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Cinco descobertas científicas que mereciam ganhar um Prémio Nobel?

20 Novembro, 2018

Os prémios Nobel estão aí mais uma vez para distinguir investigadores, escritores e outros notáveis cujo trabalho revolucionário veio mudar o mundo ou a compreensão que temos dele. Mas, no meio de tantos avanços, algumas descobertas nunca foram laureadas com um Nobel. Hoje mostramos-lhe cinco.


Prémios Nobel: Um clube de notáveis

Os prémios Nobel distinguem todos os anos conquistas extraordinárias em seis campos distintos: física, química, literatura, medicina, economia e promoção da paz. Após a morte do cientista e filantropo sueco Alfred Nobel em 1896, a maior parte da sua fortuna foi aplicada na criação destes prémios.

Apresentados pela primeira vez em 1901, desde essa data já mais de 900 figuras foram laureadas com este prémio, entre as quais Albert Einstein, nobel da Física em 1921 pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico, fundamental no estabelecimento da teoria quântica; Marie Curie, distinguida com o Nobel da Física logo em 1903 pela investigação realizada no campo da radiação e novamente em 1911 com o Nobel da Química desta feita pela descoberta dos elementos rádio e polónio; e ainda Yoshinori Ohsumi, distinguido com o nobel da medicina em 2016 pelo seu trabalho na decifração do funcionamento da autofagia que promete aproximar-nos do tratamento da Alzheimer. Apesar de a lista ser extensa, muitos outros nomes importantes e descobertas fundamentais nunca foram agraciados com esta distinção.

A Tabela Periódica: o que pode ser mais elementar que identificar os elementos?

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Surpreendido? À primeira vista, a tabela periódica pode parecer-lhe algo banal, uma imagem reproduzida vezes e vezes sem conta que cobre paredes de salas de aula e laboratórios por todo o mundo, mas a verdade é que a sua descoberta foi revolucionária. Publicada em 1869 por Dmitri Mendeleev, a tabela periódica é muito mais que um organograma: nela apresentam-se, de forma sistematizada, os elementos químicos. Mostra-se a ordem que subjaz aos protões, neutrões e eletrões, o cerne de toda a matéria.

As suas linhas e colunas estão ordenadas para mostrar tendências periódicas – elementos com comportamentos e propriedades similares – o que permitiu a Mendeleev prever a existência e as propriedades de elementos que à data ainda não tinham sido descobertos. Com o tempo, a maioria das suas previsões revelaram-se certeiras. À medida que os elementos iam sendo descobertos, os espaços deixados na tabela de Mendeleev foram sendo preenchidos e a tabela cresceu. Uma descoberta desta magnitude teria certamente merecido um prémio nobel, mas como este só foi instituído 32 anos após a publicação, o comité que avalia e escolhe os vencedores achou que este trabalho já era antigo e sobejamente conhecido para receber a distinção. A tabela periódica foi vítima do seu próprio sucesso.

A lâmpada incandescente não brilhou o suficiente para um Nobel

A lâmpada incandescente é mais uma das invenções com uma história controversa. Muitos pensam que foi inventada por Thomas Edison, mas não podiam estar mais enganados. O britânico Joseph Swan foi o primeiro a patentear, em 1878, a invenção da lâmpada incandescente e houve muitos outros a construírem este género de lâmpadas antes de Thomas Edison. Contudo, foi o empresário e inventor norte-americano quem conseguiu aperfeiçoar o seu funcionamento transformando-o no produto comercializável que esteve na origem da economia moderna e também de algumas das modernas perturbações do sono.

Talvez devido à controvérsia sobre a sua origem e ao facto de a lâmpada incandescente ser já um invento antigo quando os prémios Nobel foram instituídos, esta nunca mereceu a distinção. Aquele que se converteu no próprio símbolo da inspiração pode não ter sido premiado, mas em 2014 três investigadores japoneses receberam o nobel da física pela invenção do seu sucessor: as lâmpadas LED azuis, fontes de luz mais duradoura, mais eficientes e mais amigas do ambiente.

Genoma Humano: o mapa da humanidade

Estávamos em 2003 quando uma equipa liderada por Eric Lander anunciou ter concluído, com 99,99% de precisão, a sequenciação completa do genoma humano. E não, não ganharam o prémio Nobel. Decifrar o nosso código genético onde se encontra toda a informação hereditária do nosso ser, com as potencialidades que isso tem para a cura de várias doenças, não foi suficiente para um Nobel. Mas porquê? Nas palavras do próprio Lander: “Não se ganha um Prémio Nobel por rodar uma manivela”. A verdade é que o mapeamento do genoma humano não pode ser considerado uma descoberta ou invenção, ele foi antes um projeto de engenharia que demorou vários anos.

Através da cooperação internacional dos setores público e privado foi possível a sequenciação automática de ADN numa escala industrial. O esforço pode ter sido colossal, mas a verdadeira base ou a manivela deste projeto foi desenvolvida por um grupo de investigadores liderados por Craig Venter. A técnica de sequenciação automática e montagem de segmentos de ADN que desenvolveram ficou conhecida como sequenciação “shotgun” de genomas completos e foi usando essa técnica que foi possível decifrar todo o genoma humano. Ainda que menos precisa, esta era uma abordagem mais rápida que podia ser usada para ler todo o código genético de um organismo de vida livre, e que tem por base a bactéria Haemophilus influenzae. Utilizando esta técnica foram já desvendados os genomas de centenas de outras espécies, mas o Nobel ainda não chegou.

World Wide Web: A internet é um mundo

A internet revolucionou o mundo, permitiu-nos viver outras vidas no digital, encurtou as distâncias, contribuiu para a economia global e abriu uma infinidade de possibilidades nas mais variadas áreas. Seria de esperar que uma invenção com esta envergadura fosse merecedora de um Nobel. Foi durante os anos 60 que, no seio do governo federal dos Estados Unidos da América, investigadores desenvolveram as redes informáticas de comunicação que estão na base da internet. Muito anos foram precisos até que chegarmos à internet tal como a conhecemos.

Tim Berners-Lee, físico e cientista britânico, fez a primeira proposta para a criação da World Wide Web em 1989 e em 1990, com a ajuda de Robert Cailliau do CERN, conseguiu a primeira comunicação bem-sucedida entre um cliente HTTP e o servidor através da internet. Estava criado o primeiro website onde se descreve a web. Não ganhou o Nobel, mas democratizou a informação e colocou milhares de conteúdos à distância de um clique. Curioso para ver o primeiro site? Deixamos-lhe aqui a ligação: http://info.cern.ch/hypertext/WWW/TheProject.html

A morte dos buracos negros: Por que Stephen Hawking nunca ganhou um Nobel?

Falecido em 2018, Stephen Hawking foi um dos físicos mais influentes e inspiradores do século XX e, mesmo assim, a sua teoria sobre a morte dos buracos negros nunca ganhou um Nobel. Diz-se que foi numa noite de 1970 que Hawking teve uma ideia que revolucionou a física: a teoria da morte dos buracos negros. Até essa altura persistia a ideia de que os buracos negros seriam mais ou menos imortais. Hawking deu a volta a esta ideia e perguntou-se se, pelo contrário, não estariam antes a perder massa lentamente, num processo que eventualmente culminaria na sua evaporação e num consequente clarão de raios gama.

O problema desta teoria é que não pode ser confirmada, já que os buracos negros têm uma vida demasiado longa para que possamos observar os seus últimos momentos. Talvez se houvesse uma forma de fazer essa verificação, o Nobel tivesse chegado. De todas as formas, uma vida dedicada ao estudo e investigação dos buracos negros, permitiram estabelecer uma união entre a clássica teoria da relatividade e a complexa teoria da mecânica quântica abrindo caminho a novas ideias e estudos que talvez em algum momento venham a ganhar o tão almejado prémio Nobel.

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