Economia Pessoal

Fim da mudança de hora: o que está em causa?

22 Outubro, 2018

Deixar de atrasar o relógio em outubro para entrar na hora de inverno ou de adiantá-lo em março para assinalar a chegada do horário de verão é uma mudança que tem dado muito que falar. Mas o que está em causa?


Porque muda a hora afinal?

A mudança da hora visava uma poupança de energia e uma redução de gastos com a iluminação graças à maior disponibilidade de luz natural nos meses de verão. Surgiu, assim, como uma necessidade dos tempos: não nos podemos esquecer que esta prática, designada como Daylight Savings Time, foi pensada por Benjamin Franklin para economizar velas, em 1784, e posta em prática em 1916 para poupar recursos, nomeadamente carvão, durante a Primeira Guerra Mundial. Mais tarde seria recuperada a propósito da crise petrolífera, em 1973, passando a ser obrigatória em 1981. Mas nos tempos que correm será que ainda faz sentido?

Vamos pagar mais de luz?

A acabar com a mudança da hora pela última vez a 31 de março de 2019, a Comissão Europeia pretende que os relógios se mantenham sempre no horário de verão ou de inverno. Mas se a mudança da hora se prende, historicamente, com uma poupança de energia isso terá alguma consequência na fatura da luz?

Sim, pode vir a aumentar, ainda que pouco: “o valor da poupança [energética] verificada é relativamente pequeno, em média inferior a 1%”, e como tal com o fim da mudança da hora o consumo energético crescerá nessa mesma percentagem, pode ler-se num relatório assinado por Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa.

E isto vai em linha com o estudo realizado pela International Association for Energy Economics: após 44 investigações em todo o mundo, a entidade concluiu que a poupança energética nos dias de verão é de apenas 0,34%. Já a Comissão Europeia fala de uma redução dos gastos energéticos na ordem dos 0,5% do consumo nacional total com a mudança para o horário de verão.

O Instituto para a Diversificação e Poupança de Energia, em Espanha, também decidiu fazer as contas e estima que com a mudança da hora “o potencial de poupança em iluminação” ascenderia a 5% do consumo elétrico. Mas o que é que isto significa em termos práticos? Ora, equivaleria a uma poupança de 6 euros na fatura de cada família.

Agora, uma coisa é certa: vários especialistas, entidades e a Comissão Europeia são unânimes no ponto de que utilizar o argumento da poupança energética para justificar a mudança da hora, já não faz sentido. Até porque hoje em dia existem novas tecnologias, mais eficientes – como as lâmpadas LED -, que fazem com que o gasto energético seja muito inferior ao de outros tempos.

Fim da mudança de hora é melhor para a saúde

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Uma das razões pela qual a Comissão Europeia decidiu perguntar a milhões de pessoas se gostariam de pôr fim à mudança da hora prende-se com questões que envolvem a saúde. É que embora 1 hora para a frente ou para trás pareça pouco, é o suficiente para baralhar o relógio biológico.  O nosso bem-estar é afetado quando existe um desajuste temporário entre o nosso ambiente externo e o nosso relógio biológico. Como consequência, podemos sentir-nos sonolentos ou desorientados durante o dia.

E as crianças ainda saem mais afetadas: sim, os mais novos podem sentir-se mais preguiçosos porque o seu relógio biológico é mais lento e exige um tempo de habituação maior. Porquê? De acordo com a revista brasileira Crescer, isto acontece porque a melatonina, hormona que é responsável por nos ajudar a dormir e a relaxar, é ativada e alterada pela falta de luz, provocando uma instabilidade na rotina. Por isso não é de estranhar que as crianças pareçam mais cansadas durante a mudança para o horário de verão ou de inverno. 

E dizemos-lhe mais! Um estudo da American Academy of Neurology revelou também algo muito importante sobre a relação entre a mudança da hora e possíveis problemas de saúde: a entidade diz que há um aumento de 8% no número de ataques cardíacos nos dois dias a seguir à mudança da hora. Para os doentes de cancro a probabilidade de sofrer um enfarte nesse período de tempo aumenta consideravelmente para 25%, já no caso de um idoso a probabilidade de sofrer um ataque cardíaco é 20% maior.

Menos acidentes rodoviários e de trabalho

Acabar a mudança da hora também pode significar uma dimuinuição no número de acidentes rodoviários e de trabalho! De acordo com um estudo do economista americano Austin Smith, no dia após adiantar a hora os acidentes de carro podem aumentar até 6,5%. A revista Visão aplicou esta informação à realidade portuguesa e concluiu que da média de 349 acidentes rodoviários diários em 2016 – dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para Portugal Continental – podem ter ocorrido mais 23 acidentes devido à perda de sono na mudança para o horário de verão.

E ao que parece isto também tem consequências no que toca aos acidentes de trabalho. O professor Christopher Barnes, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, refere que a maior parte das pessoas dorme menos 40 minutos na segunda-feira a seguir à mudança de hora e que os acidentes de trabalho são mais frequentes na “segunda-feira sonolenta”, devido à falta de descanso. Para o comprovar, o investigador dá como referência os acidentes em minas americanas entre 1983 e 2006, que aumentavam quase 6% nesse dia.

Empresas saem a ganhar com o fim da mudança horária

A Comissão Europeia refere que o fim da mudança da hora pode beneficiar as empresas: por exemplo, o planeamento ao nível dos setores da energia e dos transportes (como os comboios noturnos) seria facilitado. E acrescenta: também seria simplificado o uso de aplicações que têm por base a hora.

Além disso, as Associações de Transportes aéreos também vêem com bons olhos o fim desta prática porque dizem que as mudanças de hora podem custar milhões de euros às transportadoras aéreas devido a atrasos nos voos e da falta de sincronização horária entre continentes nos primeiros dias após atrasar ou adiantar a hora.

365 dias em horário de verão ou de inverno: prós e contras 

O presidente da Associação Portuguesa do Sono, Joaquim Moita, vê com a preocupação a eliminação do horário de inverno porque se tal acontecer há alturas em que vai amanhecer por volta das 9 horas da manhã e anoitecer depois das 18 horas da tarde, o que tem consequências na nossa vida. A exposição solar é essencial para ativar o cérebro e se as crianças e os adolescentes começam o dia de aulas ainda de noite podem verificar-se problemas cognitivos ao nível da concentração, atenção, raciocínio, memória e até de tomada de decisão. Além de que vai interferir com os horários de dormida porque o anoitecer, imprescindível para proporcionar um sono em condições, chega mais tarde.

E não só. O presidente alerta ainda para o aumento da “irritabilidade, flutuações de humor e ansiedade” com a falta de sol e de dias com o anoitecer mais tardio. Ricardo Cardoso Reis, membro do grupo de comunicação de ciência do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, diz que, se fosse ele a escolher e não podendo opor-se ao fim da mudança da hora, o mais lógico seria manter-se a hora mais próxima da verdadeira hora solar, isto é, o horário de inverno. Sim, de acordo com Ricardo Reis não faz sentido em Portugal, um país onde se começa a trabalhar pelas 8, 9 horas da manhã, passar três a quatro meses a fazê-lo ainda de noite.

Por outro lado, há vantagens em manter sempre o horário de verão: por exemplo, sabe-se que ao final do dia ainda sobram horas de sol suficientes para fazer atividades de lazer, depois do emprego ou da escola, e quando temos tempo para fazer o que mais gostamos isso aumenta os níveis de bem-estar. E também pode beneficiar o consumo! Quem o diz é Michael Downing, autor do livro Spring Forward: The Annual Madness of Daylight Saving Time que numa entrevista a uma rádio nacional norte-americana avançou que “as pessoas saem e gastam dinheiro. Esta tem sido uma política de gastos longa e tremendamente eficaz. As lojas de centro comercial adoram o horário de verão”.

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