Radar económico

Lítio: o combustível da inovação

30 Julho, 2019

Nos dias que correm, inovação e lítio parecem andar de mãos dadas, especialmente no caso dos veículos elétricos. Mas o que tem este metal de tão especial? De onde vem? Para que serve? E por que razão pode ser tão importante para Portugal?


Lítio: o metal que flutua

À primeira vista, o lítio parece-se com o chumbo, mas este metal é bem mais macio e tem metade da densidade da água, por isso flutua. Usado na indústria da cerâmica e vidros, nos ares condicionados, nos lubrificantes ou no tratamento de perturbações bipolares, há muito que o lítio faz parte dos nossos dias. Contudo, foram as inovações tecnológicas e, sobretudo, a revolução energética nos veículos automóveis que o trouxeram para as luzes da ribalta.

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Desenvolvidas nos anos 70, as baterias de iões de lítio começaram a ser comercializadas nos anos 90 e rapidamente conquistaram o mercado. Mais leves do que as baterias de níquel, têm também um melhor desempenho e uma maior vida útil, fatores que conjugados ajudaram a disseminar estas baterias entre os dispositivos tecnológicos. Telemóveis, portáteis e agora veículos elétricos usam-nas. Com a crescente preocupação ambiental e as políticas de incentivo à transição energética, as vendas mundiais de automóveis elétricos disparam 73% em 2018 totalizando 1,26 milhões de unidades. Portugal é mesmo o sexto país a nível mundial com mais vendas.

40 mil toneladas de lítio consumidas em 2017

Com o aumento das vendas de veículos elétricos e da potência das baterias usadas, também o apetite mundial por lítio tem crescido. Em 2017, o consumo elevou-se às 40 mil toneladas o que representa um aumento anual de 10% desde 2015. À medida que estes automóveis ganham quota de mercado, o consumo de lítio continuará a aumentar. Em junho deste ano, a França aprovou a “Lei da Mobilidade” que estabelece a proibição da comercialização de veículos com motores de combustão – gasolina e diesel – a partir de 2040. Com mais países a adotar medidas para alcançarem até 2050 a “neutralidade do carbono”, espera-se que esse processo acelere.

E quem são as empresas que mais necessitam de lítio? Os dados mais recentes apontam a Panasonic, empresa ligada às baterias da Tesla, como o maior consumidor deste metal com 23%. Se somarmos a LG Chem, Catl, BYD e Samsung SDI temos 75% do lítio consumido a nível mundial. Mas nem tudo são baterias. Em 2018 estas representavam 46% do consumo de lítio, seguidas das cerâmicas e vidro com 27% e do fabrico de óleos lubrificantes com 7%. Os polímeros representavam 5%, os pós de fundição de moldes 4%, a purificação de sistemas de ar 2% e 9% do lítio era consumido noutras atividades. Com tantas aplicações, a questão que muitos se colocam é: haverá lítio suficiente para o futuro?

Austrália, Chile e China no Top 3 dos produtores mundiais de lítio

Com exceção da Antártida, em todos os continentes existe exploração de lítio, umas vezes obtido a partir de minerais de rocha dura, outras através de salmouras. Em 2018, a Austrália liderava a extração deste material com 51.000 toneladas métricas, seguida do Chile com 16.000 t e da China com 8.000 t. Austrália e China usam sobretudo o processo de mineração, enquanto o Chile recorre às salmouras. Calcula-se que as jazidas de lítio no mundo ascendam a 53 milhões de toneladas e boa parte delas encontram-se nos principais países produtores, mas em nenhuma outra parte como no planalto de Altiplano-Puna. Cerca de três quartos das reservas conhecidas de lítio encontram-se num troço com 1.800 quilómetros de extensão nos Andes que incluí o Chile, a Argentina e a Bolívia, o chamado “Triângulo do Lítio”.

Enquanto o processo de extração do lítio a partir das rochas é mais rápido, o das salmouras é mais barato, mas nem o aumento da produção através deste último processo tem conseguido atenuar a escalada do preço deste metal. Reflexo claro do crescimento exponencial da procura, entre 2015 e 2018 os valores da tonelada quase triplicaram. Se em 2011 a cotação média do lítio era de cerca de 4.000 dólares por tonelada, atualmente o seu preço de mercado pode chegar aos 17.800 euros. Não admira que as baterias sejam por isso o que mais encarece o preço dos veículos elétricos.

Portugal já é o sexto maior produtor mundial de lítio

Muitos não o sabem, mas Portugal já é o sexto maior produtor mundial de lítio com 800 toneladas anuais. Só que o metal extraído em Portugal é usado sobretudo na indústria da cerâmica porque os recursos de lítio existentes são compostos naturais e não carbonatos de lítio que é o que serve para as baterias. Tudo indica, contudo, que o potencial para crescer é grande. Concentradas a norte do país, estima-se que existam reservas de lítio avaliadas em cerca de 60.000 toneladas, as maiores da Europa.

Portugal está em posição privilegiada e há muitos interessados em explorar o potencial das jazidas de lítio nacionais. Empresas como a Savannah Resources ou a Novo Lítio são apenas as mais conhecidas nesta corrida, mas não estão sozinhas. É por isso que o governo já mostrou a intenção de lançar um concurso público internacional para escolher quem vai fazer a prospeção, pesquisa e exploração de lítio em nove das doze áreas onde foi identificado um elevado potencial. Estabelecer parcerias com grandes empresas internacionais parece ser o caminho a seguir já que Portugal carece, até ao momento, de fábricas capazes de produzir compostos de lítio.

A existência de uma fábrica de concentração de lítio a nível nacional é, aliás, um fator-chave para que a exploração do metal possa gerar maiores benefícios económicos para Portugal, mas não só. Os fabricantes automóveis europeus estão também entusiasmados com a hipótese de o país poder vir a ser o primeiro produtor na Europa, uma vez que isso poderia vir a significar uma menor dependência internacional. Atualmente, a Europa tem de importar a totalidade do lítio que usa no fabrico dos veículos elétricos e Portugal poderia transformar-se num fornecedor principal. Para que isto aconteça serão necessários avultados investimentos e pelo menos mais alguns anos para tirar real proveito do potencial do lítio em território nacional. 

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