pessoas e histórias

Marcas centenárias: quatro empresas portuguesas que resistem à passagem do tempo

3 Dezembro, 2018

Num mundo em constante mudança, onde empresas nascem e desaparecem num piscar de olhos, existem em Portugal várias marcas centenárias. Apesar de todas as dificuldades conseguiram sobreviver e prosperar longo dos tempos. Qual o seu segredo?


Portugal é um país de empresas centenárias

As start-ups entraram para o nosso vocabulário e para o nosso imaginário do emprego do futuro. No entanto, e ainda que tenham dinamizado o emprego jovem, em Portugal são as empresas centenárias que mais geram emprego. Um estudo de 2016 da Informa D&B mostra que as empresas mais antigas, ainda que só representassem 22% do tecido empresarial português, eram responsáveis por 55% do volume de negócios, com quase 3 mil milhões de euros, e 46% dos empregos.

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São 13.500 postos de trabalho gerados por cerca de 200 empresas centenárias que existem em Portugal. A grande maioria destas empresas – 70% para sermos mais exatos – pertence à indústria transformadora com especial destaque para a zona norte do país. Algumas continuam familiares tal como no começo, outras tiveram que se adaptar. Do vinho à aeronáutica, que empresas são estas capazes de se manter por tanto tempo no mercado e que ainda hoje dão cartas a nível nacional e internacional?

Viarco: o lápis que escreve a nossa história

Quem não treinou os primeiros passos nas letras ou os primeiros rabiscos com um lápis Viarco? Esta pequena empresa, hoje sediada em São João da Madeira, é a mais pequena fábrica de lápis do mundo e continua a ser a única em território nacional. Fundada em 1907 pelo Conselheiro Figueiredo Faria em sociedade com o engenheiro francês Jules Cacheux, foi adquirida por Manoel Vieira Araújo em 1931 e desde então permanece na família.

Quem vê o edifício degradado por fora não sabe a história que aqui se esconde. Lá dentro funciona uma fábrica que, apesar de exportar para mais de treze países, continua a utilizar um processo de produção artesanal. A prensa é de 1907 e um moinho de café foi adaptado para triturar a grafite, mas isso não impede a criatividade, aliás, aguça o engenho. Nas palavras do atual proprietário da fábrica, José Vieira: “Quando recebemos cá artistas ou os nossos distribuidores, e eles se apercebem que há alto desenvolvimento e alta criatividade num ambiente tão atrasado, isso ainda concede mais valor ao produto.”

O segredo para que a Viarco tenha sobrevivido reside nessa capacidade de se adaptar, de procurar novos caminhos, de desenvolver novos produtos capazes de encontrar o seu lugar no mercado, como é o caso da linha Art Graf. Só isso explica que, depois de quase fechar portas em 2008, tenha sido capaz de se reinventar e faturasse, em 2017, 750 mil euros. Com 24 funcionários, as instalações da Viarco são muito mais do que uma fábrica. Aqui podem ler-se os traços da história enquanto se projetam os desenhos para o futuro, num diálogo constante entre o que foi e o que há de vir.

Ainda não há um museu, mas talvez não falte muito. Enquanto esse projeto não se cumpre, a Viarco mantém uma estreita ligação com a cultura e a criação. “A criatividade pode vir de qualquer lado, abrimos as portas e deixamos as pessoas produzir”, diz José Vieira. Para além dos vários ateliers, existe uma sala de exposições temporárias e espaços onde pode acontecer de tudo: concertos, sessões fotográficas, residências artísticas e muito mais. Quem quiser pode visitar a fábrica da Viarco já que esta integra o roteiro de turismo industrial de São João da Madeira.

Ramirez: a carne que continua a vir do mar

O Atum Ramirez é um clássico, mas também as sardinhas, a cavala ou a pota. Ao natural, em óleo vegetal, azeite, tomate… As conservas Ramirez têm levado a “carne do mar” ao prato dos portugueses desde 1853, data que faz desta conserveira uma das mais antigas do mundo ainda a funcionar. A empresa nasceu no Sul de Portugal, mas a principal unidade de produção acabou por ser deslocada para Matosinhos nos anos 40. Desde 2015 toda a sua produção está concentrada numa moderna e gigantesca fábrica com 25 mil metros de área coberta em forma de lata de conserva.

O espanhol Sebastian Ramirez, fundador da empresa, certamente não sonharia com um futuro tão brilhante quando se instalou em Vila Real de Santo António e abriu a sua fábrica de juta e conserva de peixe. Hoje a Ramirez é uma referência nacional e internacional no seu setor. Tem 14 marcas e produz, em média, 300 mil latas por dia de 55 produtos diferentes que chegam a 40 países em cinco continentes. A Ramirez conseguiu também alcançar o top 5 mundial das conserveiras e o top 3 das que têm o controlo de qualidade mais apertado do mundo.

Como se chega aqui? Com as pessoas. A empresa tem 195 trabalhadores que são fundamentais para o sucesso alcançado. Manuel Ramirez, quarta geração responsável pela direção da empresa, afirma: “Prezamos muito a coesão social da empresa, as excelentes relações humanas que sempre tivemos ao longo dos anos com os nossos trabalhadores.” É também por isso que, numa empresa onde a maioria da força laboral são mulheres, a direção mantém uma creche para auxiliar as suas funcionárias.

Outro dos pilares do sucesso é a constante aposta na inovação, na procura por melhorar os processos para entregar um produto de qualidade ao consumidor final. Ainda no princípio do século XX, a família Ramirez foi responsável pelo primeiro galeão sardinheiro a vapor em Portugal e foi a primeira conserveira nacional a ter um frigorífico industrial. Nos anos 70 foram ainda mais longe, apresentando ao mundo a nova embalagem de abertura fácil que viria a ser copiada por toda a indústria no mundo.

A história do Douro confunde-se com a da Real Companhia Velha

Se o vinho do Porto é um símbolo do Douro, a Real Companhia Velha não lhe fica atrás. Criada a 10 de setembro de 1756, por alvará régio de D. José I sob o nome de Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, é a única que resta da iniciativa de desenvolvimento económico levada a cabo pelo Marquês de Pombal. O nome Real Companhia Velha data de finais do século XIX e da necessidade de a distinguir de outra companhia vocacionada para a produção de vinhos de mesa e não vinho do Porto.

Na realidade, muito do desenvolvimento que o Porto e o Alto Douro viram acontecer ficou a dever-se à ação da Companhia. Para além da regulação da produção e do comércio do vinho do Porto, também tinha as funções de cobrar impostos, construir estradas e pontes e foi responsável pela primeira demarcação da Região do Douro – “Demarcação Pombalina da Região do Douro” – e pelo desassoreamento do rio que permitiu a descida dos barcos rabelos.  O próprio desenvolvimento do ensino universitário na cidade do Porto está ligado à Companhia. A sua Academia Real Marinha e Comércio esteve na origem da criação da Universidade do Porto.

Nestes 262 anos a operar no mercado vinícola, a Real Companhia Velha teve que se reestruturar, adaptar e reinventar para evitar crises maiores que ameaçaram a sua continuação. Hoje dispõe de 540 hectares de vinha própria e conta com 191 colaboradores para fazer chegar a sua produção a mais de 45 países. Já não se concentra apenas na produção de vinho do Porto e transformou-se no maior exportador de vinhos do Douro. “Houve uma enorme transformação do mercado nos últimos 40 anos e sentimos a necessidade de reposicionar a empresa para a fazer voltar a prosperar”, diz Pedro Silva Reis, atual presidente.

Com o consumo de vinhos do Douro a crescer mais de 10% ao ano, há a expetativa de que, num futuro não muito distante, as vendas de vinho do Porto e de vinhos do Douro venham a ter o mesmo peso para a Companhia. Neste momento, 65% da produção destina-se à exportação e no futuro este valor pode aumentar, assim o mercado internacional mantenha o seu interesse nos vinhos portugueses.

Nas asas do tempo com a OGMA

A OGMA acaba de entrar para o rol de empresas centenárias em Portugal. Ainda que desconhecida de muitos, esta empresa portuguesa, nascida em 1918, destaca-se mundialmente na manutenção e fabricação aeronáutica. A OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal S.A – surgiu no final da Primeira Guerra Mundial para responder à necessidade de Portugal montar os aviões que eram produzidos no estrangeiro.

Porém, a acumulação de conhecimento e experiência de mercado levou ao crescimento do negócio e à expansão dos seus serviços, que vão da simples reparação a soluções de gestão total de frota. Quer seja na aviação comercial, defesa ou executiva, a OGMA consegue destacar-se e por isso trabalha com clientes mundialmente conhecidos no ramo da aviação: EMBRAER, a Lockheed Martin e a Rolls-Royce.

 

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