Radar económico

Plástico: o vilão dos tempos modernos?

8 Janeiro, 2019

A Comissão Europeia quer acabar com o plástico descartável até 2030 e apresentou, logo no início do ano, uma estratégia para que os países da União Europeia apostem em plásticos reutilizáveis e recicláveis. O mundo começa a ver o plástico como um desafio que tem de ser encarado, mas qual a importância deste material nas nossas vidas e na economia?


Plástico: de super material a indesejado

O plástico foi inventado no final do século XIX. Durante a Segunda Guerra Mundial foi uma ajuda para os aliados e acabou por transformar as nossas vidas a partir dos anos 50 quando a sua produção se generalizou. Em pouco mais de 50 anos a produção mundial de plásticos aumentou de forma expressiva: de 2.1 milhões de toneladas em 1950 para 407 milhões em 2015. Na realidade estima-se que metade do plástico produzido até hoje tenha sido fabricado apenas nos últimos 15 anos!

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O problema? O plástico não é degradável por isso, quando não é tratado e utilizado de forma consciente, pode tornar-se num problema. Entregue a si, quanto tempo leva um plástico a degradar-se completamente até chegar a ser as moléculas que o constituem? Ninguém sabe exatamente, mas os especialistas falam de números que vão dos 450 anos a… nunca. Se já existisse plástico na época dos Descobrimentos, é possível que hoje ainda estivesse por aí.

Em 2017, quando os cientistas fizeram estimativas sobre a produção e tratamento dos plásticos, chegaram a valores impressionantes. Existem neste momento 6.300 milhões de toneladas de resíduos deste material para tratar em todo o mundo, dos quais 5.700 milhões nunca entraram no processo de reciclagem. E os números continuam a aumentar a cada ano que passa.

A ONU lançou o alerta: em todo o mundo apenas 9% dos resíduos de plástico produzidos anualmente são reciclados. Os números sobem para 30% na Europa, mas claramente não são suficientes e como diz a campanha da Fundação Oceano Azul: o que não acaba no lixo, acaba no mar. Todos os anos 8 milhões de toneladas de plástico acabam no oceano causando a morte a milhares de animais. A ONU estima que em 2050 exista mais plástico do que peixes nos Oceanos. E por que existe tanto plástico?

Dos alimentos à roupa, o plástico está em todo o lado

Quando surgiu, o plástico revolucionou a nossa vida e tornou milhares de produtos acessíveis a muito mais pessoas. Apesar dos problemas que levanta, a verdade é que os plásticos têm sido dos produtos mais importantes no século XX, sobretudo desde que podem ser fabricados a partir do petróleo. Se olhar com atenção à sua volta vai perceber que estes polímeros estão por toda a parte e que muitas vezes, ao longo destes 50 anos, foram a base de desenvolvimentos extraordinários.

As suas características imbatíveis – resistência, versatilidade, maleabilidade, preço e elevada durabilidade – transformaram-no no produto perfeito. As suas aplicações são infinitas e ao longo deste tempo teve contribuições fundamentais em quase todas as áreas, inclusivamente para o ambiente. Já pensou que se não fossem os plásticos, os carros e outros veículos seriam mais poluentes? Sem plásticos os automóveis seriam mais pesados e consumiriam muito mais combustíveis.

As viagens aéreas, viagens espaciais e muitos avanços da medicina são possíveis graças aos plásticos. O plástico é um aliado na conservação dos alimentos, salva vidas em objetos como os capacetes ou as incubadoras e até as tão polémicas garrafas de plástico podem fazer a diferença se nos lembrarmos que são uma forma de fazer chegar água potável a muitas populações. A vida tal como a conhecemos, com todas as suas comodidades e avanços tecnológicos, só é possível graças ao plástico. Como afirmou o diretor da ONU para o Meio Ambiente, Erik Solheim, “o plástico não é o problema, o problema é o que fazemos com ele”.

 Os planos da Comissão Europeia para o plástico

Atualmente a China é o líder mundial na produção de plásticos e é na região Ásia-Pacífico que se concentra cerca de 49% da produção global. Na Europa e nos EUA, a produção tem-se mantido estável nos últimos anos, mas como tem aumentado noutras partes do mundo, as suas quotas de mercado baixaram alguns pontos e estão agora nos 18% e 19% respetivamente.

O relatório de 2018 da Associação Europeia dos produtores de plásticos, PlasticsEurope, dá conta da importância desta indústria para a Europa: perto de 60.000 empresas empregam mais de 1.5 milhões de pessoas com um impacto de cerca de 350 biliões de euros na economia europeia. É claro que destes dados fazem parte não só a produção de novos materiais, mas também a gestão dos resíduos plásticos.

Depois de, em 2015, a Comissão ter adotado um plano de ação da UE para a economia circular onde se comprometia a “preparar uma estratégia que aborde os desafios colocados pelos plásticos ao longo da cadeia de valor e que tenha em conta todo o seu ciclo de vida”, essa estratégia chegou em janeiro de 2018.  Foi apresentado um conjunto de medidas para a UE, autoridades locais e para a própria indústria implementarem que visam cinco grandes objetivos: tornar a reciclagem mais rentável para as empresas, diminuir os resíduos de plástico, proibir a deposição de lixo no mar, fomentar o investimento e a inovação na área para tornar os plásticos mais sustentáveis e estimular uma mudança em relação ao plástico em todo o mundo.

A própria importância económica é apontada como uma razão de peso para a necessidade das mudanças apresentadas. O objetivo da Comissão é dar uma nova orientação à indústria e, para além de pretender acabar com os plásticos descartáveis na Europa até 2030, também espera que as medidas levem à criação de 200 mil empregos na triagem e reciclagem no mesmo período de tempo. A própria indústria dos plásticos está consciente e comprometida com a sua reutilização e reciclagem. A PlasticEurope tem como ambição atingir os 60% de embalagens de plástico reutilizadas ou recicladas até 2030 e os 100% até 2040.

A indústria do plástico em Portugal

Também em Portugal a indústria do plástico tem um peso na economia e está à procura de novas estratégias e oportunidades de negócio. Em 2017, as exportações de plástico tiveram um crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior. São mais 359 milhões de euros que fazem com que as exportações do setor contribuam com quase três mil milhões de euros para a economia portuguesa. Ao todo, a indústria é responsável por perto de 4.300 milhões de euros. De acordo com a Direção-Geral das Atividades Económicas, em 2016 as indústrias da borracha e do plástico representavam 6% do VAB da Indústria Transformadora, um dos setores com mais peso para o emprego e economia nacionais.

Destes dados fazem parte também as empresas de reciclagem e outras que estão à procura de melhorar processos e estudar novas formas de investir em plásticos mais amigos do ambiente. Pedro Colaço, presidente da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP) lembra que eliminar por completo o plástico seria impensável numa sociedade global, e que “a sua substituição teria efeitos devastadores no ambiente porque todos os outros produtos requerem mais recursos da natureza e mais energia para serem processados”

Todos – governos, indústria e população – concordam que o fundamental é consciencializar a população mundial para a importância de um uso responsável dos plásticos e, sobretudo, melhorar as estruturas de recolha e tratamento dos resíduos. Comprometido com este esforço, o governo português dá o exemplo. Na maior feira de tecnologia do mundo, a Web Summit, que decorreu em Lisboa em 2018, o ministro do Ambiente João Pedro Matos Fernandes afirmou: “Vamos deixar de usar plásticos em todos os departamentos do Governo até ao final do ano”. Assim, 2019 já deverá ser um ano livre de garrafas, copos e sacos de plástico na administração pública.

Este tipo de iniciativas são fundamentais para transformar a forma como nos relacionamos com os plásticos. No entanto, é importante lembrar que as mudanças e esforços europeus de pouco servirão se este não for um movimento global.

 

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