Radar económico

A classe média estará a desaparecer?

1 Agosto, 2019

De acordo com um estudo apresentado pela OCDE, a classe média encontra-se em declínio. Mas afinal o que significa pertencer a este grupo? E quais são as medidas a tomar para inverter este cenário?


O que é a classe média?

No estudo apresentado pela OCDE intitulado “Sob pressão: as classes médias”, a entidade definiu o conceito de classe média como uma classe de “rendimento médio”, que se insere num intervalo entre os 75% e os 200% do rendimento anual médio da população. Ora, em Portugal, este rendimento médio encontra-se na faixa entre os 9.854 e os 26.278 euros, posicionando-se, assim, na vigésima quinta posição da tabela a nível mundial. Segundo a instituição, 60,1% da população encontra-se na classe média, sendo que 16,8% tem rendimentos baixos, isto é, entre 50% e 75% da mediana, 12,4% é considerado pobre e 10,6% possui rendimentos altos. Porém, Portugal é considerado o país onde menos famílias da classe média se identificam como tal, pois apenas 32% assume-se enquanto classe média.

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Se em tempos a classe média era a força da economia, a verdade é que hoje a influência económica deste grupo caiu drasticamente, dado que na OCDE os rendimentos médios apenas aumentaram 0,3% ao ano, o que representa um terço a menos do que rendimento médio dos 10% mais ricos. Aliás, é importante também salientar que o custo do estilo de vida de classe média aumentou de forma mais rápida que a inflação. Por exemplo, um dos setores em que os preços têm subido de forma exorbitante é o da habitação, tendo um crescimento três vezes maior que o rendimento médio das famílias nos últimos anos. Aliás, a habitação é considerada uma das maiores despesas para as famílias da classe média, correspondendo a 33% do seu rendimento médio.

Uma em cada cinco famílias gasta mais do que ganha

A classe média tem um papel fundamental para a economia, uma vez que é este grupo que mais suporta despesas ao nível do consumo, da educação, saúde e habitação, sendo crucial no que diz respeito à proteção social dos contribuintes. No entanto, atualmente é cada vez mais difícil para os millennials (jovens entre os 17 e os 35 anos) pertencerem a este grupo, o que não aconteceu com os “baby boomers”, já que 70% desta geração que nasceu durante a Segunda Guerra Mundial conseguiu entrar na classe média aos 20 anos. Uma mudança de cenário que pode ser verdadeiramente preocupante. Para o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, “a classe média mais parece um barco que navega em águas agitadas”, adiantando ainda que “os governos devem ouvir as preocupações dos cidadãos e proteger e promover os padrões de vida da classe média”, para garantir um crescimento económico inclusivo e mais estável.

Para além deste desaparecimento gradual da classe média que parece iminente, há outros aspetos relacionados com este grupo que estão a preocupar a OCDE. Um deles é a constatação de que uma em cada cinco famílias com um rendimento médio gasta mais do que ganha e uma em cada três pessoas é “economicamente vulnerável”, mesmo em países com sistemas de proteção social avançados. E a situação torna-se ainda mais preocupante porque há um maior risco deste grupo se sobre-endividar do que as famílias com rendimentos baixos ou altos. Além disso, também as perspetivas do mercado de trabalho causam alguma insegurança à classe média devido ao avanço da tecnologia. Segundo os dados que constam no estudo da OCDE, um em cada seis trabalhadores assalariados pode vir a ver o seu trabalho ser substituído por máquinas no futuro, em comparação com um em cada cinco trabalhadores de rendimentos baixos e um em cada dez de rendimentos altos.

Que medidas podem proteger a classe média?

Para a OCDE, é necessário que sejam tomadas medidas para apoiar a classe média perante este cenário. Ora, em primeiro lugar, os governos têm de melhorar o acesso aos serviços públicos de grande qualidade e oferecer uma proteção social melhor. Em segundo lugar, com o objetivo de solucionar os problemas relacionados com o custo de vida, é preciso haver habitação a preços mais acessíveis, dar apoio financeiro a empréstimos e reduzir os impostos aos compradores de imóveis que pertencem à classe média. Nos países com grande volume de dívidas no que toca à habitação, o alívio da hipoteca também irá ajudar as famílias deste grupo.

Relativamente ao emprego, perante os empregos instáveis e com salários baixos, a OCDE defende que é importante investir na educação vocacional e na formação profissional de forma a combater o desemprego. Além disso, a cobertura dos seguros sociais e da negociação coletiva deveria também ser aplicada a trabalhadores que estejam em empregos temporários, em regime part-time ou a indivíduos que trabalhem por conta própria. Para a OCDE é fundamental ainda promover a equidade do sistema sócio-económico de maneira a apoiar a classe média. Nesse sentido, as políticas praticadas devem ter em atenção a transferência da carga tributária da receita do trabalho para a receita de capital, os ganhos de capital, a propriedade e inclusivamente as heranças. 

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