Saúde

E se destravar o sistema imunitário ajudasse a travar o cancro?

2 Janeiro, 2019

Ensinar o sistema imunitário a lutar contra ao cancro em vez de atacar as células cancerígenas: esta é a abordagem vencedora do Nobel da Medicina de 2018. Estaremos a caminhar para um futuro onde o cancro já não é algo tão assustador?


Nobel da Medicina de 2018 vai para a imunoterapia!

Quando o assunto é cancro, parte-se quase sempre do princípio que é preciso atacar as células cancerígenas, o inimigo. Mas e se em vez disso conseguíssemos ensinar o nosso sistema imunitário a lutar contra o cancro? Esta abordagem inovadora valeu aos investigadores James P. Allison e Tasuku Honjo o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia de 2018.

O que os laureados descobriram é que há dois tipos de imunoterapia que podem tirar “os travões” das células do sistema imunitário – os linfócitos T., um tipo de glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo –  que o impedem de combater o cancro. Estaremos então perante a resposta a um dos maiores desafios século XXI ao nível da saúde?

CTLA-4 e PD1: duas proteínas-chave na luta contra o cancro

Todos os anos surgem novos casos de cancro e em 2018 estima-se que esta doença mate mais de 9 milhões de pessoas em todo o mundo, alerta a Agência Internacional para a Investigação do Cancro, da Organização Mundial de Saúde. Um número que o investigador da Universidade do Texas James Allison e o investigador da Universidade de Quioto Tasuku Honjo têm como missão baixar.

Para tal, estudaram duas proteínas, a CTLA-4 e a PD-1, que funcionam como um travão, embora tenham um mecanismo de ação distinto. E dizemos-lhe mais. Durante as suas pesquisas, os investigadores perceberam ainda que ao utilizar anticorpos nestas duas proteínas era possível avariar os seus travões, fortalecendo o sistema imunitário e possibilitando assim uma resposta mais rápida contra o cancro.

E estão a ser bem-sucedidos? Até ao momento, os tratamentos baseados nestas duas terapias com recurso a medicamentos desenvolvidos para o efeito obtiveram resultados comprovados ao nível do melanoma, cancro dos pulmões e rins. Contudo, a terapia não tem ainda uma aplicação alargada: como este tratamento atua sobre o sistema imunitário e não sobre o cancro isto pode levar a uma sobreativação indesejada, o que pode resultar em reações autoimunes descontroladas.

Falamos de efeitos secundários como inflamação, diarreia, febre e reações cutâneas, sendo que a tiroide e as suprarrenais também podem ressentir-se. E há outra contrapartida. Se por um lado é verdade que é possível ensinar o nosso sistema imunitário a combater o cancro, por outro lado também é verdade que as células tumorais o conseguem enganar. Como são células modificadas podem esconder-se do sistema imunitário – e este precisa de reconhecê-las para as combater! -, sem esquecer que as células tumorais desenvolvem estratégias próprias para travar as células do sistema imunitário.

Imunoterapia: ensaios clínicos atestam a sua eficácia!

Entre 2006 e 2017, o Infarmed contabilizou 34 ensaios clínicos concluídos na área de oncologia com imunoterapia, pode ler-se no Diário de Notícias. Os cancros do sistema digestivo e do sangue são os mais visados pelas investigações, seguindo-se o da mama, as neoplasias do sistema reprodutor feminino, o do pulmão e o carcinoma da cabeça e do pescoço.

E a verdade é que são esses ensaios que têm vindo a atestar a eficácia do tratamento do cancro com base na imunoterapia. Por exemplo, um ensaio clínico levado a cabo em 2010 revelou que as pessoas que tinham melanoma em estado avançado e que nele participaram viram os sinais do cancro desaparecer, graças a este tipo de tratamento com os anticorpos que inibem o travão da proteína CTLA-4 e libertam a atividade dos linfócitos T antitumorais.

Fonte: Nobel Prize

Por sua vez, outros ensaios clínicos realizados em 2012 revelaram que retirar o travão do PD-1 poderia ser ainda mais benéfico na luta contra o cancro: além de o tratamento poder ser aplicado a vários tipos de cancro, o estudo mostrou também que os doentes se mantinham em remissão durante longos períodos. Curiosamente, a terapia também se revelou eficaz em casos de cancro metastizado, isto é, quando o tumor já saiu do órgão de origem e se espalhou a outros.

O que se segue face a estes resultados promissores? Bruno Silva Santos, imunologista no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa avança com uma resposta ao Observador: os próximos passos passam por identificar novos travões, criando paralelamente anticorpos que os bloqueiem, para que se consigam tratar outros tipos de cancro que ainda não beneficiam da imunoterapia. Isso, e/ou criar novas combinações entre várias imunoterapias para se tornarem mais eficazes.

Investigações na área do cancro já foram várias vezes premiadas

O americano James Allison e ao japonês Tasuku Honjo não estão sozinhos na busca pela derradeira solução para combater o cancro. Aliás, ao longo dos anos foram várias as investigações e as personalidades que foram distinguidas com um Prémio Nobel por esse mesmo feito: estamos a falar, por exemplo, de Charles Brenton Huggins e o tratamento hormonal contra o cancro da próstata (1966) ou da descoberta da quimioterapia pela mão de Gertrude B. Elion, George H. Hitchings (1988). Além disso, o transplante de medula para o tratamento da leucemia também valeu um Nobel a E. Donnall Thomas, em 1990.