Saúde

Burnout: quando o trabalho consome os profissionais

23 Novembro, 2018

O burnout afeta 13.7% da população ativa em Portugal, segundo a Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde. E este número pode vir a aumentar! Saiba como identificar esta síndrome, as suas causas e qual o melhor tratamento.


Quando o trabalho leva à exaustão

Estávamos em 1974 quando Herbert Freudenberger descreveu pela primeira vez o burnout. O psicoterapeuta constatou que muitos dos seus colaboradores apresentavam, ao fim de um ano de trabalho na clínica de reabilitação para toxicodependentes, queixas comuns em relação ao trabalho. Desmotivação, dores, irritabilidade e incapacidade para lidar com novos desafios eram as principais queixas.

Desde então, foram apresentadas várias definições para o burnout. A mais difundida e aceite é a de Maslach & Jackson que identifica o burnout como uma síndrome de cansaço físico e exaustão emocional que leva a uma perda de motivação para o trabalho e que pode evoluir até ao aparecimento de sentimentos de fracasso e perda da realização pessoal. Mas como o podemos identificar?

Quais os sintomas do burnout?

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Num estudo que a Deco realizou, no princípio deste ano com 1146 profissionais, um terço revelou-se cansado do seu trabalho mais do que uma vez por semana e 35% dizem sentir-se exaustos com a mesma frequência. Para além do cansaço que sentem perante a ideia de afrontar mais um dia de trabalho, que outros sintomas podem alertar-nos para o facto de um trabalhador estar a sofrer de um esgotamento profissional?

Um profissional que sofra de burnout mostra, frequentemente, sinais de tristeza, irritabilidade, perda de controlo, ansiedade, desânimo, apatia, revolta, mágoa, fúria, preocupação, desmotivação, dificuldades de concentração, dificuldades de memória e diminuição da autoconfiança.

Não se pense, contudo, que o esgotamento profissional não tem manifestações físicas. Falta de ar, coração acelerado, sintomas gastrointestinais, problemas cutâneos, dores musculares, hipertensão arterial, tonturas, tremores e distúrbios do sono, são os principais.

Burnout ou depressão: como distinguir?

Sendo dois distúrbios psíquicos com sintomas semelhantes, a síndrome de burnout é muitas vezes identificada com a depressão. Mas existe uma diferença fundamental entre as duas: no caso do burnout, uma vez retirada a pessoa do contexto laboral que lhe provoca stress e exaustão, existe uma melhoria significativa dos sintomas, o que não acontece nos casos de depressão.

“Quando a pressão se torna excessiva, difícil de gerir e se prolonga no tempo, pode transformar-se em stress crónico e afetar a vida pessoal e familiar, a saúde e, claro, o desempenho profissional”, lembra a Deco. Nestas situações o burnout pode evoluir ou fazer-se acompanhar de uma depressão, o que torna a recuperação do doente mais demorada.

As origens do Burnout

Existem vários motivos que podem concorrer para que um funcionário sofra de burnout e numa sociedade onde a pressão e a competitividade em conjunto com a dificuldade em desconectar representam o dia a dia laboral, a situação é agravada. O stress transformou-se na realidade da maior parte dos empregos atuais e trabalhadores expostos a uma pressão constante por longos períodos de tempo têm maiores riscos de ter um esgotamento profissional.

Não existe assim, uma causa para o burnout mas um acumular de situações que os funcionários não sabem gerir: por exemplo, ambientes extremamente competitivos, descontentamento com as funções atribuídas, sobrecarga de tarefas, alterações no horário de trabalho, má relação com os colegas e/ou superiores hierárquicos, excesso de carga horária, falta de realização profissional e de perspetivas de progressão na carreira.

Muitas vezes é um ambiente nocivo no trabalho ou uma incapacidade para compreender e lidar com estas situações que acabam por conduzir os trabalhadores à rutura. No estudo da Deco, muitos funcionários apontavam a falta de apoio por parte da entidade patronal como um dos fatores para o descontentamento laboral. Destes, 50% foram identificados como estando em risco de burnout e apenas 19% dos trabalhadores diziam sentir-seapoiados.

Quais as profissões de risco?

Nenhum profissional está livre de ter um esgotamento profissional, mas a verdade é que vários estudos têm identificado algumas profissões onde a exposição a este problema é maior. No topo de todas as listas aparecem as chamadas profissões de risco como a de polícias e bombeiros, onde os profissionais enfrentam situações que colocam a sua vida em perigo; profissionais da área da saúde como médicos e enfermeiros, de quem depende a vida de outros, mas também na educação, onde os professores com turmas indisciplinadas se mostram muitas vezes insatisfeitos.

Profissões que implicam lidar frequentemente com outras pessoas parecem mesmo ser as mais propensas ao de burnout. No mesmo estudo da Deco os profissionais das lojas e supermercados eram os que estavam mais próximos de um esgotamento profissional (43%), seguidos dos profissionais de saúde (39%), dos serviços administrativos (37%) e das profissões ligadas ao ensino (28%). Trabalhar ou não na área de formação parece não ter especial influência no aparecimento desta síndrome.

Como se trata uma situação de Burnout?

A predisposição do próprio doente é fundamental no processo de cura de um esgotamento laboral, mas as situações mais graves podem envolver a ajuda de um profissional de saúde, medicação e, claro, conduzir ao afastamento da situação profissional que esteve na origem do problema. Contudo, parece que adotar um estilo de vida saudável, pode ser já uma ajuda para reencontrar o equilíbrio: tente alimentar-se corretamente, dormir bem e fazer exercício físico.

Não existem dados concretos sobre a eficácia de métodos de prevenção do burnout, mas é certamente importante que também os empregadores estejam mais atentos ao problema. É fundamental encontrar estratégias para diminuir a pressão e o stress no trabalho e criar ambientes mais participativos onde se fomentem a colaboração, a comunicação e a partilha para que os trabalhadores se sintam  mais confortáveis em discutir questões que os incomodem.

Ignorar este problema tem consequências bem pesadas não só para os trabalhadores mas também para as empresas e a economia do país: as perdas de produtividade geradas pelo absentismo derivado dos problemas de saúde psicológica são tremendas! As estimativas falam em 329 milhões de euros de custos anuais para as empresas, um valor que poderia ser diminuído com uma maior consciencialização de funcionários e patrões para a problemática.

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