Radar económico

Finanças Sustentáveis: por um mundo e uma economia com futuro

29 Abril, 2019

Sociedade civil, governos, empresas e até instituições financeiras, todos estão cada vez mais conscientes e comprometidos com o desenvolvimento sustentável. Mas o que é que isso significa? O que está a ser feito na Europa? E em Portugal?


O futuro depende de um desenvolvimento sustentável

A questão não é nova, mas nos últimos anos ganhou um novo fôlego: como garantir um mundo sustentável? A sociedade civil tem-se mostrado cada vez mais preocupada com esta questão e, se é verdade que cada um pode contribuir para a sustentabilidade do planeta, também é certo que políticas e medidas mais alargadas são necessárias.

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Logo no final dos anos 80, com o relatório Bruntland das Nações Unidas, percebeu-se que era necessário incorporar nos modelos económicos tradicionais os impactos ambientais e sociais decorrentes da atividade humana. Daí nasceram a noção de sustentabilidade e modelos económicos que incluem estes impactos na forma como o lucro financeiro é gerado. A CMVM define o Desenvolvimento Sustentável como “um modelo de desenvolvimento económico que possibilita a satisfação das necessidades das gerações presentes sem hipotecar as necessidades das gerações futuras“.

Os critérios de sustentabilidade no mundo financeiro

Para um desenvolvimento sustentável são necessárias estratégias bem definidas que envolvam, num esforço comum, todos os agentes sociais: governos, empresas e investidores. Parte da solução passa pelas finanças sustentáveis, “qualquer serviço ou produto financeiro que integre critérios de sustentabilidade nas suas características”, de acordo com a CMVM. E que critérios são esses? São os fatores “ESG” – Environmental, Social and Governance – , na sigla em inglês ou, em português, fatores ambientais, sociais ou de governo das sociedades. As Organizações públicas, privadas ou até Não-Governamentais podem seguir modelos de negócio que incluam nas suas estratégicos estes fatores.

As finanças sustentáveis têm como objetivo contribuir para o desenvolvimento sustentável através do financiamento à invocação, à conservação e melhoria de infraestruturas com importância social, à promoção de uma gestão eficiente dos recursos, bem como à minimização dos impactos negativos a nível ambiental ou social. Ao mesmo tempo que o fazem, procuram contribuir para uma maior estabilidade dos mercados financeiros. Até porque o futuro dos mercados financeiros depende da sustentabilidade dos modelos usados. As próprias empresas e instituições já perceberam que ignorar os impactos das suas atividades acarreta riscos financeiros e reputacionais, por isso assistimos a um florescimento do interesse em projetos sustentáveis.

Investimento socialmente responsável já vale 30.7 biliões de dólares

O último relatório da Global Sustainable Investment Alliance, que agrega os dados de grupos de investimento de todo o mundo, estima que entre 2016 e 2018 os investimentos socialmente responsáveis cresceram a nível global cerca de 34% alcançando os 30.7 biliões de dólares. Gestores financeiros de todo o mundo referiram que os clientes estão cada vez mais interessados em estratégias sustentáveis e que as alterações climáticas são uma questão fundamental para os investidores. O investimento sustentável já representa 25% dos ativos geridos em todo o mundo e, de acordo com a Climate Bonds Initiative, a emissão de dívida verde bateu mais um recorde em 2017: 155,5 mil milhões de dólares.

A Europa é campeã no investimento sustentável

A Europa é identificada no relatório da Global Investment Alliance como a maior região ao nível do investimento sustentável com cerca de 14 biliões de dólares alocados a este tipo de estratégias, um aumento de 11% em relação a 2016. Mas o velho continente não quer ficar por aqui. Em 2015 a ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, uma agenda de atuação até 2030 com dezassete metas que visam a “criação de um modelo global de governo da Sociedade que se foca nos indivíduos, nos direitos humanos, na resposta às desigualdades sociais e em questões centrais como a paz, a segurança e as alterações climáticas.” A Europa está comprometida com estas metas.

Em 2018, a União Europeia apresentou o relatório final Financing a Sustainable European Economy onde dá a conhecer ações e políticas de médio e longo prazo para a integração das questões ambientais sociais e de governance em todo o sistema financeiro. Apesar de o Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos já ter gerado cerca de 250 mil milhões de euros em investimento sustentável, a UE reconhece que os atuais investimentos não chegam para promover a sustentabilidade do planeta. A Comissão Europeia refere serem necessários mais 180 mil milhões de euros para atingir a meta de redução das emissões de CO2 em 40% em todos os setores da economia até 2030 e cumprir com as restantes metas estabelecidas no Acordo de Paris.

Neste relatório propõe-se a criação de um sistema de classificação esclarecedor do que significa ser sustentável e de um rótulo à escala da UE para os fundos de investimentos ecológicos, bem como a clarificação dos deveres dos investidores para a criação de um sistema financeiro mais sustentável. A integração da sustentabilidade nos mandatos das Autoridades Europeias de Supervisão e a publicação de uma norma europeia para as obrigações ecológicas são outras duas propostas da UE. Além disso, também é referida no relatório a necessidade de uma melhor divulgação, por parte das empresas e instituições financeiras, de informações sobre o modo como o fator sustentabilidade é tido em conta nas decisões que tomam.

As primeiras regras, ainda sem caráter obrigatório, para a incorporação de critérios de investimentos que respeitem os ESG foram publicadas em janeiro de 2019.

Portugal e o Investimento Sustentável

Portugal ainda está a dar os primeiros passos nas finanças sustentáveis, mas já se começa a perceber uma mudança.  Em fevereiro, a Bolsa de Lisboa admitiu à negociação as primeiras obrigações verdes ou Green Bonds e o regulador aprovou o primeiro fundo de investimento social. CMVM e Euronext Lisbon concordam que para Portugal acelerar neste segmento de investimento é necessário aliar regulação e legislação aos incentivos para mudar a visão tradicional de gestores e investidores.

Sofia Santos, economista especializada nos temas da gestão sustentável, afirma que “em Portugal ainda há um caminho muito grande a percorrer até porque há muito desconhecimento, mas não faltam boas práticas para nos inspirarmos”. Também Gabriela Figueiredo Dias, presidente da CMVM, defende que “a tendência no futuro vai ser de termos uma postura de sustentabilidade em tudo o que seja finanças”. E lembra ainda que “há responsabilidades partilhadas por todos os intervenientes de mercado, mas também há riscos e oportunidades. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre as oportunidades que cria e os custos que tem”.

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