Radar económico

O peso económico das alterações climáticas

29 Novembro, 2019

Com as consequências das alterações climáticas a estenderem-se a todos os países do mundo e a todas as áreas da vida humana, a economia não é exceção. Quais os custos atuais das alterações climáticas? Quanto podem vir a custar? E Portugal, como está nas atuais projeções?


Alterações climáticas: um mundo que muda depressa demais

As alterações climáticas estão na ordem do dia. Um pouco por todo o mundo organizam-se conferências, debates e reuniões para discutir os seus impactos e formas de atenuar os seus efeitos. Fazem-se manifestações a exigir mais medidas para o seu combate e os cientistas alertam para uma catástrofe iminente, caso os governos mundiais não tomem atitudes “musculadas”. António Guterres, secretário geral da ONU, tem sido uma das vozes mais ativas no que diz respeito às alterações climáticas, fazendo questão de lembrar o mundo de que “tem falhado em travá-las”.

A ação humana está a provocar mudanças demasiado rápidas no planeta com consequências difíceis de prever na totalidade.
Aumento das temperaturas médias globais, degelo, subida do nível médio da água do mar, degradação dos solos, aumento da frequência e da intensidade dos fenómenos climatéricos extremos são tudo consequências das alterações climáticas que colocam em causa a biodiversidade do planeta, a saúde dos seres humanos e, claro, acarretam custos económicos para todos os países do mundo. E quantificá-los não se tem revelado tarefa fácil.

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Desastres naturais custaram anualmente uma média de 140 mil milhões de dólares nos últimos 30 anos

Os dados são do Network for Greening the Financial System e revelam que desde os anos 80 o número de ocorrências de fenómenos climatéricos extremos triplicou. Em sete dos últimos dez anos, os custos anuais com desastres naturais foram superiores à média de 140 mil milhões de dólares dos últimos 30 anos, números que põem a descoberto uma tendência que se tem vindo a agravar. Na Europa, de acordo com os dados da Comissão Europeia, só as inundações entre 1980 e 2011 causaram prejuízos económicos diretos que ultrapassaram os 90 mil milhões de euros e afetaram mais de cinco milhões e meio de pessoas.

Não admira que os setores mais vulneráveis às alterações climáticas sejam, pois, as seguradoras – chamadas a pagar indeminizações pelos estragos decorrentes de fenómenos climatéricos extremos, a agricultura – colocada sob pressão por longos períodos de seca, mas também por fenómenos anormais como inundações, que aumentam os custos de produção e diminuem a produtividade das terras, – e o turismo. Mas os efeitos das alterações climáticas não se fazem sentir apenas nos setores económicos, os próprios seres humanos sofrem consequências diretas que colocam a sua saúde em causa.

Em 2018, a Organização Mundial de Saúde revelou que a poluição do ar é todos os anos responsável pela morte de sete milhões de pessoas a nível mundial, o que origina 4,63 biliões de euros em prejuízos sociais. As regiões do Leste do Mediterrânico e do Sudeste Asiático são aquelas onde se têm verificado os maiores níveis deste tipo de poluição e, nos quinze países com maiores emissões de gases de efeito estufa, avalia-se que os impactos na saúde são de cerca de 4% do PIB.

Quatro graus celsius a mais, 7,22% de riqueza global a menos até 2100

Em dezembro de 2015, boa parte dos países do mundo chegaram a acordo quanto à necessidade de se travarem as alterações climáticas e um plano foi traçado. Surgiu assim o Acordo de Paris onde se estabelecem medidas para a redução da emissão de gases com efeito de estufa – base das alterações climáticas – a partir de 2020 com vista a conseguir limitar o aquecimento global a 2º celsius acima dos valores registados no período pré-industrial, idealmente não mais de 1,5º. Contudo, e apesar do acordo ter sido assinado por 195 países, as emissões de CO2 continuam a aumentar. Em 2018, as concentrações deste gás com efeito de estufa atingiram cerca de 407 partes por milhão, valor 45% acima dos níveis registados no período pré-industrial.

Os dados não são, portanto, animadores e muitos duvidam da concretização das metas do Acordo de Paris em tempo útil, mas o National Bureau of Economic Research deixa o alerta. Se as temperaturas globais subirem 4º celsius, a economia mundial poderá perder 7,22% da sua riqueza até 2100 e mesmo que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas e o aquecimento global não seja superior a 1 grau, o PIB mundial sai prejudicado em 1,07%. Outro estudo, da organização internacional Carbon Disclosure Project, que avaliou 366 das 500 maiores empresas do mundo, revela que as alterações climáticas podem representar 900 mil milhões de euros de perdas para as grandes empresas.

Portugueses são dos mais preocupados com as alterações climáticas

Num estudo do Banco Europeu de Investimento, os portugueses surgem como os “mais preocupados com as alterações climáticas” (97%) e são também os que se mostram mais conscientes de que esta é uma ameaça atual e não apenas do futuro (80%). Os portugueses estão preocupados com esta questão e não é para menos. Dentro da Europa, os países do Sul são os mais afetados pelas consequências das alterações climáticas: muitas das culturas agrícolas típicas destas zonas já estão sob pressão e o intensificar dos períodos de seca promete trazer dificuldades acrescidas. Além disso, a linha costeira de Portugal está ameaçada pela subida do nível médio das águas do mar, sem esquecer os fogos que têm fustigado penosamente o país nos últimos anos.

O estudo do National Bureau of Economic Research revela que, em caso de uma subida de quatro graus celsius da temperatura global, Portugal perderá 7,8% do seu PIB per capita, um valor acima da média global. É por isso urgente apostar em alternativas sustentáveis em todas as áreas e setores. Por exemplo, no setor financeiro são disponibilizados cada vez mais produtos com critérios de sustentabilidade e Portugal já considera a emissão de Green Bonds.

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