Saúde

Dor crónica: quando a dor é a própria doença

9 Janeiro, 2019

21% da população mundial vive com dor crónica. Em Portugal, um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto aponta para um valor que ronda os 37% da população adulta. Mas como se identifica a dor crónica? O que a caracteriza e como a podemos tratar?


Mais do que uma dor que persiste: o que é a dor crónica?

Sentir dor é bom na medida em que a dor é um sinal de alerta, ou seja, um sinal de que algo não está bem. Em 2003, a Direção Geral de Saúde instituiu a Dor como o 5º Sinal Vital, equiparando-a a outros sinais que os profissionais de saúde devem avaliar: frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura corporal.

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Segundo a APED (Associação Portuguesa para o Estudo da Dor), “a dor é uma experiência multidimensional desagradável”, o que significa que envolve uma componente sensorial e emocional e que está associada a uma lesão concreta ou potencial. É assim que a dor aguda ou fisiológica é fundamental para o diagnóstico e tratamento de várias doenças.

Mas existe outro tipo de dor, a chamada dor crónica ou patológica. Esta é uma dor músculo-esquelética local ou geral que persiste ou que é recorrente no tempo – pelo menos três meses. Enquanto que a dor aguda desaparece após o tratamento da doença à qual está associada, a dor crónica não desaparece e por isso torna-se em si uma doença de difícil diagnóstico e tratamento. O seu prolongamento durante anos, para além de causar sofrimento, tem repercussões na saúde física e mental dos indivíduos, originando alterações do sistema imunitário e o enfraquecimento das defesas do organismo.

É frequente a dor crónica aparecer associada a várias doenças como as dores lombares, diabetes, cancro, artrose, osteoporose e fibromialgia. Traumatismos ou posições incorretas prolongas ou forçadas podem agravá-la. Também é comum surgir entre pessoas que estão num período pós-operatório, em pessoas que sofreram amputações ou surgir mesmo sem causa aparente. De acordo com um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é na região lombar que é mais frequente os portugueses sofrerem de dor crónica, seguindo-se os joelhos e as pernas.

Os números de quem vive com a dor

 A dor crónica é um problema de saúde que transtorna a vida de mais de 3 milhões de portugueses. Num estudo realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, estima-se que 14% dos portugueses sofram mesmo de dor crónica recorrente com intensidade moderada ou intensa. Não admira, portanto, que a dor crónica possa ser incapacitante e leve muitos doentes à reclusão.

Para além das consequências na qualidade de vida destas pessoas, o seu impacto também pode ser visto ao nível social e económico. De acordo com o mesmo estudo, a dor crónica custa todos os anos à população portuguesa 4.610 milhões de euros, ou seja, cerca de 2.7% do PIB nacional. Nesta investigação revelou-se que em Portugal os custos diretos – consultas, exames e tratamentos – são inferiores aos custos indiretos – absentismo, reformas antecipadas e desemprego. Os custos diretos foram avaliados 1.997 milhões de euros, enquanto que os indiretos atingem os 2.645 milhões de euros.

Dor crónica: Um diagnóstico difícil

Porque é uma doença associada à população mais envelhecida, muitos tendem a desvalorizar a dor crónica e acham que ter dores persistentes é normal – é da idade! No entanto, viver com dores constantes não é normal em nenhuma altura da vida e por isso é importante que os próprios doentes não desvalorizem o que sentem e falem com o seu médico de família.

O diagnóstico da dor crónica não é fácil e por isso a ajuda do doente é fundamental. O médico deverá recorrer às escalas de intensidade da dor, mas também realizar exames complementares para identificar possíveis causas para as dores persistentes, nomeadamente exames de laboratório, radiológicos e eletrofisiológicos. O médico estará atento a todos os sintomas mencionados para avaliar a dor e encontrar as melhores estratégias para a tratar.

Ao contrário do que se possa pensar, a dor crónica não tem necessariamente uma intensidade constante. Muitos doentes queixam-se de picos de dor, ardor, comichão, sensações de choques elétricos e intolerância ao toque. É no período matinal que muitos doentes apresentam uma maior rigidez corporal e referem ter mais dores. Também é comum que quem sofre de dor crónica apresente alterações do sono e fadiga frequente.

Quais os fatores de risco da dor crónica?

Ainda que possa afetar toda a população, a dor crónica tem uma maior incidência entre o género feminino. De acordo com o estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, 46% dos portugueses que sofrem de dor crónica são mulheres.

Outros fatores de risco são a idade – a dor tende a aumentar a partir dos 60/65 anos de idade – o excesso de peso e a obesidade, um estilo de vida sedentário, a falta de exercício físico, o historial de acidentes de viação e fatores hereditários, mas também fatores sociais como a pouca formação ou um nível socioeconómico baixo e o desemprego. Problemas de foro psicológico como a ansiedade ou a depressão também podem influenciar a dor crónica e vice-versa.

É possível tratar a dor crónica?

 Tal como a dor é subjetiva, também os tratamentos para a dor crónica variam de pessoa para pessoa e o que funciona com um paciente pode não funcionar com outro. A maioria dos médicos opta por recomendar tratamentos que englobam fármacos e terapias alternativas. O tratamento da dor beneficia de uma abordagem multidisciplinar e a pensar nisso foram criadas Unidades de Dor em vários hospitais nacionais.

Ao nível farmacológico é possível tratar e aliviar os sintomas relacionados com a dor através de analgésicos. Os opióides, como a morfina, são os mais comuns, mas existem outras opções como anti-inflamatórios e antipiréticos. Depois são usados também medicamentos adjuvantes que podem ser fundamentais para o tratamento da dor: antidepressivos, ansiolíticos, anti-histamínicos, anticonvulsionantes, corticosteroides e relaxantes musculares.

Quando se prescrevem fármacos à base de opióides é importante vigiar a evolução dos doentes e perceber quais os efeitos colaterais da sua aplicação. Não raras vezes, os doentes criam habituação ou mesmo dependência química destes fármacos, situações em que os doentes começam a manifestar problemas respiratórios e entorpecimento. Além disso, a dependência converte-se num grave problema social.

A dor crónica também pode ser tratada com terapias menos convencionais, entre elas a estimulação elétrica, a acupuntura, as técnicas de relaxamento e de diminuição do stress, a abordagem cognitivo-comportamental, as psicoterapias psicodinâmicas e o exercício físico. Vários estudos têm apontado o ioga, o pilates e a hidroginástica como algumas das atividades que mais ajudam a combater a dor crónica.

Se pensa sofrer de dor crónica, fale com o seu médico e consulte mais informações no site https://www.dor.com.pt/.

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