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Exportações ao rubro: a ascensão do pastel de nata no mundo

5 Junho, 2019

Os pastéis de nata andam nas bocas do mundo. De Lisboa a Singapura, passando por Nova Iorque, há cada vez mais supermercados, cafés e lojas a comercializar este doce típico português. A sua simplicidade parece ser o ingrediente secreto capaz de conquistar quase todos os palatos e o negócio é cada vez mais rentável.


Será o pastel de nata o próximo croissant?

Para a Bloomberg, o pastel de nata está “a caminho de se tornar tão ubíquo como o croissant”. No artigo de abril de 2019, a publicação destaca que o interesse pelo mais conhecido doce português está a crescer em todo o mundo. As comunidades lusodescendentes, assim como o destaque do próprio país no panorama turístico internacional, têm desempenhado um importante papel nesta ascensão.

Os números do turismo em Portugal batem recordes quase todos os anos e, quando regressam aos seus países, muito turistas querem voltar a saborear a famosa tarte de massa folhada com creme de ovos. Motivo suficiente para o aumento da exportação dos pastéis de nata, porém, existe outro e prende-se com os 50 milhões de euros investidos pelo governo português nos últimos três anos para promover no estrangeiro o país e os seus produtos. Não admira que a Bloomberg refira a cadeia de supermercados Lidl que, em 2018, vendeu 2.000 pastéis de nata por hora no Reino Unido.

Portuguese Egg Tarts: os pastéis do Oriente

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A Bloomberg e os países ocidentais podem estar agora a ficar “viciados” nos pastéis de nata, mas pelo menos desde os anos 90 que muitos asiáticos são fãs das “Portuguese Egg Tarts”. Curiosamente, estes “pastéis de nata” – maiores, mais doces e mais ao gosto do palato asiático – são obra de um inglês que descobriu o doce tradicional ao trabalhar num dos mais reconhecidos restaurantes de cozinha portuguesa em Macau. Andrew Stow desenvolveu uma receita própria e abriu a Lord Stow’s Bakery em Macau onde rapidamente despertou o interesse de macaenses e dos turistas que vinham de Hong Kong e de outros pontos da Ásia.

Depois do êxito em Macau, Stow abriu mais lojas noutros pontos da China. A cadeia de fast-food norte-americana Kentucky Fried Chicken acabou por comprar a receita dos pastéis e fez a sua grande entrada no mercado Chinês a vender as Portuguese Egg Tarts nos seus restaurantes em Hong Kong e Taiwan. Rapidamente o doce conquistou a China e o sucesso foi tal que os meios de comunicação chegaram a reportar as longas filas que se formavam à porta dos estabelecimentos que comercializavam os famosos pastéis. Até hoje, a China é o maior produtor e consumidor de “pastéis de nata” no mundo! Em 2010, já a KFC vendia anualmente 300 milhões de Portuguese Egg tarts com um retorno de 232 milhões de euros.

Pastéis de Belém: um doce com 200 anos de história pronto a exportar

A história da receita dos pastéis com recheio de creme de ovos é já bastante antiga. O mais famoso e o original dos pastéis de nata é, sem qualquer dúvida, o pastel de belém. A sua origem, assim como a maioria da doçaria tradicional portuguesa, é conventual. Depois da revolução liberal de 1820, muitos conventos e mosteiros do país foram encerrados, entre eles o Mosteiro dos Jerónimos. Reza a história que, para obter rendimentos, um dos clérigos desalojados começou a vender um doce que costumava fazer no mosteiro e cedo o pastel ganhou fama entre os habitantes de Lisboa como o “pastel de belém”. Diz-se que a receita original foi mantida em segredo e que a fábrica dos pastéis de belém continua a fazer, até hoje, um doce único. Talvez seja por isso que atualmente vende cerca de 20 mil pastéis de nata por dia.

A receita original foi guardada em segredo, mas a essência do doce foi recriada em vários pontos do país e Portugal rendeu-se aos pastéis de nata. Será que agora é o momento de os pastéis conquistarem também o resto do mundo? Em 2012, o então ministro da economia, Álvaro Santos Pereira afirmou que os pastéis de nata tinham o potencial para ser um negócio de franchising à escala global como o McDonalds. Muitos riram-se da ideia, mas, um pouco à imagem do que aconteceu com as Portuguese Egg Tarts, há cada vez mais empresas a provar que os pastéis de nata são um produto internacional.

Panicongelados: A exportar pastéis de nata desde 1994

Muito antes de Álvaro Santos Pereira ter lançado o repto para a globalização dos pastéis de nata, já a Panicongelados exportava os aclamados doces para o mundo. Constituída em 1994, a empresa familiar sediada em Leiria apostou na inovação para ser uma das pioneiras a nível nacional na exportação de produtos de pastelaria e padaria ultracongelados. Em 2012 já produzia 60 mil unidades de pastéis de nata por dia, 20% dos quais destinavam-se à exportação para vários países da União europeia, Canadá, Angola, entre outros. São cerca de 4 milhões de pastéis de nata por ano a adoçar bocas um pouco por todo o mundo.

Nata Pura: da tradição nascem novos sabores

Nascida em 2013 em Vila Nova de Gaia, a Nata Pura rapidamente se expandiu, sobretudo depois de, em 2016, ter tido um investimento de seis dígitos da Portugal Ventures ao abrigo do Programa + inovação + indústria. Um apoio que permitiu à empresa aumentar a sua capacidade de investimento e levar o pastel de nada a cada vez mais mercados.

Mas não foram só as natas tradicionais que chegaram a todo o mundo. Para agradar e conquistar mais estrangeiros, a Nata Pura inovou a receita e desenvolveu pastéis de nata com novos sabores: chocolate, chá verde ou frutos silvestres são alguns deles. Logo em 2016 chegaram aos armazéns Harrods e em 2018 passaram a ser comercializados no Reino Unido pela cadeia de supermercados norte-americana Costco. Outros mercados são a Irlanda, Arábia Saudita, França e Coreia do Sul. Atualmente a Nata Pura vende cerca de 500 mil pastéis de nata por mês em cerca de 5.000 lojas espalhadas pelo mundo, com uma faturação anual entre os 1,5 milhões e os 2 milhões de euros, valor que a empresa espera duplicar ainda este ano.

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