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20 anos do Euro: uma história de desafios

27 Novembro, 2019

O Euro e a união monetária europeia estão a celebrar os seus 20 anos. Durante estas duas décadas, foram vários os desafios que tiveram de ser ultrapassados em prol de uma moeda única mais forte, capaz de desafiar a hegemonia do dólar americano e fazer frente a eventuais crises económicas. Mas o que será que podemos esperar para o futuro do Euro?


O passado do Euro: uma história conturbada

Embora a criação do Euro tenha ocorrido em 1999, os seus primórdios remontam às décadas anteriores, quando, após a Segunda Guerra Mundial, se sentiu a necessidade de criar um espírito de união e pertença europeia nas mais diversas áreas. O primeiro passo dado neste sentido aconteceu em dezembro de 1978, com o desenvolvimento da European Currency Unit (ECU), uma moeda virtual que antecedeu e preparou a criação do Euro. Apesar de não ser oficialmente reconhecido como uma moeda, a ECU era aceite pelo Banco Mundial para transações e integrava as moedas de todos os países da CEE.

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A ECU desapareceu a 1 de janeiro de 1999 quando deu lugar ao Euro, a primeira moeda europeia oficial. Este dia ficou marcado pela fixação da taxa cambial e pelo facto de as moedas nacionais deixarem de ter uma existência independente. No entanto, nos primeiros três anos da nova moeda, as diferenças foram pouco notórias, uma vez que a moeda europeia era uma divisa “invisível”, apenas utilizada para fins contabilísticos, como os pagamentos eletrónicos. Apenas em 2002, o Euro ganha forma com a entrada em circulação das notas e moedas de euros, passando a ser a moeda oficial dos 11 países da União Económica e Monetária.

Os desafios à moeda europeia têm sido recorrentes desde a sua criação, mas o euro tem sido capaz de fazer frente a todos os períodos mais turbulentos. Num primeiro momento, resistiu às fortes críticas e à descrença generalizada acerca do seu sucesso e, mais tarde, superou as primeiras grandes crises económicas, que acabaram por colocar em causa a sua sustentabilidade. A segunda década do Euro ficou, então, marcada pela crise financeira internacional de 2008 e pela crise da dívida pública de 2009.

O Euro é hoje uma moeda mais valiosa do que o dólar americano

Depois deste período marcado pela agitação política e económica e pela desconfiança em relação à divisa europeia, o Euro vive agora momentos de maior estabilidade e popularidade, sendo visível um aumento da confiança por parte dos cidadãos europeus. Os últimos dados do barómetro da Comissão Europeia indicavam que 74% dos cidadãos da Zona Euro consideram que a moeda única beneficia a UE, enquanto 64% defendem que é positiva para a economia do país em que vive.

Atualmente, a União Económica e Monetária é composta por 19 países e o Euro é já a moeda oficial de 340 milhões de cidadãos europeus. Para além de ter crescido no seio da União Europeia, também, a nível global, o Euro tem vindo a ganhar maior protagonismo e reconhecimento, sendo já mais valioso do que o dólar norte-americano e a segunda moeda mais utilizada em transações internacionais. Segundo o BCE, no final de novembro de 2018, havia em circulação 1,2 biliões de euros em notas e 28,78 mil milhões de euros em moedas.

Em jeito de balanço, relativamente a estes vinte anos do Euro, Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Euro, fala de uma moeda e de uma união monetária mais fortes e resilientes, preparadas para abraçar os desafios do futuro. “Colhemos lições importantes, fortalecemos a arquitetura da nossa União Económica e Monetária e o euro é hoje mais forte do que nunca. Todavia, o nosso trabalho não terminou. De futuro, o euro será tão estável quanto a nossa União Económica e Monetária.”

Quais os desafios que se avizinham para o futuro do Euro?

O futuro do Euro prevê-se, no mínimo, igualmente desafiante. São vários os desafios que podemos apontar à união monetária, desde a ameaça de uma nova recessão, a uma União Económica e Monetária algo fragmentada ou até o surgimento de movimentos populistas, antieuropeístas e anti Euro um pouco por toda a Europa.

O primeiro grande desafio com que o Euro se deparará nos próximos anos prende-se com a necessidade de um aprofundamento da União Económica e Monetária e de um reforço da moeda única, algo que já tem vindo a ser desenvolvido nos últimos anos com o “Relatório dos Cinco Presidentes”. Trata-se de um plano estratégico que uniu os presidentes da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu, do Banco Central Europeu e do Conselho Europeu e que já deu frutos ao nível da coordenação de políticas económicas e orçamentais dos Estados membros e dos mecanismos de resposta à crise. No entanto, a União Bancária e a União do Mercado de Capitais são objetivos ainda por concluir.

O primeiro passo para fortalecer a moeda única prevê-se que seja a conclusão da União Bancária, através do reforço de mecanismos de seguro de risco de crédito entre Estados-membros e do enfraquecimento do nexo entre bancos e soberanos. A União do Mercado de Capitais também deverá ser outro dos primeiros passos, tendo como objetivo mitigar as desvantagens competitivas entre empresas de diferentes países na obtenção de financiamento. Neste caso, a estratégia passa por promover uma maior harmonização dos regimes nacionais de insolvência e da regulação de instrumentos financeiros e pela introdução de mecanismos de partilha de risco orçamental.

A emergência de movimentos populistas, antieuropeístas e anti Euro em diversos países da Europa, como Itália, França ou Espanha, poderão ser outro dos grandes desafios do Euro. A moeda única enfrenta não só desafios financeiros, mas também políticos que a podem fragilizar e pôr em causa a estabilidade da união monetária.

Para contrariar esta perspetiva mais negativa, a moeda europeia poderá procurar tirar o maior partido possível da guerra comercial entre os EUA e a China, de modo a reforçar a confiança e a posição do Euro a nível global. A estabilidade da moeda única e da taxa cambial dos países da Zona Euro poderá ser vista pelos investidores como uma alternativa atrativa à instabilidade das economias americana e chinesa.

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