Radar económico

Como alimentar 9 mil milhões de pessoas?

14 Fevereiro, 2019

A população mundial continua a aumentar e com ela os desafios para conseguir alimentar todos os habitantes do planeta sem que isso coloque em causa a sustentabilidade. A questão central é: como vamos alimentar uma população que não pára de crescer e que implicações isso terá para a agricultura e outros setores económicos?


9,2 mil milhões de habitantes em 2050

A confirmarem-se as previsões do relatório da ONU de 2006, em 2050 seremos 9,2 mil milhões de habitantes no mundo, o que representa um crescimento de 37.3% em pouco mais de 40 anos. Tudo parece indicar que as estimativas deste relatório com 12 anos se irão concretizar: em 2011 já tínhamos atingimos o patamar dos 7 mil milhões de pessoas.

Estes números impressionantes ficam, em grande parte, a dever-se às melhorias nos cuidados de saúde dos países, sobretudo desenvolvidos e em desenvolvimento, e ao aumento da produção agrícola com a introdução e difusão global da mecanização e de outras ferramentas tecnológicas. Nunca antes tantos seres humanos caminharam no planeta ao mesmo tempo, mas é claro que esta situação nos coloca novos desafios. Como faremos para alimentar todas estas pessoas ao mesmo tempo que garantimos a sustentabilidade e a biodiversidade na Terra?

A dieta alimentar do futuro

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Nas idas diárias ao supermercado não pensamos nas implicações das nossas escolhas alimentares na agricultura, no meio ambiente e no futuro do nosso planeta, mas a verdade é que deveríamos fazê-lo. A chamada dieta dos países ocidentais tem-se assumido como uma tendência global, sobretudo em países como a China ou a Índia. Ou seja, a procura por carne está a aumentar e as estimativas da ONU prevêem que até meados do século o consumo global de carne cresça cerca de 76%.

Ao peso do crescimento demográfico sobre a produção agrícola e sobre os recursos naturais temos que acrescentar o peso do consumo excessivo de carne. Sabia que apenas 55% das calorias obtidas nas colheitas alimentam diretamente os seres humanos? É verdade, cerca de 36% destina-se à criação de animais e 9% à produção de biocombustível. Alterarmos os nossos hábitos alimentares, aumentando o consumo de vegetais e frutas, significaria mais colheitas disponíveis para os seres humanos.

Alimentar a população mundial seria mais fácil se reduzíssemos o consumo de carne, mas não só. Comer menos carne tem outras vantagens: diminuir o consumo de outros recursos – para a produção de um quilo de carne de vaca são precisos 15 mil litros de água -, diminuir o contributo da agricultura para as alterações climáticas – 15% das emissões de gases com efeito estufa são provenientes da pecuária – e ainda ser mais saudável.

Outra opção que está a ser defendida por muitos especialistas passa por diversificarmos as nossas fontes de proteína. Num futuro talvez não tão distante, os insetos poderão vir a fazer parte da dieta da maioria da população mundial. Um exemplo do seu potencial são os grilos que oferecem mais proteína e micronutrientes por quilograma do que a carne de vaca. Nos EUA já existem empresas especializadas no uso de insetos na produção de rações animais e empresas que vendem pó de grilo para o fabrico de pastelaria, barras energéticas e batidos.

Um terço da produção agrícola mundial acaba no lixo

A FAO, calcula que, todos os anos, um terço dos géneros alimentares produzidos para consumo humano no planeta se perda ao longo da cadeia de consumo: dos locais de cultivo até ao consumidor final. São cerca de 1.300 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados anualmente, um valor suficiente para alimentar três mil milhões de pessoas. Os motivos e valores do desperdício alimentar variam bastante.

Nos países industrializados, os alimentos desperdiçam-se mais nas casas dos consumidores finais e no retalho devido, por um lado, à aquisição excessiva de uns, e por outro, aos padrões de comercialização e consumo dos produtos alimentares dos outros. O facto é que os países industrializados desperdiçam 670 milhões de toneladas de géneros alimentares por ano, um volume que quase equivale ao total líquido da produção de géneros alimentares na África subsaariana.

Já nos países em vias de desenvolvimento, a maioria das perdas ocorrem na produção e transformação dos alimentos devido, sobretudo, à falta de infraestruturas para armazenar, tratar e distribuir os géneros alimentares em boas condições. Se queremos alimentar 9 mil milhões de pessoas teremos que, por um lado, consciencializar a população dos países desenvolvidos para uma alimentação mais consciente e, por outro, dotar os países em desenvolvimento das estruturas necessárias à boa conservação dos alimentos.

Como aumentar a produção agrícola em cerca de 70% até 2050?

Para além de necessárias mudanças na nossa alimentação, a agricultura precisa de produzir mais alimentos sem que isso implique a expansão da área agrícola. Segundo os últimos dados da Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), estima-se que o rendimento da produção agrícola tenha que crescer cerca de 70% para alimentarmos 9 mil milhões de pessoas. Mas, depois de já termos convertido uma área semelhante à América do Sul para a produção agrícola e uma área do tamanho de África para a pecuária, como fazê-lo sem acabar com mais ecossistemas e sem colocar em causa a sustentabilidade?

A resposta passa por uma agricultura mais eficiente e isso implica a integração de ferramentas tecnológicas com técnicas da agricultura biológica. Uma boa aposta parece ser a agricultura de precisão. A agricultura de precisão recorre a ferramentas tecnológicas de ponta para avaliar, monitorizar e otimizar uma determinada parcela de terreno. Com os dados obtidos é possível conhecer pormenorizadamente as condições do solo, as necessidades específicas de água, de luz e de nutrientes para um determinado produto num determinado local e distribuir essas necessidades de forma automatizada.

Falamos, claro, de uma gestão altamente eficiente de todos os recursos que permite diminuir o consumo de água e o uso de pesticidas e químicos, ao mesmo tempo que consegue aumentar ao máximo a rentabilidade da produção agrícola.

Um dos melhores exemplos de agricultura de precisão vem de um pequeno país europeu: a Holanda. Sabia que o rendimento médio mundial do cultivo de batatas é de cerca de 20 toneladas por hectare, enquanto que na Holanda existem agricultores que conseguem ter um rendimento superior a 47 toneladas por hectare? Por mais surpreendente que possa parecer, a Holanda consegue ser o maior exportador mundial de batatas!

Com uma área inferior a 43.000 km² e mais de 500 habitantes por quilómetro quadrado, nada faria prever que a Holanda fosse um candidato a ser um dos maiores exportadores agrícolas, mas é o que se passa. A Holanda é atualmente o segundo maior exportador mundial de géneros alimentares em valor monetário, apenas superado pelos gigantes EUA, cuja dimensão é 270 vezes superior. Graças à agricultura de precisão a Holanda conseguiu tornar realidade um compromisso assumido há duas décadas: o dobro dos alimentos com metade dos recursos.

Ernst van den Ende, professor na Wageningen University & Research, não tem dúvidas de que temos de começar já a colocar em prática as soluções ao nosso dispor para que em 2050 tenhamos alimentos disponíveis para 9 mil milhões de pessoas: “precisamos de produzir mais géneros alimentares nas próximas quatro décadas do que todos os agricultores do mundo colheram nos últimos oito mil anos”.

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