pessoas e histórias

Como serão os supermercados do futuro?

9 Agosto, 2019

Adeus às caixas registadoras, adeus às longas filas para pagar as compras. O futuro já chegou aos supermercados e vem revolucionar a forma como compramos. A Amazon Go foi pioneira, mas um pouco por todo o mundo há empresas a trabalhar nos supermercados do futuro, inclusive em Portugal.


Amazon Go: sem caixas registadoras, sem dinheiro, sem filas, sem esperas

Depois de anos a desenvolver o conceito, em janeiro de 2018 abriu em Seattle a primeira loja da Amazon Go: um minimercado inovador que usa tecnologia de ponta para transformar a maneira como fazemos compras nas lojas físicas e a forma como o cliente vive essa experiência. Não seria de esperar outra coisa de uma empresa liderada por Jeff Bezos, o homem que fundou a Amazon e a levou de uma loja de venda de livros online a uma das maiores plataformas de e-commerce do mundo.

Ler Mais

Quem espreita pelas montras da Amazon Go não vê grandes diferenças de um supermercado tradicional: filas de variados produtos alinham-se nas prateleiras que cobrem a maior parte da área comercial. Mas então, em que é diferente a Amazon Go? A primeira diferença que salta à vista são as cancelas semelhantes às do metro para aceder à loja. É que para comprar neste espaço inovador, o consumidor tem de ter conta na Amazon e tem de instalar a aplicação do supermercado no seu smartphone. É através da leitura do Código QR gerado pela app no telemóvel que se entra na loja. Uma vez lá dentro, é possível perceber que o teto está coberto de tecnologia e que não existem caixas para efetuar o pagamento.

Sem caixas para registar e pagar os produtos, tudo funciona graças à tecnologia. As câmaras seguem todos os passos em loja de cada utilizador, os sensores nas prateleiras detetam quando um produto sai do sítio, a inteligência artificial e a capacidade de processamento de dados fazem o resto. A tecnologia utilizada é semelhante à que utilizam os veículos autónomos. O sistema sabe quando um utilizador pega num determinado produto – adicionando-o à lista de compras na app – ou quando o volta a pousar – o que retira o produto da lista – e quando passa os pórticos de saída finaliza a compra. Em minutos, o utilizador recebe a fatura com o que trouxe da loja e o dinheiro é descontado do cartão de crédito ou paypal associado à conta da Amazon. É só entrar, pegar e levar!

Muitos tentaram, mas não é fácil enganar o sistema. A tecnologia “just walk out” funciona mesmo e no interior do espaço comercial não se formam longas filas na linha de caixa. E se alguém vier acompanhado da família? Ou se a pessoa deixar os produtos fora das prateleiras originais? Não há problema, o sistema é capaz de detetar o produto que foi deixado para trás independentemente do local onde fique. E no caso das famílias ou de pessoas que estejam acompanhadas, tudo o que é preciso fazer é fazer scan de cada pessoa com a app. De seguida, cada um pode andar pela loja e tudo o que levarem será descontado na conta do portador da app.

Receitas 50% superiores às das lojas de conveniência tradicionais

O modelo da Amazon Go está a funcionar muito bem nos EUA. Desde a criação da primeira loja em Seattle, mesmo por baixo da sede da empresa-mãe, já abriram mais 12 lojas espalhadas entre Seattle, Chicago, São Francisco e Nova Iorque. Os planos da empresa passam por abrir 3.000 lojas até 2021 e há intenções de expandir o negócio para Londres, para aeroportos e campos universitários. A localização e os principais produtos vendidos nas lojas parecem indicar o motivo do sucesso. As lojas da Amazon Go localizam-se em grandes centros urbanos e muitas vezes perto de zonas onde se concentram escritórios e empresas. O local perfeito para vender os principais produtos da loja: bebidas snacks e refeições rápidas.

A Amazon não revela quanto investiu para desenvolver este sistema nem quanto fatura, mas os especialistas procuram fazer as suas estimativas. Só em equipamento tecnológico, estima-se que a Amazon necessite para cada loja de um milhão de dólares, ou seja, vai necessitar de três mil milhões de dólares para alcançar as 3.000 lojas. Se, como se estima, o ticket médio for de dez dólares, com cerca de 550 clientes por dia em loja gera todos os anos 1.5 milhões de dólares de receita. Pensa-se que o sistema utilizado permita às lojas da Amazon Go gerar receitas 50% superiores às das lojas de conveniência tradicionais. Não admira que muitos estejam à procura de replicar um negócio com tanto potencial e os empreendedores portugueses não são exceção.

Fundada em 2017, a Sensei assume que quer ser uma concorrente da Amazon Go. Também esta startup portuguesa está a desenvolver tecnologia própria para que os clientes possam entrar no supermercado, colocar as suas compras no carrinho e sair sem passar por nenhuma caixa ou fazer algum pagamento direto. O seu objetivo é ter já neste verão a primeira loja do género na Europa. Para já, existe uma loja simulada onde a empresa mostra como o sistema funciona. A prova de que há retalhistas interessados na sua tecnologia são os 600 mil euros já investidos por empresas como a alemã Metro AG e a Sonae Investment Management.

Será este o fim do supermercado tradicional?

Como em todas as tecnologias disruptivas, há vozes que alertam para o facto de que a implementação deste tipo de tecnologia vai acabar com muitos postos de trabalho, algo que não preocupa Amazon Go ou a Sensei. “As profissões desaparecem, mas os empregos não. Não faz sentido pormos centenas de pessoas a fazer trabalhos altamente mecânicos, ao dia de hoje não faz sentido essa profissão ainda existir”, diz Vasco Portugal, presidente executivo e cofundador da Sensei. A transformação e reciclagem de competências será o caminho para a adaptação dos profissionais.

Será que todos os supermercados funcionarão assim num futuro próximo? Talvez não. É possível que continue a haver clientes que prefiram frequentar espaços tradicionais e até quem escolha o espaço em função do tipo de compra e do tempo que tem disponível. Fazer compras online e recebê-las em casa, comprar online e levantar na loja, fazer scan dos produtos em loja e levantar tudo no final da compra, entrar e sair com produtos da loja sem passar por caixas, todas são formas de comprar que estão em voga. Uma coisa é certa, este tipo de tecnologia irá disseminar-se e haverá cada vez mais clientes interessados em usar o melhor da evolução tecnológica. Os retalhistas que escolham não acompanhar a tendência estarão em desvantagem e a deixar fora do seu target um grupo de consumidores cada vez mais relevante.

Ler Menos