescente escassez, uma gestão eficiente e sustentável revela-se prioritária. Sobretudo se tivermos em conta que no relatório de Riscos Globais 2019, do Fórum Económico Mundial, as crises hídricas são apontadas como o quarto risco que maiores impactos económicos terão.

Aliás, a água está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento socioeconómico global, mas a sua importância é muitas vezes subestimada. Países com falta de infraestruturas sanitárias e com deficiente abastecimento de água enfrentam maiores desafios económicos, sociais e de saúde. Só a África subsariana perde o equivalente a 4% do seu PIB anualmente por falta de saneamento e de abastecimento de água adequados. Além disso, estima-se que quatro em cada cinco empregos no mundo estejam dependentes da água, com este recurso a assumir uma importância vital em setores como a agricultura, aquicultura, mineração, indústria e produção de energia. Isto significa que é necessário não só fazer chegar água potável para o consumo das populações, mas também para o uso de várias atividades económicas que permitem a subsistência da população.

Apesar de todos os progressos alcançados entre o final do século passado e o princípio do milénio, a nível global, ainda existem 844 milhões de pessoas sem acesso a água potável. Os números podem vir a agravar-se à medida que aumentam os conflitos no mundo e que se intensificam as consequências das alterações climáticas. Segundo as estimativas da Organização Mundial de Saúde, em 2025, se os padrões de consumo se mantiverem, metade da população mundial viverá em zonas que sofrem de “stress hídrico”.

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Recursos hídricos disponíveis não chegam para suprimir a procura

No Environmental Outlook to 2050 publicado em 2012, a OCDE já destacava que os recursos hídricos estavam a ser sobre-explorados em muitos locais do mundo e previa que a situação se agravasse com as estimativas a apontarem para um aumento da procura na ordem dos 55% até 2050. Problemas já sentidos por muitas comunidades. Atualmente, a ONU estima que 40% da população mundial seja afetada pela escassez de água, além de que as alterações climáticas estão a acelerar e a intensificar os eventos catastróficos relacionados com este recurso. As inundações e os longos períodos de seca são cada vez mais frequentes.

Portugal tem sido um dos países europeus mais impactados por secas prolongadas. No final do mês de setembro, de acordo com o IPMA, a quase totalidade do território nacional continental encontrava-se em situação de seca meteorológica e 36% estava mesmo em seca severa e extrema. Uma situação que é cada vez mais recorrente a cada verão. Um estudo do World Resources Institute estima que, em 2040, Portugal ocupe a 44ª posição na lista de países que enfrentará níveis elevados de ‘stress hídrico’.

Apesar desta situação ser recorrente todos os anos, o desperdício de água no país é uma realidade. Um estudo da DECO revela que, globalmente, em 258 municípios de Portugal, se desperdiçam anualmente 179.722.877 metros cúbicos de água, o equivalente a 90 milhões de euros por ano. Num mundo onde os recursos hídricos disponíveis não chegam a todos, torna-se premente encontrar soluções, especialmente ao nível dos países desenvolvidos, para combater o desperdício de água e melhorar os sistemas de gestão.

A má qualidade da água tira um terço à economia global

As questões hídricas não se prendem só com a quantidade de água disponível, a qualidade da água é também um problema que se agrava, sobretudo nos países em desenvolvimento. Segundo o estudo Quality Unknown: The Invisible Water Crisis publicado em Agosto de 2019 pelo Banco Mundial, um terço do potencial de crescimento económico é eliminado em zonas altamente poluídas. Enquanto as alterações climáticas agravam os problemas de salinidade, o consumo de plástico aliado ao uso de produtos químicos nas indústrias, nomeadamente no setor têxtil e de fertilizantes na agricultura, como o nitrogénio, estão ao contaminar os recursos hídricos disponíveis.

Por um lado, o aumento dos níveis de salinidade está a colocar em causa a própria capacidade para alimentar uma população crescente. O Banco Mundial estima que a água salgada esteja a fazer o mundo perder uma quantidade de comida suficiente para alimentar 170 milhões de pessoas por ano. Por outro, ao escoarmos bactérias, químicos, plásticos e esgotos para os canais de água disponíveis, estamos a transformá-la “em veneno para populações e ecossistemas”, uma situação que coloca em causa as possibilidades de desenvolvimento dos países e condena as suas populações a vidas muito difíceis. Para diminuir as doenças e a mortalidade infantil e impulsionar o crescimento económico, o Banco Mundial estima que os países tenham de gastar 150 mil milhões de dólares por ano para que a água potável e as instalações de saneamento básico sejam universais.

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