Cultura e lazer

Grandes vinhos fazem-se em grandes adegas: Quando o vinho e a arquitetura se fundem

19 Novembro, 2018

O vinho faz parte da nossa tradição e continua, nos dias de hoje, a traçar a nossa história. Melhor que uma experiência de enoturismo com bons vinhos só uma experiência com bons vinhos em grandes adegas! De norte a sul do país levamo-lo a descobrir adegas que são verdadeiras obras-primas da arquitetura!


Adega Mayor: uma homenagem ao Alentejo (Campo Maior)

Em plena planície alentejana, Álvaro Siza Vieira desenhou um edifício moderno e imponente nas suas linhas simples e limpas que se funde na perfeição com a paisagem e tradições alentejanas. Erguida em 2007, a Adega Mayor é uma referência na produção vinícola e também arquitetónica, tendo sido uma das primeiras adegas de autor no nosso país.

O edifício caiado de branco, como qualquer boa casa alentejana, sobressai no meio do verde das vinhas. Tudo nesta adega respira Alentejo: a solidez da estrutura, o uso do tijolo artesanal e os belos mármores que não poderiam ser de outro lugar que a vizinha Vila Viçosa. Ao entrar no edifício, dividido em três pisos, o visitante é convidado a conhecer o processo de produção do vinho. Depois de visitar as frias caves e ver de perto as centenas de barricas de carvalho onde o vinho amadurece, vai gostar de sentir o calor do sol alentejano.

No terceiro piso, um terraço com vista privilegiada para os 350 hectares da herdade oferece uma visão paradisíaca para os verdadeiros apreciadores do néctar dos deuses: o alinhamento quase perfeito de vinhas de onde pendem uvas das mais variadas castas, sobretudo tintas, como a Trincadeira, Castelão, Aragonez, Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional. Aproveite para descansar junto ao espelho de água enquanto faz a sua prova de vinhos.

Quinta do Encontro: o vinho como inspiração (Anadia Bairrada)

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Entre as serras do Caramulo e do Buçaco, Pedro Mateus ergueu uma ode ao vinho e a tudo o que com ele está relacionado. A Quinta do Encontro, inaugurada em 2008, tem a capacidade de impressionar e intrigar quem a visita. No edifício redondo, a madeira é o material de eleição do arquiteto numa clara alusão às barricas de vinho. Sem escadas, o visitante é convidado a percorrer os quatro pisos através de um percurso em espiral inspirado nos saca-rolhas e que culmina numa lareira em forma de garrafa.

Para além da adega, no edifício também se encontram uma loja – onde são vendidas todas as variedades de vinho produzidas na quinta, dos tintos aos brancos, passando pelos espumantes – e um restaurante onde não podia faltar a pérola da região, o leitão da bairrada. De terça a sexta-feira, ao almoço, o restaurante tem disponível um menu que inclui entrada, prato de peixe, prato de carne, sobremesa e café, tudo por apenas 12,50€ e acompanhado por uma seleção de vinhos da casa.

Adega Mãe: um sabor do Atlântico (Torres Vedras, Lisboa)

Também pela mão do arquiteto Pedro Mateus, nasceu em 2010 em Torres Vedras mais uma adega a não perder. A Adega Mãe é a expressão máxima da paixão de sempre pelo vinho da família Alves – a mesma do bacalhau Riberalves – e uma homenagem à sua matriarca, Manuela Alves. O edifício retangular, semienterrado, é um projeto arquitetónico moderno de linhas retas, numa clara oposição às colinas ondulantes carregadas de vinhedos que o circundam.

Deste miradouro sobre os vinhedos saem todos os anos 1.5 milhões de litros de um vinho único, influenciado pelos solos argilo-calcários e pela proximidade do Atlântico, características da região de Lisboa. Dentro do edifício, o visitante é convidado a conhecer como funcionam as prensas do vinho, as cubas de armazenamento, o laboratório e a sala onde repousam as barricas de carvalho francês que contêm o precioso líquido. A visita enoturística não acaba sem passar pela sala de prova, pela loja e pelo salão de eventos.

Caminhos Cruzados: Na adega da Quinta da Teixuga cruzam-se o velho e o novo Dão (Nelas)

Inaugurada em 2017, a Adega Caminhos Cruzados é uma afirmação da marca. Os quase 2 mil metros quadrados do edifício em betão, projetado por Nuno Pinto Cardoso, são, justamente, uma reconstituição do logótipo da Caminhos Cruzados. Foi nos 30 hectares da Quinta da Teixuga, em Nelas, que Paulo Santos decidiu apostar na paixão pelos vinhos do Dão e levar as propriedades vinícolas da família mais longe.

Com um foco na vertente de enoturismo, a construção alberga, para além da produção, capaz de vinificar 400.000 litros, uma loja e salas de provas de vinho que fazem as delícias de quem a visita. As preocupações com o meio-ambiente também foram acauteladas com um bom isolamento térmico e bastante iluminação natural que tornam o edifício ambientalmente sustentável.

Numa localização privilegiada da Região do Dão, as excelentes amplitudes térmicas fazem uma boa maturação das uvas e criam vinhos de aromas ricos e boa acidez. Na Quinta da Teixuga imperam, entre as vinhas com médias de 50 anos de idade, as melhores castas do Dão: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen, Alfrocheiro; brancas, Malvasia-Fina, Encruzado e Bical.

Herdade do Freixo: da profundidade do vinho (Redondo, Alentejo)

A paisagem, serenidade e pacatez alentejanas não são de todo perturbadas pelo edifício desenhado por Frederico Valsassina e inaugurado em 2016 no Redondo. Num esforço hercúleo de arquitetura e engenharia para preservar a terra e a ruralidade, a nova adega da Herdade do Freixo encontra-se enterrada a 40 metros de profundidade sob uma extensão de vinha da casta Syrah.

É aí, debaixo das vinhas, que o edifício revela um design arrojado, assente em linhas “limpas” e cruas com uma decoração onde os materiais rústicos são reis: o emprego da madeira de carvalho e do xisto são espantosos! A enorme espiral no núcleo é o centro nevrálgico da construção, um verdadeiro ex-líbris desta obra arquitetónica. Numa viagem de circum-navegação pela rampa iluminada por uma claraboia, acede-se a todos os três níveis da adega.

Aqui é a gravidade que ajuda em todo o processo de produção do vinho ainda que, de resto, o edifício esteja equipado com a melhor tecnologia de vinificação. Depois de uma paragem na loja e nas salas de provas, à maior profundidade, encontramo-nos na impressionante sala das barricas onde o vinho descansa em 89 tonéis de 225 litros. No total existe espaço para acolher 300 mil litros de vinho.

Emergimos das profundidades da terra para apreciar os 300 hectares desta herdade que, não parecendo, está a 450 metros acima do nível do mar e tem muito mais para oferecer: uma paisagem verdadeiramente inspiradora. Além da adega e dos magníficos vinhos alentejanos, oferece aos visitantes a possibilidade de apreciar um património natural e arqueológico único composto de oliveiras e outras árvores milenares, e uma variedade de aves migratórias que por aqui passam e das quais a raríssima Cegonha Negra é a principal atração.

Quinta da Pedra: o reino do alvarinho (Monção)

A adega, que “preside” ao reino do alvarinho, nasceu de um sonho de Carlos Dias, fundador da marca e responsável pelo desenho do edifício construído em 2011. Inspirada nas muralhas de Monção, a adega destaca-se pela sua cor de tijolo tão característica e pelos corações inspirados na filigrana minhota e serve a maior propriedade contínua de Alvarinho. São 43 hectares que certamente não vão deixar indiferentes os apreciadores da mais nobre casta branca portuguesa, originária do norte do país.

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