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Portugal e energia eólica: será esta uma relação de futuro?

10 Abril, 2019

O Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia estabeleceram que cerca de 35% da energia produzida em Portugal em 2030 deverá ter como recurso fontes renováveis, passando a ser um dos principais países estimuladores do setor eólico na Europa. Será esta uma tendência a manter no futuro? E de onde virá o investimento?


Energia eólica em Portugal e na Europa

Portugal é visto como um exemplo no que toca às energias renováveis e atualmente conta com cerca de 250 empreendimentos eólicos, correspondendo a uma potência instalada de 5,3 GW. No total dos parques eólicos que se encontram em Portugal, 19% têm uma idade que varia entre os 15 e os 20 anos e contam com uma potência instalada de 339,52 MW. Em 2018 a produção de energia renovável representou 103,6% do consumo, sendo que Portugal esteve registou mesmo 70 horas em que o consumo foi totalmente assegurado pelas energias renováveis. Tudo indica que as centrais offshore europeias vão crescer na próxima década. De acordo com a associação WindEurope, estima-se que os 16 gigawatts registados no final de 2017 possam evoluir para quase 100 GW até 2030 e o Reino Unido, a Holanda e a Alemanha irão manter-se como líderes deste setor.

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Segundo a associação, em 2018 a nova capacidade instalada de energia eólica na Europa superou a capacidade instalada de qualquer outro tipo de energia no continente, pois no ano passado a energia eólica foi responsável por 14% da eletricidade gerada na União Europeia. Na Europa, a capacidade eólica instalada é de 189GW, dos quais 170GW em terra e 19GW offshore, sendo este é o tipo de energia mais utilizado na Europa a seguir ao gás natural. A WindEurope reforça ainda que em 2018, “a Europa instalou 11,7 GW de uma nova capacidade eólica (9GW em terra e 2,65GW offshore), menos 32% do que em 2017, e que o último ano foi aquele em que menos capacidade se instalou em terra desde 2008”.

A Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) e a associação ambientalista Zero avançaram num comunicado no ano passado que a produção de eletricidade renovável no mês de março ultrapassou o consumo de Portugal Continental e este cenário “é um exemplo do que se passará a verificar mais frequentemente num futuro próximo. Espera-se que até 2040 a produção de eletricidade renovável seja capaz de garantir, de forma eficaz, a totalidade do consumo anual de eletricidade de Portugal Continental”. 2018 foi um ano marcante tanto para Portugal como para Europa e os números não enganam: de toda a capacidade instalada no último ano, 48% diz respeito à energia eólica, representando 18,4% do total da capacidade de produção energética na Europa, sendo que 63% dos investimentos foram utilizados neste tipo de energia.

Segundo a APREN, só no primeiro semestre de 2018 a energia eólica representou 61% do total da produção eólica de Portugal Continental, valor que está relacionado com o facto de existir uma maior disponibilidade de recursos eólicos. E em 2019 as previsões também são positivas, já que a produção eólica em Portugal bateu um recorde diário de 101,9 GWh em janeiro, valor acima dos 99,6 GWh do ano anterior. A gestora da rede elétrica nacional adianta que “a produção eólica verificada correspondeu a 61% do consumo diário (167 gigawatts por hora), colocando Portugal à frente da Europa em share da energia desta origem”. Também a EDP Renováveis se encontra a desenvolver projetos no total de 3.567 MW para entrarem em vigor até 2022, em Portugal, França, Reino Unido e nos Estados Unidos.

Quais são os investidores de energia eólica em Portugal?

Portugal tem investido bastante na energia eólica nos últimos anos, porém com a aproximação do fim das tarefas bonificadas e o envelhecimento das centrais, a EDP Renováveis alertou na Conferência anual da APREN que Portugal corre o risco de deixar de ser campeão nas renováveis na próxima década. Para a empresa energética, metade da potência instalada de energia eólica em Portugal deixará de ter tarifa bonificada até 2023 e a eletricidade passará a ser vendida diretamente ao mercado. Além disso, existe a condicionante de que por esta altura as centrais deverão ter atingido o limite da sua vida útil – cerca de 20 anos.Por isso, além de a produção poder diminuir, os custos de manutenção também acabarão por aumentar. A EDP Renováveis acredita que o futuro da energia eólica em Portugal passa pelo “repowering”, sendo que para isso falta “aprovar um quadro regulatório que transmita confiança aos investidores e que os estimule a modernizar os seus ativos eólicos”.

Um estudo da consultora FTI defende que nos próximos nove anos deverão ser instalados 2.150 MW de potência em Portugal, tendo em conta que a maioria da nova potência irá substituir os aerogeradores que terão atingido o fim da sua vida útil, num total de 1.698W. Segundo as previsões da consultora, em termos líquidos, a potência instalada irá crescer 441 MW até 2027, apesar de, em termos brutos, os promotores terem de instalar mais 2.150MW. Portugal conta também com investidores estrangeiros, nomeadamente o Lancashire County Pension Fund (LCPF) que detém cerca de 500 megawatts de parques eólicos em Portugal, estando entre as cinco empresas com maior capacidade instalada no país. Este fundo é um dos maiores fundos de pensão públicos regionais no Reino Unido, com 5,5 mil milhões de libras de ativos sob gestão, sendo considerado o primeiro investimento direto em Portugal por parte de fundos públicos de pensões ingleses.

Além disso, também os australianos da First State Investment compraram os ativos eólicos da Enel Green Power em Portugal por 900 milhões de euros. E também a multinacional dinamarquesa Vestas, com instalações em Matosinhos, investiu dez milhões de euros no setor eólico português. Mas a EDP Renováveis não se ficou atrás, pois a empresa que é líder mundial no setor da energia renovável e o quarto maior produtor da energia eólica do mundo assinou, no final de 2018, um contrato com a Salesforce, através da sua filial EDP Renewables North America, onde ficou acordado a compra e venda da energia elétrica de 80MW durante 15 anos de forma a vender a energia produzida no parque eólico Bright Stalk em McLean County, no Estado de Illinois. Para o CEO da EDP Renováveis, esta colaboração representava a abertura de novas portas para se expandir enquanto líder do setor eólico no estado de Illinois.

Primeiro parque eólico flutuante offshore do mundo

A primeira central eólica flutuante do mundo vai ser inaugurada em Portugal em 2019 e estará situada a 20 km da costa de Viana de Castelo. A empresa responsável por este projeto é a Windplus, subsidiária da EDP Renováveis, Repsol e Principle Power, e a construção desta central implicará um investimento total de 125 milhões de euros nos próximos três anos, avançou em comunicado o presidente da EDP no final de 2018. O CEO da EDP, António Mexia, considera que “este projeto é pioneiro e inovador a nível mundial” e afirma que os custos podem atingir os 65 euros por MWh e não descarta a possibilidade de um futuro de exportação desta “nova geração de energia eólica”, que pode ser replicada em países como a França ou o Japão que “precisam de energias renováveis, mas que não têm espaço em terra e apostam no eólico offshore e nestas tecnologias inovadoras, nas quais Portugal consegue provar que está na linha da frente”.

A ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, aprovou este projeto defendendo que “a indústria portuguesa na área das energias renováveis oceânicas tem um mercado potencial de 59 mil milhões de euros até 2030, em termos de exportações da energia eólica offshore flutuante, por isso a instalação deste parque nas águas profundas de Viana do Castelo será o showroom tecnológico da capacidade de Portugal”. João Manso, presidente da EDP Renováveis, apoiou a visão da ministra do Mar, uma vez que acredita que este parque eólico irá tornar a tecnologia competitiva, contudo salienta a necessidade de baixar os custos, pois “se conseguirmos baixar os custos, amanhã teremos outros países a lançar grandes concursos de eólicas flutuantes. Este projeto é um trampolim para o futuro” .

A ASM Industries também assumiu uma participação ativa para fazer nascer este projeto e nesse sentido apresentou um plano de investimento de 40 milhões de euros para os próximos três anos: dez milhões estão destinados para as fábricas do Sever do Vouga e Setúbal e 30 milhões para uma nova unidade de produção em série de fundações offshore no porto de Aveiro, que entrará em vigor ainda em 2019. O CEO da empresa, Adelino Costa Matos, defende que o objetivo desta construção passa por “exportar para a América do Norte daqui a 5 anos e prevê que em 2020 estará a faturar 50 milhões de euros (70% no offshore)”, não esquecendo que este projeto, intitulado de Windfloat, é uma tecnologia americana que se instalou em Portugal.

Está previsto que o parque eólico esteja funcional até ao final do ano de 2019, tendo potencial para produzir eletricidade suficiente para 60 mil pessoas e com uma capacidade de 25 MW transmitidas por três turbinas eólicas com uma capacidade de 8,4 MW cada, colocadas em plataformas flutuantes, no fundo do mar a uma profundidade de 100 metros. Numa primeira frase de testes à tecnologia, o projeto teve um investimento de 23 milhões de euros para uma única turbina de 2 MW. António Mexia relembra que a primeira torre eólica flutuante aguentou ondas de mais de 15 metros no oceano Atlântico, ao largo da costa portuguesa, na mesma semana em que McNamara atingiu o recorde da maior onda surfada na Nazaré, por isso. para o CEO faz todo o sentido avançar agora com o desenvolvimento do primeiro parque eólico flutuante offshore do mundo.

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