Radar económico

Que desafios enfrenta o BCE?

25 Novembro, 2019

Com a rentrée e as mudanças na presidência do BCE, este é o momento ideal para fazer um balanço e perceber quais os principais desafios que o Banco Central Europeu terá de enfrentar nos próximos meses. Será que a chegada de Christine Lagarde marca uma mudança na política monetária do BCE?


Os desafios que marcam a rentrée do BCE

O principal desafio que o BCE terá de enfrentar nos próximos tempos prende-se com o baixo crescimento económico da Zona Euro e a ameaça permanente de uma nova recessão. As previsões do organismo sobre o crescimento económico e a inflação são desfavoráveis, apontando para um crescimento de 1,1% este ano (em vez de 1,2% como estava previsto) e de 1,2% para 2020 (menos 0,2% do que a estimativa inicial) e para uma inflação abaixo dos 2% nos próximos anos.

Os conflitos geopolíticos atuais constituem outros dos desafios do BCE, pois poderão pôr em causa o crescimento da economia global. A principal preocupação prende-se com as consequências económicas da guerra comercial entre os EUA e a China. Mas, outros conflitos, como a disputa comercial entre o Japão e a Coreia do Sul, também não são esquecidos pelo BCE, sendo que poderão afetar as balanças comerciais das várias economias da Zona Euro. É preciso também prestar atenção ao surgimento dos movimentos populistas na Europa, normalmente contestatários da política monetária do BCE e favoráveis à adoção de medidas protecionistas, que afetarão ainda mais o crescimento destas economias. Também as implicações do Brexit, sobretudo de um hard Brexit, devem ser tidas em conta pelo BCE.

Ler Mais

Com a escolha de Christine Lagarde para a presidência do BCE, surgem também novos desafios associados à postura que a ex-diretora do FMI irá assumir. Desta forma, um dos seus grandes desafios está relacionado com a falta de sintonia entre os vários Estados-membros da união monetária. É fundamental, para o próprio futuro do Euro e do projeto Europeu, que a nova presidente do BCE estimule o diálogo e o consenso entre os diversos países em relação à política monetária.

O Bruegel, um think thank europeu especializado em economia, fala mesmo de uma “união monetária incompleta” que necessita que Lagarde assuma um papel ativo no alinhamento das políticas orçamentais dos Estados-Membros. Este organismo alerta, ainda, para a necessidade de assegurar respostas atempadas e unânimes perante qualquer choque que possa afetar as economias da Zona Euro.

E as próprias medidas implementadas pelo BCE também podem ser vistas como mais um desafio, na medida em que o espaço para utilizar novas estratégias ou novos elementos para estimular a economia é cada vez mais limitado. É fundamental que a política monetária seguida por Lagarde crie uma margem maior para aplicar estes instrumentos quando necessário.

A própria Christine Lagarde, perante o Parlamento Europeu, lançou mais um desafio para o seu mandato à frente do Banco Central Europeu: a aposta na inclusão e na inovação. Esta estratégia passa por envolver o BCE e a união monetária em novos temas da atualidade, como o desafio climático, os impactos da revolução tecnológica – nomeadamente na área financeira -, a desigualdade e a fragmentação da ordem internacional. Outro dos seus objetivos é aproximar o BCE dos cidadãos, tornando a sua comunicação mais dirigida à generalidade das pessoas.

Um novo pacote de estímulos para fomentar o crescimento da Zona Euro

Com um clima económico e político instável, Mario Draghi, à época ainda presidente do BCE, anunciou em meados de setembro um novo pacote de estímulos para fazer face às dificuldades e impulsionar as economias europeias. A nova descida das taxas de juro e o regresso às compras de ativos são duas das medidas que se destacam entre os incentivos.

A descida de 0,1% da taxa de juro de depósitos era já esperada pelos investidores, tornando-a assim ainda mais negativa ao passar de -0,4% para -0,5%. Isto obriga os bancos a pagar um valor ainda mais elevado para colocarem as suas reservas no cofre do BCE. Com esta medida, a entidade procura incentivar os bancos a acumularem menos reservas e a emprestarem mais dinheiro às empresas e às famílias como forma de estimular o crescimento económico A grande novidade em torno desta decisão assenta no facto de o BCE prever manter as taxas de juro “ao seu atual nível ou mais baixo até que veja a inflação a convergir robustamente para um nível suficientemente próximo, mas abaixo, de 2%, dentro do horizonte de projeção”.

O regresso às compras de dívida é outras das apostas do organismo para estimular a economia, tendo sido aprovado um valor mensal de 20 mil milhões de euros para esta operação. Porém, o BCE não anunciou para já qualquer alteração às regras do programa de compra de ativos, mantendo as limitações que o impedem de comprar mais dívida em alguns países – não pode deter mais de um terço de cada título de dívida – e não avançando para a compra de outro tipo de ativos, como ações.

O BCE anunciou ainda algumas medidas que visam proteger os bancos, nomeadamente a isenção da aplicação de taxas de juro negativas numa parte das reservas dos bancos e a melhoria das condições dos empréstimos de longo prazo que concede às instituições financeiras da Zona Euro. O prazo é alargado de dois para três anos e as taxas de juro passam a poder ser tão baixas como a taxa de depósito do próprio banco europeu.

Como será o futuro da política monetária europeia?

Nas suas primeiras declarações, Christine Lagarde mostrou a intenção de manter uma política monetária semelhante à que vinha a ser desenvolvida por Draghi. “Os desafios que justificam a política atual do BCE não desapareceram”, começou por explicar a nova presidente do BCE , “Portanto, estou de acordo com a opinião do conselho de governo de que uma política altamente acomodatícia está justificada por um prolongado período de tempo a fim de levar a inflação a (uma quota) abaixo mas próxima de 2%”.

Em relação a uma possível nova descida das taxas de juro, Phillip Lane, o novo economista-chefe da autoridade monetária, afirmou que “se for necessário, podemos baixar a taxa de juro ainda mais e, com ela, a taxa de juro paga no mercado overnight“, deixando assim em aberto a possibilidade de utilizar este instrumento novamente.

Ler Menos