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E o prémio nobel da economia de 2018 vai para….

18 Março, 2019

Uma vida dedicada ao estudo dos impactos económicos das alterações climáticas e das novas tecnologias valeram a William Nordhaus e Paul Romer a distinção com o prémio nobel da economia em 2018.


Criar um crescimento económico sustentável a longo prazo

Hoje sabemos que questões como as alterações climáticas ou as inovações tecnológicas têm enormes impactos, não só na nossa vida diária, mas também na economia. Contudo, ao longo do século XX isso não foi sempre assim tão claro, sobretudo porque não era fácil quantificar esses impactos. Foram, justamente, estudos realizados para integrar as alterações climáticas e as novas tecnologias com a análise macroeconómica que valeram a William Nordhaus e Paul Romer o nobel da economia.

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Sabemos também que, na atualidade, quaisquer políticas económicas de futuro têm que abordar estes dois temas. Por isso, a Real Academia Sueca das Ciências distinguiu os dois economistas dos Estados Unidos por, em diferentes áreas, terem “criado métodos para fazer face a algumas das mais básicas e importantes questões do nosso tempo, sobre como criar um crescimento económico de longo prazo sustentável”.

O custo das alterações climáticas

O crescimento económico tem sido fonte de inúmeras melhorias na vida das sociedades: melhor saúde, educação, habitação, melhores condições de vida no geral. Mas a verdade é que esse crescimento tem que ser sustentável, não pode ultrapassar a capacidade do mundo natural o sustentar, sob pena de destruirmos a condições alcançadas e colocarmos em causa o próprio crescimento.

William Nordhaus, nascido em 1941 na cidade de Albuquerque, foi um pioneiro das questões climáticas. Desde os anos 70 que o economista relaciona nos seus estudos a sociedade e o mundo natural e foi um dos primeiros a demonstrar preocupação em relação à forma como a queima de combustíveis fósseis estaria a levar a um clima mais quente.

Em meados dos anos 90, o agora professor da Universidade de Yale, foi o primeiro economista a desenvolver um modelo de análise integrado capaz de avaliar a interação entre economia e clima. Um modelo quantitativo que “integra teorias e resultados empíricos da física, química e economia” e que se tornou uma referência para este tipo de análise.

Já em 1993 Nordhaus deixava o alerta: “a Humanidade está a arriscar a sua sorte na relação com o ambiente natural, através de uma multiplicidade de intervenções — injetando na atmosfera gases vestigiais como os gases com efeito-estufa ou químicos que libertam ozono, promovendo enormes alterações sobre o uso dos territórios como a desflorestação, eliminando várias espécies [animais] nos seus habitats naturais ao mesmo tempo que criam espécies transgénicas em laboratório, e acumulando armas nucleares suficientes para destruir as civilizações humanas”.

Nordhaus foi homenageado precisamente um dia após terem sido conhecidos os resultados do Relatório Especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas. Para a comunidade científica, que há 40 anos estava longe de ser capaz de projetar todas as consequências do aquecimento global, nos próximos anos assistiremos ao aumento do nível do mar, de fenómenos climáticos extremos e, consequentemente, à destruição de ecossistemas.

Neste relatório fica demonstrada a importância de todos os países se unirem no esforço de limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius em relação ao período pré-industrial e não aos 2 graus Celsius estimados como o valor limite no início da década. Se o conseguirem fazer, a comunidade científica acredita que serão atenuados os efeitos negativos do aumento de temperaturas sobre a saúde, a biodiversidade e até sobre a produção alimentar.

Em declarações à Associated Press, o pai da economia das alterações climáticas diz que, de acordo com os seus cálculos, mesmo num cenário de aquecimento moderado da temperatura, os prejuízos anuais só para os EUA andarão na ordem dos 3.5 biliões de euros. Nordhaus é um dos principais defensores de pesadas taxas de carbono para os principais poluidores como a melhor forma de encorajar as empresas a investirem em formas inovadoras de reduzir a poluição.

As inovações tecnológicas na economia

Paul Romer, nascido em 1955 em Denver nos EUA, dedicou a sua vidaa estudar a relação entre inovação e crescimento. O antigo economista-chefe do Banco Mundial apresentou estudos em 1990 que inspiraram a chamada teoria do crescimento endógeno, que, tal como sublinha a Real Academia Sueca no seu comunicado, “integra a inovação tecnológica na análise macroeconómica de longo prazo.”

Professor na Stern Business School da Universidade de Nova Iorque, Romer preocupou-se em demonstrar a forma como o conhecimento pode ser um fator de crescimento económico a longo prazo. A inovação e as novas tecnologias já eram vistas pelos economistas como fundamentais para o crescimento, mas para Romer a inovação não poderia ser encarada como um fator exógeno e incontrolável.

Como se pode ler no comunicado da Academia, “pesquisas macroeconómicas anteriores já tinham enfatizado a inovação tecnológica como o principal motor do crescimento económico, mas não tinham criado um modelo de como as decisões económicas e as condições de mercado determinam a criação de novas tecnologias. Paul Romer resolveu esse problema demonstrando como as forças económicas governam a disposição das empresas para produzir novas ideias e inovações.”

Com trabalhos que pretendem compreender como a revolução industrial permitiu acelerar tanto a economia, o economista defende que está nas mãos dos Estados estimular a inovação que trará os futuros ganhos económicos, quer através do financiamento direto à investigação, quer através de regras para as patentes que equilibrem o estímulo à inovação e a partilha de conhecimento.

Paul Romer e William Nordhaus já eram há vários anos apontados como sérios candidatos ao nobel da economia, o que não se esperava era que fossem distinguidos em conjunto.

Na realidade, o Prémio de Ciências Económicas do Banco Real da Suécia em Memória de Alfred Nobel não é formalmente um Prémio Nobel já que não faz parte dos originalmente instituídos no testamento do cientista e filantropo sueco. Ainda assim, é considerada a mais alta distinção para um economista que, para além do prestígio, recebe um diploma, uma medalha de ouro e um cheque de cerca de 850 mil euros, que este ano será dividido entre os dois economistas.

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