Radar económico

Aeroporto do Montijo: o que está em causa?

8 Março, 2019

Ainda este ano está previsto arrancarem as obras do novo aeroporto civil do Montijo que promete ajudar Portugal a conquistar milhares de novos passageiros. O que está previsto fazer? Como vai funcionar? O que está em causa?


Um aeroporto no limite

A solução encontrada e a escolha da localização podem não serem consensuais, mas numa coisa todos estão de acordo: o aeroporto de Lisboa está a operar no limite e é urgente uma solução. Se nada for feito, a capacidade de resposta do aeroporto Humberto Delgado está seriamente posta em causa devido ao constante aumento da procura. Francisco Pita, administrador da ANA, lembra que o crescimento é hoje superior ao esperado e que isso faz com que Lisboa perca “1.8 milhões de passageiros por ano.”

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Portugal está na moda. O número dos que visitam o país tem vindo a crescer acentuadamente nos últimos anos. Em 2018 bateu-se mais um recorde com 12.76 milhões de turistas estrangeiros. E claro que muitos destes passageiros escolhem o meio aéreo para chegar ao nosso país: o tráfego nos aeroportos nacionais geridos pela ANA cresceu, em 2018, 6.8%. O aeroporto de Lisboa é o grande recordista: passaram pela Portela 29 milhões de pessoas, quase tantas como em todos os aeroportos nacionais em 2013.

A questão não é nova: desde 1969 que se discute a necessidade de um novo aeroporto para servir a capital. Durante cinquenta anos, várias hipóteses estiveram em cima da mesa: a relocalização do aeroporto para zonas como Rio Frio ou a Ota e a solução “Portela + 1” onde se manteria o aeroporto atual e este seria complementado por um novo aeroporto. Nesta discussão sempre esteve presente a ideia de se converter uma base aérea para uso civil. Chegados a 2019, a última solução foi a eleita e o local escolhido foi a base aérea do Montijo. Porquê?

São três os principais argumentos utilizados pelo governo, a ANA e outros intervenientes para justificar a escolha da Base aérea do Montijo como localização do aeroporto que vai complementar o serviço prestado pelo aeroporto de Lisboa. Em primeiro lugar, esta opção é apontada como a mais barata. Em segundo lugar é, dos locais estudados, a que fica mais próxima da capital. E, por último, é a que pode estar pronta em menos tempo, um fator crucial, já que o tempo está a esgotar-se. As previsões apontam que em 2022 o Aeroporto do Montijo já esteja a funcionar.

1.747 milhões de euros de investimento global

A 8 de Janeiro a ANA e o Estado português assinaram o acordo que prevê a remodelação do aeroporto Humberto Delgado e a construção do aeroporto no Montijo, com um investimento global previsto a rondar os 1.747 milhões de euros. No acordo alcançado estão previstos 1.326 milhões a serem implementados na primeira fase e os restantes 421 milhões numa segunda fase que se deve estender até 2062, data do fim da concessão de exploração dos aeroportos pela ANA.

Prevê-se que dos 1.326 milhões de euros da primeira fase, 650 milhões sejam usados na ampliação do aeroporto Humberto Delgado, enquanto 520 milhões serão investidos na nova infraestrutura aeroportuária que será construída no Montijo. Os restantes 160 milhões serão aplicados em acessibilidades, para melhorar a ligação entre o Montijo e Lisboa, e em compensações à Força Aérea – cerca de 100 milhões – que terá de deslocar boa parte da frota estacionada no Montijo para outras bases.

Atualmente o Aeroporto Humberto Delgado tem 60 lugares de estacionamento e permite fazer 38 movimentos de aeronaves – entre descolagens e aterragens – por hora. No final de todas as fases de ampliação, a ANA fala em 89 posições de estacionamento só na Portela. O aeroporto do Montijo deverá ter estacionamento para 36 aeronaves, 2.400 metros de pista e um edifício central com 101.200 metros quadrados. Só no ano de abertura do novo aeroporto a ANA espera ter 7 milhões de passageiros. O resultado combinado dos dois aeroportos deverá fazer alcançar os 72 movimentos por hora. Com quase o dobro da capacidade atual, a empresa espera chegar aos 50 milhões de passageiros por ano.

No acordo assinado, e que ainda carece de aprovação do estudo de impacto ambiental para ser posto em prática, ficou estabelecido que não serão utilizados fundos públicos para a realização destas obras. A ANA suportará todo o investimento e para isso conta com aumentos das taxas aeroportuárias. Até 2023 esses aumentos terão em conta não apenas a evolução da procura, mas também os investimentos a fazer pela concessionária privada e a inflação. A partir de 2023 as taxas terão por referência os valores praticados em aeroportos europeus semelhantes.

A próxima questão que se impõem é como chegarão a Lisboa os passageiros que aterrem no Montijo? No mesmo acordo, a ANA compromete-se a criar um novo acesso rodoviário direto à Ponte Vasco da Gama. Também existe a possibilidade de haver novas ligações do aeroporto às localidades do Barreiro e do Seixal, mas aqui não há um compromisso sobre o financiamento. Para além de uma possível faixa exclusiva para autocarros, fala-se também de um reforço do transporte fluvial entre o cais do Seixalinho e o Cais do Sodré.

Um aeroporto a pensar nos voos Low-Cost

A opção do aeroporto do Montijo está vocacionada para companhias aéreas que façam as rotas sem correspondências, ou seja “ponto-a-ponto”.  As principais visadas são, em princípio, as chamadas companhias low-cost. A solução encontrada por Portugal não é original. Em várias outras cidades foram criados aeroportos vocacionados para as companhias low-cost, como é o caso de Roma, Veneza, Bruxelas ou Frankfurt.

O sucesso desta solução vai depender do interesse das companhias no aeroporto do Montijo. Se a Ryanair já se manifestou interessada nesta opção, depois de ter sido anunciado que as taxas aeroportuárias no Montijo deverão ser entre 15% a 20% mais baixas do que as do aeroporto da Portela, outras companhias como a EasyJet ou a TAP estão menos entusiasmadas. Um exemplo de como as coisas podem correr mal chega-nos da Alemanha: em 2015 o aeroporto complementar de Frankfurt-Hahn reportou 17 milhões de euros de prejuízo depois de a Ryanair ter manifestado desinteresse na aerogare.

Estará o meio-ambiente ameaçado?

Esta é a resposta que todos esperam. Um estudo de 2012 concluiu que o ponto fraco do Montijo era justamente a sustentabilidade ambiental. É que a base aérea do Montijo encontra-se muito próxima do Estuário do Tejo, a maior zona húmida em território nacional, protegida por vários estatutos nacionais e internacionais. O estuário é fundamental para a conservação de várias aves aquáticas e é zona de passagem para milhares de indivíduos em migração, o que até pode colocar em causa a segurança aeronáutica devido ao risco de colisão com as aves.

Às críticas feitas ao desrespeito pelo meio-ambiente e aos potenciais perigos para a saúde humana, Carlos Matias Ramos, um engenheiro civil que presidiu ao LNEC quando o Laboratório Nacional de Engenharia Civil foi chamado a dar um parecer sobre a viabilidade das opções Ota e Campo de Tiro de Alcochete, junta o facto de o Montijo ser uma solução de curto prazo. De acordo com estudos em que participou, a opção Montijo terá a capacidade de resposta esgotada em 2035/2037 e não existe terreno para expansão.

 

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