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Gig Economy e Economia de partilha: será este o nosso futuro?

26 Novembro, 2018

A Gig Economy e a Economia de partilha são a face de uma sociedade em mudança que procura novas formas de organizar o trabalho, o lazer e a economia. Em suma, de reestruturar a vida e o nosso dia a dia. De que forma estão a moldar o nosso presente e como vão influenciar o nosso futuro?


Novas tecnologias: o elemento-chave

O que liga a Gig Economy e a Economia de partilha? Três fatores: crise económica, millennials e novas tecnologias. A Gig Economy e a Economia de partilha, assim como outros movimentos sociais, ganharam expressão durante a última crise financeira, como uma necessidade, sobretudo dos millennials, que na altura foram um dos grupos etários mais afetados pelo desemprego. Contudo, cedo demonstraram a sua utilidade e, por isso, continuam a prosperar dentro de uma economia global florescente.

As novas tecnologias, através dos desktops, tablets, mas sobretudo dos smartphones  criaram uma geração constantemente conectada, capaz de se informar de tudo no exato momento em que as coisas acontecem, de trabalhar à distância e de se organizar de forma mais extensa, visível e relevante. São essas mesmas tecnologias, com todas as suas possibilidades, que são imprescindíveis para a Gig Economy e para a Economia de partilha. Mas, afinal, que novas formas de economia são estas?

Gig Economy: o futuro do trabalho e o fim do horário das 9h às 18h

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Ficar efetivo num trabalho estável, das 9h às 18h com um salário fixo, era o sonho para uma geração, mas essa já não é a realidade de muitos jovens trabalhadores e, para um grande número, por escolha própria. São os jovens que vivem na Gig Economy, onde as profissões se reinventam e cada um é responsável por gerir a sua própria carreira. São jovens com competências diferenciadoras que procuram projetos aliciantes, onde a sua criatividade é fundamental e que não pretendem ter o habitual horário full time.

Então como é o seu trabalho? Estes profissionais são freelancers, que gerem o seu horário de forma flexível, organizando-se em função dos diferentes projetos – gigs – em que participam, ainda que com horizontes temporais mais curtos. Devido às suas skills e características, são muito apreciados pelas empresas e costumam ter um bom salário. Porque não estão presos a um contrato laboral, podem aproveitar oportunidades mais diversas, mas para isso são fundamentais as novas tecnologias.

As novas plataformas online facilitam a criação de negócios, que convertem milhares de pessoas por todo o mundo em microempresários, e as várias plataformas de serviços colocam em contacto profissionais e empregadores com necessidades muito específicas. Um bom exemplo disso é o fiveer.com, um dos maiores marketplaces de serviços em regime de freelancing.

Em países como os E.U.A, a Gig Economy é uma realidade e promete conquistar cada vez mais adeptos. Num estudo de 2010 da consultora INTUIT previa-se que, em 2020, cerca de 40% da população ativa dos Estados Unidos esteja na Gig Economy. Um estudo mais recente do economista Paul Pilzer estima que este valor possa alcançar os 50%, ou seja, 127 milhões de americanos adultos.

Em Portugal os números são mais modestos. O Pordata referia-se a 17.9% de trabalhadores por conta própria em 2015, mas isso não significa que trabalhem todos na Gig Economy. Por cá, o trabalho independente ou freelance é ainda percecionado como muito instável e mal pago, o que faz com que muitos trabalhadores o vejam apenas como uma solução temporária. O próprio tecido empresarial, composto sobretudo de micro e pequenas empresas, não está preparado para esta forma de trabalho o que trava a sua expansão.

Mas se pensava que a Gig Economy é só para os millennials, esses jovens com cerca de 30 anos que têm novas filosofias de vida, desengane-se. É verdade que este começou por ser um movimento desencadeado por jovens profissionais que tiveram dificuldades em encontrar um trabalho ao saírem da faculdade na crise financeira, mas é hoje uma forma de trabalho generalizada para várias gerações.

Uma análise à Gig Economy nos EUA concluiu que as várias gerações participam dela, só que o fazem de forma muito diferente consoante a fase da vida em que estão. Se os millennials tendem a estar nesta economia de forma proativa porque a flexibilidade e a liberdade laborais estão em linha com as suas aspirações para a vida, os baby-boomers e a geração X estão na Gig Economy por circunstâncias que fogem ao seu controlo ou como um complemento ao seu trabalho normal.

Economia de Partilha: a vitória da colaboração

 Quantas vezes usa o seu berbequim ou o corta-relva? Catorze minutos: é este o tempo normal de uso durante toda a vida útil de um berbequim. Se calhar já deu consigo a pensar que gastou dinheiro e não dá uso suficiente às coisas. E se pudesse rentabilizar esses ativos, por exemplo alugando-os aos vizinhos quando precisam? Isso é Economia de Partilha! Na realidade, a economia de partilha não é nada de novo. Ao longo da história humana sempre unimos esforços para prosperar: fornos comunitários, moinhos comunitários e tantos outros utensílios e serviços que partilhámos para o bem de todos.

A propriedade sempre foi importante, mas só com a prosperidade económica que se seguiu à II Guerra Mundial é que nos tornámos uma sociedade focada no consumo. Momentos houve em que o sucesso esteve intimamente ligado aos bens que uma pessoa detinha, mas isso já não é tão linear. Na Economia de partilha ou economia colaborativa troca-se o foco da “propriedade” para o “acesso”. Talvez se pudesse aceder a um corta-relva ou a um berbequim sempre que precisasse não pensaria sequer em comprar um. A compra é substituída pela partilha, aluguer ou troca.

A primeira vantagem para os consumidores é, justamente, económica. Se recorrer às chamadas “bibliotecas de ferramentas” poderá, mediante o pagamento de uma quota, ter à sua disposição uma panóplia de ferramentas e utensílios quando necessitar. Não precisa de fazer um investimento inicial de monta e nem de ter um espaço em sua casa para os arrumar. E se tiver muitas coisas em casa que não usa com frequência pode ter um rendimento extra “alugando-as”.

A economia de partilha potencia, assim, o acesso a bens de maior qualidade, sem que isso comprometa o orçamento familiar, ao mesmo tempo que diminui as preocupações com a manutenção dos utensílios que deverão ser igualmente repartidas por todos. E, claro, é também uma forma de poupar o ambiente já que menos produtos significa menos consumo de recursos para a sua fabricação e transporte.

As novas tecnologias proporcionam ferramentas que permitem à economia colaborativa expandir e escalar: mais coisas podem ser partilhadas e com mais pessoas numa área geográfica mais vasta. Vários negócios que conquistaram e conquistam milhões de utilizadores em todo o mundo têm esta ideia por base. Quer exemplos? Serviços de arrendamento privado como o Airbnb, que permitem aos proprietários rentabilizar a sua casa e serviços como o Uber, Cabify ou DriveNow que permitem prescindir de um automóvel para se deslocar na cidade.

No livro Indústrias do Futuro, Alec Ross, especialista em inovação que foi consultor de Hillary Clinton, descreve: “A economia de partilha utiliza uma combinação de plataformas tecnológicas embaladas sob a forma de aplicações de telemóveis, ciências comportamentais e dados de localização de telemóveis para criar mercados peer-to-peer, é uma forma de transformar qualquer coisa num mercado e qualquer pessoa num microempresário”.

Na União Europeia, os cinco setores-chave da economia de partilha – alojamento, transporte peer-to-peer, serviços domésticos e profissionais e financiamento coletivo – geraram 28 mil milhões de euros em transações em 2015. E a consultora PwC estima que em 2025 se gerem na UE receitas acima dos 80 mil milhões de euros e quase 570 mil milhões de euros em transações o que só prova o potencial deste tipo de economia.

Os desafios e implicações para o futuro

As economias Gig e de partilha apresentam alguns desafios para os modelos tradicionais de negócio e vão implicar adaptações se estas tendências vingarem. Como encarar e gerir trabalhadores que não têm uma fidelização à empresa? Como permanecer ou transformar o modelo tradicional de vendas se a procura diminuir? Como gerir os custos? Como tratar os seguros quando não há um proprietário efetivo? São tudo questões que as empresas podem e devem colocar-se já.

Os próprios estados e governos precisam de olhar para estas novas economias sob duas perspetivas. Por um lado, como enquadrar estes trabalhadores gig para que possam manter a sua flexibilidade e autonomia sem que isso seja uma fonte de stress por causa da insegurança face à sua posição e futuro no emprego ou na ausência deste. Por outro, como tributar de forma equilibrada e rápida os dividendos obtidos na economia de partilha bem como as remunerações destes trabalhadores gig.

Blockchain poderá ser o próximo passo

Para continuarem a crescer, as economias gig e de partilha precisam de superar as questões de confiança que estão sobretudo relacionadas com os perigos presentes nas novas tecnologias. Numa sondagem feita em Portugal, mais de quatro em cada dez pessoas que já tinham ouvido ou visitado plataformas colaborativas disseram não confiar em transações feitas na Internet, assinalando ser esse um dos principais problemas deste tipo de plataformas.

Para April Rinne, Young Global Leader do Fórum Económico Mundial, o blockchain poderá dar o impulso necessário para vencer os obstáculos de confiança e de motivação e disromper com negócios que nasceram na própria economia colaborativa. “A blockchain pode facilmente ser a base para que se crie uma espécie de Uber detida pelos motoristas, ou um AirBnB em que os donos dos quartos e das casas de alojamento local são os donos do negócio”.

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