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Indústria têxtil: como é que um dos setores mais poluentes pode reduzir a sua pegada ambiental?

9 Julho, 2019

A indústria da moda é considerada uma das mais poluentes do mundo e de acordo com a União Europeia, a produção de roupa e calçado contribui para 8% dos gases que são emitidos anualmente. Estará este setor a destruir o planeta? E de que forma as marcas poderão contribuir para que esta indústria se torne mais sustentável?


A indústria da moda poderá destruir o planeta?

A indústria da moda encontra-se em segundo lugar no ranking das indústrias mais poluentes do mundo e é um dos setores que mais consome água a nível mundial. Sabia que para a produção de um par de calças de ganga, por exemplo, são necessários 10.000 litros de água? Além deste recurso, também as emissões de dióxido de carbono do setor têxtil representam cerca de 10% das emissões a nível mundial.

Esta significativa pegada ecológica começa ainda antes da confeção das peças de roupa propriamente ditas. A produção das matérias-primas é uma das principais responsáveis pelo impacto ambiental da indústria têxtil. O algodão, por exemplo, é um dos materiais mais usados na Europa – representa cerca de 43% de todas as fibras usadas no mercado europeu – e a sua produção implica um grande consumo de água. Já o poliéster é mais amigo dos recursos hídricos do que as fibras naturais como o algodão ou a seda, mas também tem as suas desvantagens: além de não ser biodegradável, a sua lavagem liberta uma grande quantidade de microplásticos e toxinas no ambiente que acabam por contaminar a nossa cadeia alimentar.

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Mas o impacto ambiental do setor têxtil não se fica por aqui: o processo de produção de roupa e calçado também é bastante agressivo para o meio ambiente. Para além de ser uma indústria que requer um grande consumo energético, a utilização de vários componentes químicos no tratamento dos tecidos e a aplicação de cores e acabamentos no geral tem um impacto negativo tanto na saúde como no ambiente. Se juntarmos ainda a esta fatura ambiental o impacto do transporte e distribuição – onde estão incluídas as embalagens, etiquetas, cabides, etc. – é fácil perceber porque é que a indústria têxtil tem lugar de destaque no ranking dos setores que mais põem em perigo o planeta.

Em Portugal deitam-se fora 200 mil toneladas de têxteis por ano

A produção e distribuição dos têxteis são responsáveis por boa parte do impacto ambiental do setor, mas não são os únicos. As consequências negativas para o ambiente não terminam quando uma peça de roupa é vendida: durante o tempo que está nas mãos dos consumidores – e mesmo no fim de vida – essa peça está a deixar uma pegada ecológica cada vez mais significativa. O número de lavagens, os detergentes nelas usados, o consumo de água e o destino que damos às roupas que já não usamos também têm um impacto no planeta.

A verdade é que a fast fashion não revolucionou apenas o mundo da moda, também criou um problema ambiental, com a produção de mais de 100 mil milhões de peças por ano. Isto significa que se produz cada vez mais roupa, e que os consumidores deitam fora roupa que já não utilizam ou não precisam mais rapidamente. Segundo os dados divulgados pela Agência Portuguesa do Ambiente, entre 2011 e 2017, foram colocados no lixo 1,2 milhões de toneladas de têxteis. De acordo com a Greenpeace, cada pessoa compra, em média, mais de 60% da roupa que comprava em 2000 e só as mantém metade do tempo.

Marcas apostam na sustentabilidade

Segundo Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, o futuro da indústria têxtil passa pela sustentabilidade e pela economia circular, tendo em conta que é necessário apostar no desenvolvimento de tecnologias economicamente sustentáveis que transformem os resíduos em matéria-prima. Nesse sentido, muitas empresas passaram a utilizar materiais reciclados na confeção do seu vestuário. Por exemplo, a H&M afirma que 57% dos materiais usados são reciclados ou de origem sustentável. Também a Zara apostou nesta vertente de reciclar roupa e disponibilizou vários pontos de recolha em algumas lojas do país com esse intuito. As peças recolhidas serão “doadas, recicladas, transformadas em novos tecidos ou comercializadas de forma a permitir o financiamento” de várias associações, como a Cáritas ou a Cruz Vermelha.

As recomendações de um estudo do Parlamento Europeu lançado no início de 2019 também vão no mesmo sentido. Para reduzir o seu impacto ambiental, a indústria têxtil tem de encontrar matérias-primas mais sustentáveis em alternativa ao algodão convencional, apostar em tecnologias de recolha e reciclagem e, claro, encontrar formas de otimizar todos os processos de produção e tratamento dos tecidos. Aumentar a longevidade das roupas, promover a slow fashion em oposição à fast fashion, aliada a uma redução de stocks e ao conceito de moda como serviço poderão ser outros caminhos a percorrer, que também terão de contar com o empenho e consciência ecológica dos consumidores.

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