Radar económico

Baixa taxa de poupança das famílias portuguesas é um perigo para a economia

13 Agosto, 2019

Os portugueses estão a poupar cada vez menos, tendo a taxa de poupança recuado para 4,5% no primeiro trimestre de 2019. A incapacidade das famílias portuguesas de poupar deixa-as vulneráveis a situações inesperadas e tem implicações para a economia nacional.


Taxa de poupança das famílias em queda

As famílias portuguesas estão a poupar cada vez menos e os números são bastante esclarecedores: no primeiro trimestre de 2019, a taxa de poupança fixou-se nos  4,5%, o que representa uma queda de 0,1%  em relação aos últimos três meses do ano de 2018. Um valor especialmente baixo se comparado com os 12,6% estimados pelo Eurostat como a taxa de poupança dos cidadãos europeus no mesmo período. No entanto, é importante salientar que esta redução está relacionada com o facto de as famílias utilizarem grande parte do seu salário para as suas despesas, já que as despesas de consumo aumentaram 0,9%, enquanto o rendimento disponível subiu 0,8%.

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Portugueses poupam apenas 80€ por mês

No relatório de 2018 “European Payment Consumer Report”, a Intrum concluiu que os portugueses só conseguem poupar em média 80 euros por mês, um dos valores mais baixos da União Europeia e que está muito distante dos 385 euros de média na Europa. As despesas inesperadas são uma das principais preocupações dos cidadãos nacionais e é por isso que 66% dos portugueses têm uma conta poupança, percentagem que até se encontra acima da média europeia: 56%. Segundo o diretor-geral da Intrum, Luís Salvaterra, “ mais de metade dos portugueses possui uma conta poupança e isso demonstra o quão importante é a gestão do nosso dinheiro. Poupar é a melhor forma de nos prevenirmos de situações menos boas que possam ocorrer”.

Famílias vulneráveis, economia vulnerável

A falta de poupanças da população está, em parte, relacionada com uma política de baixas taxas de juro que fomenta os créditos e o consumo, tornando as poupanças menos atrativas. Porém, esta falta de poupanças é vista por muitos como um problema. O secretário de Estado das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, defende que a baixa taxa de poupança acaba por tornar as famílias portuguesas mais vulneráveis para o que denomina de “dias chuvosos”, seja devido ao aumento das despesas da população ou de uma possível redução de rendimentos, como, por exemplo, poderá acontecer em caso de desemprego ou com a entrada na reforma. Já o administrador do Banco de Portugal, Luís Laginha, alerta para o facto de a baixa taxa de poupança tornar as famílias portuguesas vulneráveis a choques externos, como, por exemplo, o aumento das taxas de juro que poderá afetar negativamente o rendimento, sobretudo, dos agregados familiares com crédito à habitação.

A incapacidade das famílias para fazerem face a tempos menos favoráveis acaba por colocar em causa o próprio desempenho económico do país. Ricardo Mourinho Félix defende que “uma das componentes essenciais para o crescimento da economia portuguesa é o reforço do investimento e, nesse sentido, o aumento da poupança é algo que vemos como importante.” Também o facto de a população estar cada vez mais envelhecida e consumista constitui uma ameaça para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e de segurança social, sendo necessário que as pessoas poupem ou reúnam um bom pé-de-meia, pois no caso de voltar a existir outra crise financeira, o país estará mais vulnerável. Além disso, para Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, o facto de o rácio do endividamento das famílias portuguesas estar acima da média da zona euro também acaba por contribuir para a vulnerabilidade da economia portuguesa.

De que forma se pode combater o baixo nível de poupanças em Portugal?

Perante a vulnerabilidade económica das famílias portuguesas, torna-se fundamental criar medidas para inverter este cenário. Nesse sentido, o FMI defende que devem existir incentivos fiscais de forma a combater o baixo nível de poupança em Portugal das empresas e das famílias. Por exemplo, a ainda líder Christine Lagarde acredita que uma das medidas passa pela promoção de uma poupança privada mais elevada que é necessária para um crescimento equilibrado da economia. O FMI apela não só à criação por parte das autoridades da regulação que é necessária à promoção dos regimes complementares para as pensões, como também à criação de incentivos fiscais que promovam o uso de esquemas complementares de poupança e de poupança individual para a reforma.

Incentivos fiscais à poupança é também o que pede a DECO e dá o exemplo da Bélgica onde uma das medidas implementadas para incentivar a população deste país a poupar passa pela isenção de juros de depósitos até 960 euros anuais. A entidade lamenta o facto de ainda não existirem medidas destas em Portugal e realça a importância de passarem a existir incentivos nesse sentido para que Portugal possa acompanhar a tendência europeia. Já o presidente da Associação Portuguesa de Fundos, José Veiga Sarmento, é apologista de que devia “obrigar-se as pessoas a poupar” mais para a reforma e nesse sentido dá o exemplo do sistema britânico que poderia ser um modelo a adaptar-se para o caso de Portugal, isto é, apostar num sistema em que os descontos para a Segurança Social sejam obrigatoriamente complementados com poupanças privadas.

O chefe da missão do FMI, Alfredo Cuevas, considera que apesar de a economia do país estar a crescer e as contas públicas estarem a melhorar, é necessário que se trabalhe de forma contínua para realizar mudanças que a economia precisa para crescer. Nessa medida, o economista também salienta que é preciso que as pessoas poupem mais dado que o país está a envelhecer, as reformas vão ficar mais baixas e por isso é importante que a população faça um esforço adicional, além do valor que é expectável receber da parte da Segurança Social.

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