Radar económico

Guerra comercial entre os EUA e a China: o que está em causa?

28 Junho, 2019

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China parece não ter fim e com o aumento das taxas alfandegárias as duas maiores economias mundiais não estão a conseguir chegar a um consenso. Mas afinal o que está em causa? E quais são as perspetivas de crescimento económico perante este conflito?


Disputas comerciais agravam-se

No final de 2018 tudo indicava que os Estados Unidos e a China chegassem a um consenso de forma a eliminar as taxas alfandegárias agravadas que foram aplicadas sobre centenas de milhares de milhões de dólares de bens importados dos dois países. Porém, este cenário não se verificou e Donald Trump acabou por comunicar uma subida de 25% nas tarifas de um grupo de produtos chineses no valor de 200 mil milhões de dólares. O presidente dos EUA ameaçou ainda alargar estas tarifas a um novo lote de bens chineses que ainda não são alvo de taxas aduaneiras  e cujo valor ascende a cerca de 300 mil milhões de dólares.

Já a China acabou por culpar os Estados Unidos pelo agravamento das disputas comerciais e desta forma o Governo chinês divulgou um relatório onde assegurou que a China não irá recuar nos seus princípios, já que “quanto mais se concede ao Governo dos Estados Unidos, mais este exige”. A verdade é que no centro do conflito estão os planos de Pequim para o setor tecnológico, que têm como objetivo transformar as empresas estatais do país em atores globais em setores de alto valor agregado, como por exemplo a inteligência artificial, a energia renovável e os carros elétricos. Os EUA consideram que estes planos violam os compromissos da China em abrir o seu mercado, nomeadamente ao forçar empresas estrangeiras a transferirem tecnologia e ao atribuir subsídios às organizações domésticas, enquanto são protegidas pela concorrência.

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China responde com exportações de metais raros

Zhang Hanhui,  vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, afirmou numa conferência de imprensa que “somos contra a guerra, mas não temos medo dela. Opomo-nos firmemente a este recurso sistemático às ações comerciais, taxas alfandegárias e ao protecionismo. Esta instigação premeditada de um conflito comercial é terrorismo económico, chauvinismo económico e assédio económico em estado puro”. É importante ainda salientar que Trump colocou a Huawei numa lista negra que restringe empresas dos EUA de facultar chips, semicondutores, software e outros componentes sem a aprovação do Governo. Porém, o presidente dos EUA acredita que o destino da empresa chinesa pode ser discutido caso venha a existir um acordo entre as duas grandes potências mundiais.

Por seu lado, a China, quando se viu perante uma guerra contra o seu setor tecnológico e face à ameaça das tarifas sobre todas as suas exportações para os EUA, decidiu interromper a exportação de metais raros para os Estados Unidos, que eram extremamente importantes no que toca ao fabrico de carros elétricos, smartphones e computadores. Desta forma, a China utilizou o uso dos metais raros como uma retaliação contra os Estados Unidos, o que fez com que as ações das empresas de mineração disparassem em bolsa.  A verdade é que os EUA dependem da China para cerca de 80% das suas importações de metais raros. Embora esta não tenha sido a primeira vez que Pequim utilizou estes recursos como arma, desta vez a medida resultou em ganhos muito significativos para alguns dos principais produtores chineses: a China Northern Rare Earth subiu 8,68%, a China Mimetals Rare Earth ganhou 10% e a JL Mag Rare-Earth valorizou 10,01%.

Quais são as perspetivas de crescimento económico perante o conflito?

De acordo com a visão do FMI, os principais perdedores desta tensão comercial serão, sem surpresa, os americanos e os chineses. Aliás, segundo a entidade, o impacto que as taxas dos EUA estão a assumir em relação à importação dos vinhos da China é notório nos dados do comércio, tendo um impacto modesto na economia global. Segundo o FMI, a taxa alfandegária imposta pelos EUA aos produtos chineses tem sido suportada pelos importadores que viram o seu negócio a ficar aquém daquilo que era esperado. Porém, com a alteração da taxa alfandegária relativa aos bens importados da China de 10 para 25%, a situação deverá ter consequências significativas também para os consumidores.

Relativamente às perspetivas de futuro para as duas maiores economias mundiais, o FMI estima que estas duas potências cresçam abaixo daquilo que é esperado na eventualidade de o conflito se manter, revelando uma perda de 0,6% para os EUA e 1,5% para a China. Para a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, esta tensão comercial é uma das grandes ameaças à economia mundial e este cenário pode provocar um corte de 410 mil milhões de euros no PIB mundial em 2020. Já Moscovici, Comissário Europeu para os Assuntos Económicos, defende que “o protecionismo é a principal ameaça para o crescimento mundial” e que o conflito irá ter um impacto de 0,5 a 0,6 pontos do PIB para a China e para os EUA.

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