Radar económico

Indústria têxtil: um setor em recuperação?

25 Junho, 2019

Se há uns anos a indústria têxtil encontrava-se em crise, em 2019 as vendas dispararam tanto no mercado interno como externo. Mas será que este crescimento veio para ficar? E quais os desafios que o setor deverá enfrentar no futuro?


Exportações da indústria têxtil crescem

De acordo com a Associação Têxtil e Vestuário Portugal, as exportações da indústria têxtil registaram nos primeiros meses do ano um crescimento homólogo de 1,1%, sendo que os têxteis especificamente revelaram uma subida de 3,2%. Relativamente ao vestuário, este apresentou uma evolução de 0,4%, com destaque para o vestuário de malha, que cresceu 1,3%. Também os têxteis de lar obtiveram uma subida de 0,2% face ao ano anterior. Desta forma, em termos globais, as vendas para o exterior atingiram um recorde de 880 milhões de euros.

Segundo a associação, Espanha é o país que lidera o ranking dos principais destinos da produção nacional, com uma quota de 28,7%, sendo que também foi o mercado que registou maior crescimento em termos absolutos. Já os Estados Unidos da América encontram-se em segundo lugar, com um aumento absoluto de cerca de três milhões de euros, tendo um crescimento de 10,7%, o que representa 7% do total das exportações deste setor. Itália também é um “cliente” cada vez mais importante para a indústria têxtil portuguesa, uma vez que apresentou um crescimento de 3,4%.

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Empresas têxteis nacionais com bons resultados, mas atentas aos desafios

A provar que o têxtil português vive uma fase de revitalização estão os bons resultados de algumas empresas do setor. Para a Inovafil, por exemplo, o crescimento nas exportações foi fundamental para os bons números de 2018 e as previsões positivas para este ano. Com um aumento de 15% no volume de negócios em 2018 face ao ano anterior, a produtora de fios diz que ainda precisa de ultrapassar alguns obstáculos relacionados com a competitividade, mas prevê terminar 2019 em alta. Segundo o CEO, Rui Martins, as boas perspetivas para este ano revelam “um trabalho que começou nos últimos dois, três anos” focado na melhoria da eficiência produtiva interna.

Também o grupo Polipique acompanha o momento positivo do Têxtil em Portugal, com um crescimento consolidado de 20% registado em 2018. A empresa, que tem como principal cliente o Grupo Inditex, vê na colaboração com outros parceiros da indústria e a grande aposta na exportação o segredo para os resultados que fazem antever um bom ano de 2019. Ainda assim, Luís Guimarães, presidente do Grupo, não deixa de destacar alguns obstáculos que ainda afetam muito o setor têxtil no país: o custo da energia e os baixos salários praticados na indústria são as suas maiores preocupações, já que podem funcionar como travão ao desenvolvimento do setor em Portugal.

Que desafios ainda enfrenta o setor têxtil em Portugal?

A verdade é que entre 2001 e 2009, o setor têxtil passou por um momento de crise que obrigou a uma transformação significativa na indústria. De acordo com os dados publicados pelo INE e pela ATP, neste período o volume de negócios caiu 35,8% para cerca de 5,4 milhões de euros, bem como o valor das exportações, que apresentaram um declínio de 30%, para cerca de 3,5 mil milhões de euros. Em consequência deste cenário negro, muitas foram as empresas têxteis que tiveram de fechar portas e aquelas que conseguiram manter-se no ativo tiveram que saber adaptar-se. Frederico Barreto, Advisory Senior Manager da consultora EY, diz mesmo que o perfil da indústria mudou drasticamente, uma vez que as “empresas que subsistiram à crise são, em média, mais pequenas do que anteriormente, mas são também muito mais flexíveis. Trabalham também com excelente qualidade de materiais e com prazos de entrega relativamente curtos”.

Os dados de 2019 são animadores e mostram um setor em recuperação, no entanto, o especialista destaca quatro obstáculos que as empresas da indústria têxtil ainda terão de enfrentar para poderem apostar no seu desenvolvimento em Portugal. Em primeiro lugar, Frederico Barreto menciona a questão da digitalização: a “internet of things” (IoT) está a transformar o mundo fabril e os empresários portugueses têm de acompanhar a tendência. Se querem continuar a ganhar mercados internacionais, para o especialista, “o desafio da digitalização não pode ser ignorado, pois será ele que elevará as empresas nacionais para um patamar competitivo que permitirá continuar a ombrear com a concorrência”. Em segundo lugar, o responsável refere que a dimensão está também relacionada com outros fatores, nomeadamente a profissionalização e a ambição.

Outro dos desafios que a indústria têxtil em Portugal enfrenta é a questão da dimensão e da escala. Se, no passado, o perfil familiar e de pequena ou média dimensão das empresas funcionava como um fator diferenciador, hoje significa uma limitação importante. E os empresários do Têxtil parecem estar a perceber isso. Frederico Barreto está positivo: “a sucessão dos líderes destas empresas pode marcar um momento de maior crescimento da profissionalização da gestão destes negócios, bem como um renovar das respetivas ambições. O aumento da escala coadjuvado pelas tecnologias digitais irá permitir a manutenção da flexibilidade do modelo de negócio do têxtil português”.

O terceiro obstáculo apontado pelo consultor diz respeito à diferenciação, ligada à marca e também à inovação. De acordo com o Advisory Senior Manager da EY, o private label irá continuar a estar na origem das maiores encomendas no setor têxtil, porém é fundamental a criação de marcas nacionais com credibilidade internacional, de forma a reduzir a dependência de clientes internacionais. Assim, torna-se essencial recorrer a recursos humanos qualificados para trabalhar a área do branding e do marketing com perspetivas diferentes das que se encontram atualmente em vigor.

Frederico Barreto aborda ainda a questão da capitalização, defendendo a ideia de que “o investimento em novas tecnologias, na modernização das operações fabris e no desenvolvimento de marcas próprias surgirão na linha da frente nas necessidades de capital dos negócios no têxtil”. Aliás, segundo o diretor da ATP, Paulo Vaz, será criada em 2019 uma rede social onde todos os profissionais portugueses de indústria têxtil que se encontram fora do país possam comunicar sobre as inovações do setor em Portugal, potenciando também os negócios. Este projeto foi realizado no âmbito do “Fashion From Portugal 4.0” e será posto em marcha entre 2020 e 2021, com o objetivo de apostar na área da comunicação e da digitalização de forma contínua. 

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