Economia Pessoal

Criptomoedas: um investimento demasiado arriscado?

12 Setembro, 2019

As criptomoedas são uma atração para alguns investidores, mas será que estamos perante o futuro da economia mundial ou apenas de um investimento que acarreta demasiados riscos? Saiba como funcionam as criptomoedas e quais os principais perigos associados às moedas virtuais.


Criptomoedas: o que são e como funcionam?

Numa época em que a tecnologia se desenvolve a um ritmo vertiginoso, era natural que a inovação chegasse também à economia. É neste contexto que, em 2009, surge a primeira criptomoeda, a Bitcoin: “um novo sistema eletrónico de dinheiro”, segundo o seu criador Satoshi Nakamoto. O princípio basilar desta nova tecnologia centra-se na descentralização do controlo de emissão de moeda e de registo de transação, que deixa assim de estar dependente de entidades bancárias e passa a estar na posse de um sistema informático de encriptação, onde são registadas todas as operações, e onde qualquer pessoa pode participar, desde que possua os recursos tecnológicos necessários para tal, a famosa Blockchain. A Blockchain pode ser vista como um livro de registos, inviolável, onde estão apontadas todas as transações e todas as moedas em circulação, garantindo assim que as moedas não são duplicadas e protegendo o investimento.

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As criptomoedas consistem num código encriptado que para ter qualquer valor precisa de ser validado pelos membros deste sistema de encriptação e validação. É através da validação deste código que se geram mais criptomoedas, pois são usadas como forma de pagamento pelo “trabalho”. Outra forma de conseguir obter mais criptomoedas passa pela sua compra a empresas que convertem o seu dinheiro (euros, dólares, libras, etc.) nestas moedas virtuais, as quais ficam guardadas e são lhe disponibilizadas a partir de uma carteira digital.

Atualmente, existe no mercado uma variedade e multiplicidade de criptomoedas. A Bitcoin foi a primeira, mas a ela vieram juntar-se muitas outras, como a Ethereum, a Litecoin, a Ripple e a Monero. Recentemente, o próprio Facebook veio anunciar a criação de uma criptomoeda própria, a famosa Libra. Entretanto, as moedas virtuais também já chegaram a Portugal, através da empresa Aptoide que, durante a WebSummit de 2017, lançou a Appcoins. Todas estas moedas são utilizadas, muitas vezes, como uma forma de pagamento alternativa ou um tipo de investimento alternativo, embora, neste último caso, acarrete diversos riscos que podem pôr em causa o capital dos investidores.

Será este um investimento demasiado arriscado?

Desde os reguladores a bancos centrais dos vários países, passando pelo Congresso dos EUA e por Bruxelas, são várias a vozes que se têm ouvido a apelar aos investidores para estarem atentos aos perigos inerentes às criptomoedas, em particular, a dois deles: a falta de regulação e supervisão e a consequente volatilidade deste mercado. Estes dois perigos das moedas virtuais trazem, por sua vez, novas problemáticas e outros riscos para a discussão.

Sem regulação e supervisão, não existe nenhum organismo ou fundo que possa proteger os investidores das criptomoedas, ao contrário do que acontece com outros produtos financeiros, por exemplo, com os depósitos a prazo que estão protegidos pelo Fundo de Garantia dos Depósitos a Prazo. Desta forma, quem investe em moedas virtuais está sujeito a perder todo o dinheiro investido. Esta questão da supervisão e regulação leva-nos ao segundo grande perigo: a volatilidade, uma vez que ao ser um mercado não regulado, não existe nenhuma entidade que modere as valorizações e desvalorizações da moeda, estando, assim, o investidor sujeito a perder grande parte do investimento devido a uma desvalorização abrupta e repentina. A volatilidade das criptomoedas é bastante preocupante, na medida em que as oscilações acontecem a um ritmo alucinante, sendo, por isso, bastante suscetível à especulação, o que impede qualquer estabilidade no investimento.

Outro dos grandes perigos das criptomoedas está associado à segurança, uma vez que estas moedas, ao existirem apenas no ciberespaço, são mais propícias a serem alvo, nomeadamente, de ataques informáticos ou até de simples erros no código que poderão pôr em causa todo o investimento. A falta de regulação e supervisão também cria oportunidades para crimes como fraudes ou burlas, bem como para outras situações, que embora menos graves, poderão implicar a perda parcial ou total do capital investido, como, por exemplo, informação insuficiente ou incorreta e a falta de transparência.

A nível económico, as criptomoedas também acarretam alguns riscos, nomeadamente uma possível aceleração da inflação de forma repentina. Esta questão levanta-se devido ao facto de ser possível estar sempre a criar mais moeda e há, consequente, existência de mais valor a circular no mercado, o que pode acelerar rapidamente as consequências da inflação, pelo menos até ser alcançado o limite máximo de moedas virtuais permitidas.

Libra: a criptomoeda do Facebook que preocupa os reguladores

Desde que anunciou a lançamento da sua criptomoeda, em meados de junho, o Facebook tem sido alvo de várias críticas por diversos órgãos mundiais, que apontam variados riscos à sua moeda virtual, levando inclusivamente ao adiamento do seu lançamento e, possivelmente, até ao cancelamento do mesmo.

A primeira grande crítica veio do interior dos EUA, com o Senado e o Congresso norte-americanos a apontarem as questões de privacidade e proteção de dados como um dos grandes perigos associados a este novo produto do Facebook. Depois do escândalo Cambridge Analytica, são muitos aqueles que ainda desconfiam da capacidade da tecnológica para proteger os dados pessoais dos seus utilizadores. Ora, estando a falar de investimentos, esta preocupação ganha outra proporção.

Ambos os organismos mostraram-se ainda preocupados com a questão da cibersegurança, com os impactos que esta nova moeda virtual poderá ter nos mercados globais e ainda com as potenciais ameaças que poderá trazer para a segurança nacional dos EUA. A Fed aponta ainda a lavagem de dinheiro como outro dos perigos associados ao lançamento desta nova criptomoeda.

A este coro de críticas juntou-se também Bruxelas, cuja grande preocupação passa pela possibilidade desta nova criptomoeda trazer restrições à concorrência ao promover práticas anticoncorrenciais. Esta questão está relacionada com uma das particularidades desta moeda virtual, uma vez que a Libra, ao contrário da Bitcoin, não permitirá a entrada na Blockchain a qualquer pessoa, mas apenas a empresas e entidades que façam parte da Associação Libra, a entidade que ficará responsável pela criptomoeda – que conta, entre outras, com a Visa, a Mastercard, o PayPal, a Uber, o Spotify e a portuguesa Farfetch. Portanto, estando estas empresas à frente da criptomoeda, existe o perigo de virem a condicionar a ação de empresas concorrentes.

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