pessoas e histórias

A nova vida da porcelana portuguesa

12 Abril, 2019

A cerâmica portuguesa renasceu. O setor tem um peso cada vez maior na economia nacional e o interesse não se fica a dever somente aos portugueses, mas sobretudo aos estrangeiros que se mostram rendidos aos encantos da porcelana. Preparado para descobrir que empresas antigas ganharam um novo fôlego e as novas marcas que surgiram?


Cerâmica um setor exportador

A porcelana está na moda. A prova disso são os resultados apresentados pelo INE: em 2017, o valor das exportações dos produtos cerâmicos nacionais esteve próximo dos 715 milhões de euros. Aliás, Portugal já ocupa o 14º lugar no ranking das exportações mundiais de cerâmica e cristalaria, exportando, sobretudo, para França, Espanha, Estados Unidos da América, Alemanha, Reino Unido e Holanda.

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As gerações mais jovens, adeptas fervorosas das redes sociais, redescobriram o encanto e beleza que as peças de cerâmica decorativas têm. Além de darem um toque artístico e muito pessoal às suas casas, compõem excelentes fotos para partilhar no Instagram criando um movimento global de procura por este tipo de artigos.

José Sequeira, Presidente da Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristalaria – APICER – diz que “Portugal tem um longo know how na cerâmica de excelência. Alguns produtos de algumas empresas são obras de arte, que transmitem emoções, acompanham a moda e a criatividade, contando histórias”.  E que histórias contam as empresas portuguesas?

Bordallo Pinheiro: um génio que perdura

Todos estão de olhos postos nesta marca portuguesa que celebra este ano 135 anos de existência. A Bordallo Pinheiro nasceu pelas mãos do visionário e crítico social que lhe emprestou o nome, Raphael Bordallo Pinheiro, e mantém até hoje o génio exuberante do seu fundador. A partir da Fábrica de Fianças das Caldas, Bordallo Pinheiro marcou os séculos XIX e XX portugueses com a sua loiça em forma de vegetais, – em casa portuguesa não falta uma peça de cerâmica em forma de couve – com a figura contestatária do Zé Povinho,  com as andorinhas que se converteram no símbolo da diáspora portuguesa ou com a majestosa Jarra Beethoven, uma peça com mais de 2,60 metros de altura e que se encontra hoje exposta no Museu das Belas Artes no Rio de Janeiro.

Da sua mente criativa, humorística e mordaz saíram ainda os mais variados objetos: azulejos, painéis, jarras, potes, centros de mesa e animais gigantescos, todos executados com atenção ao pormenor e primando pela técnica e arte. Em 2008, com a chegada da crise, a empresa conseguiu fintar a falência graças ao grupo Visabeira que acreditou na marca e resolveu investir. Foi preciso modernizar a fábrica e criar um movimento que juntou vários artistas plásticos, conhecidos como Bordallianos, para dinamizar a marca e inovar os conceitos. Uma aposta que se revelou vencedora.

O Kitsch tornou-se cool, tanto que em 2015 a empresa já faturava 4,8 milhões de euros por ano e, segundo o administrador do grupo, Nuno Barra: “A procura cresceu tanto que a fábrica não tem capacidade de resposta.”

Costa Verde: A loiça que conquistou a Hotelaria de Topo

A Costa Verde pode não ser uma das marcas de cerâmica mais conhecidas em Portugal, mas as suas peças dominam os setores hoteleiro e da restauração. Do Ritz-Carleton à Nespresso há pratos, chávenas e muito mais a serem produzidos nesta fábrica de Vagos, Aveiro. O percurso para chegar aqui não foi fácil, mas o objetivo foi sempre ser uma grande fábrica de porcelanas. Nascida em 1992, a estratégia da empresa passou por lançar peças associadas a designers famosos que ajudaram a internacionalizar a marca. Depois de passados quase 20 anos sobre o lançamento das primeiras linhas de hotelaria as suas peças estão espalhadas um pouco por todo o mundo. Atualmente a empresa produz cerca de 45 mil artigos por dia, são 11 milhões de peças anuais, das quais 75% se destina à exportação.

Vista Alegre: Tradição e inovação de mãos dadas

Fundada em 1824 em Ílhavo, Aveiro, a Vista Alegre é a mais antiga unidade industrial dedicada ao fabrico de porcelanas em Portugal. Logo em 1824, a pedido de José Ferreira Pinto Basto, o homem por detrás deste empreendimento, D. João VI autoriza o estabelecimento da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre e cinco anos depois, como reconhecimento da sua arte, confere-lhe o título de Real Fábrica. Para além da qualidade, as suas peças sempre se caracterizaram por uma estética mais romântica que conquistou muitos fãs ao longo de várias gerações. Hoje é visível uma clara aposta em parcerias com designers que têm contribuído para que várias criações recebam prémios de design e distinções internacionais.

A modernização, com a melhoria contínua dos processos industriais e a inovação ao nível da investigação e desenvolvimento de novos produtos, foi um fator chave para o sucesso. A Vista Alegre é uma das empresas cotadas na Bolsa de Lisboa e em 2018 apresentou um lucro de 5,94 milhões de euros, um valor que correspondeu a um aumento de 39,5% em relação a 2017. Em 2019, a empresa tencionava lançar um Oferta Pública de Distribuição (OPD) e angariar um mínimo de 30,5 milhões de euros com a dispersão de 17,5% do capital para diminuir a dívida e fazer novos investimentos, mas tal não aconteceu por causa da conjuntura dos mercados internacionais. Nuno Marques, presidente do Conselho de Administração reiterou, no entanto, que a OPD “fará parte da estratégia futura.”

Costa Nova: Já conquistaram o mundo, agora querem conquistar Portugal

Da empresa Grestel, criada em 1998 por Miguel Casal e Rui Batel para produzir artigos de porcelana para conceituadas marcas internacionais como a Ralph Lauren, nasceu, em 2006, a marca própria com o selo Costa Nova. Com peças que vão das mais simples e utilitárias às mais sofisticas e decorativas, a Costa Nova já se afirmou como uma referência internacional entre as marcas de cerâmica nacionais. Razão pela qual 98% da sua produção se destina à exportação para mais de 40 países, com especial destaque para os mercados francês e alemão, mas também Japão, China ou Coreia do Sul.  Para investir no reconhecimento nacional da marca, a Costa nova abriu, no final de 2018, uma loja em Lisboa onde pode encontrar grande parte das suas peças mais características.

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