Economia Pessoal

A estreia de Portugal nos Panda Bonds

1 Julho, 2019

Portugal foi o primeiro país da zona Euro a emitir dívida em moeda chinesa, estreando-se no mercado chinês de dívida pública com as famosas Panda bonds. Mas o que são? Será esta uma oportunidade para Portugal alargar a sua rede de investidores?


Panda bonds: o que são?

A colocação dos Panda Bonds, conhecidos também por títulos de dívida em renminbi por emitentes estrangeiros, está a ser preparada desde 2017 por uma equipa liderada por Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto e das Finanças.

Trata-se da primeira emissão em moeda chinesa de um país da zona euro e a terceira de um país europeu. De acordo com o comunicado divulgado pelo Tesouro português, Portugal colocou dois mil milhões de renminbi, correspondendo a 260 milhões de euros em panda bonds, a três anos, com juros anuais de 4,09%, sendo que a procura superou três vezes o valor da oferta.  Aliás, Nuno Caetano, analista da Infinox, reforçou que “com o volume da procura a ficar três vezes acima da oferta, fica bem demonstrado o sucesso desta emissão”. Embora o volume da oferta tenha sido extremamente elevado, era esperado um pagamento de taxa de juro inferior ao previsto, uma vez que a mesma dívida emitida em euro poderia apresentar condições mais vantajosas para o país.

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Além disso, é importante salientar que o montante colocado à venda é limitado, visto que é a primeira vez que Portugal realiza este tipo de operação de dívida num mercado oriental, e por essa mesma razão, o juro deverá ser superior ao esperado se a emissão for em euros. João Moreira Rato defende que “dada a dimensão pode valer a pena pagar uma taxa de juro mais elevada” e mantém uma postura otimista, dado que acredita que o mercado de panda bonds será um sucesso em Portugal. Segundo o Secretário de Estado Adjunto e das Finanças, o objetivo desta emissão passa por estar num mercado com liquidez e de grande dimensão. Já para Nuno Caetano, o principal objetivo assentava no aumento de investidores orientais em dívida pública portuguesa, tendo sido adotada a mesma estratégia em países como a Itália ou a Áustria.

Também o antigo presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), João Moreira Rato, está confiante quanto à colocação destas “obrigações pandas” e considera que não há razões para que o Tesouro não tenha sucesso na primeira emissão da dívida pública em moeda chinesa e elogia a inovação que é a operação efetuada em renminbi. E numa altura em que Portugal se encontra a pagar valores extremamente baixos para emitir dívida pública, o secretário de Estado Adjunto e das Finanças adianta que “o pricing só será fechado no dia da operação, mas antecipa-se que seja superior ao equivalente em euros”.

Panda Bonds: uma oportunidade para alargar a rede de investidores?

De acordo com a presidente da IGCP, Cristina Casalinho, apesar de esta operação ter demorado dois anos a ser concretizada e tenha uma taxa de juro associada elevada, vai acabar por compensar a longo prazo. A presidente acredita ainda que esta emissão de dívida em moeda chinesa surgiu como uma “oportunidade” de forma a Portugal alargar a sua rede de investidores. A responsável defende também que é importante que pensemos numa perspetiva a longo prazo, uma vez que “a China é um dos países com um nível de poupança mais elevado do mundo” e por isso poderá ser um grande interveniente no que diz respeito aos mercados financeiros a prazo. Para Cristina Casalinho, a emissão em renminbi encontra-se integrada na estratégia de diversificação de fontes de investimento.

De qualquer forma, a presidente assegura que a agência irá cobrir o risco cambial que implica esta estreia no mercado chinês. Tal como já aconteceu antes, quando Portugal emitiu títulos de dívida em dólares, irá existir uma cobertura total da operação em renminbi para o euro de maneira a evitar que as obrigações fiquem expostas às flutuações de taxa de câmbio. Para a líder da agência, os principais clientes serão investidores institucionais – bancos, por exemplo – que poderão não só adquirir títulos para as suas carteiras, como também por conta de clientes de retalho. Portugal entra assim no terceiro maior mercado de obrigações do mundo como forma a diversificar a sua base de investidores e, para já, com boas perspetivas por parte dos especialistas. 

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