Saúde

O que se esconde por trás da Síndrome do Cólon Irritável?

17 Outubro, 2018

Costuma sentir dor ou desconforto abdominal? Sofre de obstipação ou de diarreias? Pode sofrer de síndrome do colón irritável, uma doença que se estima atingir 20% a 25% da população portuguesa e europeia. Mas afinal que síndrome é esta? O que a provoca e como pode ser identificada?


Síndrome do Colón Irritável: O que é?

A síndrome do colón irritável, ou síndrome do intestino irritável é uma patologia funcional, não inflamatória, ou seja, os sintomas existem sem que haja qualquer lesão do intestino. Nessa medida, a síndrome do colón irritável não é uma doença, mas antes um conjunto de sintomas que ocorrem ao mesmo tempo. Assim, também não é transmissível e não coloca em perigo a vida de quem dela sofre. Trata-se, na realidade, de uma perturbação motora do funcionamento do intestino, que, nas pessoas com um tecido mais sensível, reage com mais intensidade.

Mas o que acontece afinal? As alterações verificadas no padrão de movimentos intestinais originam a inflamação das suas vilosidades e provocam modificações nas fezes. Tendo por base a consistência das fezes, identificam-se quatro subtipos desta disfunção: cólon irritável com obstipação, cólon irritável com diarreia, formas mistas e formas não classificáveis. Dadas as suas características, não existe o perigo de evoluir para nada de maligno, no entanto, é preciso estar atento à duração dos sintomas e à sua recorrência, já que pode camuflar problemas mais sérios.

Dor abdominal, inchaço e gases entre os sintomas

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Os sintomas mais comuns da síndrome do colón irritável são dor, desconforto e inchaço abdominais, excesso de gases, diarreia, obstipação ou ambas. Também pode aumentar o número de evacuações por dia e as fezes podem apresentar uma secreção gelatinosa (muco). É comum a dor abdominal estar associada ao aumento ou diminuição dos movimentos do intestino que pode levar, por um lado, a fezes menos consistentes e aquosas e, por outro, a fezes mais duras do que o habitual.

Muitas vezes, os sintomas manifestam-se após uma refeição e é mesmo frequente a dor abdominal ser desencadeada pela ingestão de determinados alimentos. Quem sofre desta perturbação pode alternar entre ter três ou mais diarreias por dia e evacuar menos de três vezes por semana. Geralmente, os pacientes apresentam vários destes sintomas durante longos períodos de tempo, em muitos casos, ao longo de anos, mas nem sempre com uma manifestação aguda. É normal haver um alívio dos sintomas depois da evacuação ou com a libertação dos gases.

Cólon irritável: as causas

Até à data não se conhecem totalmente as causas da síndrome do colón irritável, mas sabe-se que resulta de uma combinação de fatores físicos e mentais. A verdade é que já há algum tempo que sabemos que há muito mais do que digestão no sistema digestivo e que a sua relação com o cérebro vai muito além do que inicialmente se poderia pensar. Sabia, por exemplo, que existem neurónios no intestino? Não é, portanto, de estranhar que se indiquem as alterações ao nível da sinalização entre o cérebro e os intestinos como uma das causas do desregulamento nos hábitos intestinais e, consequentemente, do surgimento desta patologia.

Ansiedade, depressão, ataques de pânico, stress pós-traumático e antecedentes de abuso sexual são os principais fatores psicológicos que contribuem para o aparecimento da síndrome do cólon irritável. Já na parte física, identificam-se problemas como hipersensibilidade intestinal, gastrenterite bacteriana, excesso de bactérias no intestino delgado, alterações da mobilidade gastrointestinal, alterações nos níveis de neurotransmissores, fatores genéticos e sensibilidade a alguns alimentos.

Um diagnóstico difícil

Na realidade, a síndrome do cólon irritável não pode ser comprovada por um qualquer exame. Como não provoca alterações físicas no revestimento do intestino, o diagnóstico é geralmente feito pela identificação prolongada dos sintomas referidos, mas sobretudo pela exclusão de outras doenças gastrointestinais. Para isso, o médico poderá realizar vários exames de despiste como estudo das fezes, colonoscopia, tomografia computadorizada ou exames ao sangue. A dor abdominal é o fator-chave do diagnóstico desta síndrome, sem ela será apenas um caso de obstipação ou diarreia funcional mais ou menos recorrente. Normalmente, é uma dor crónica, sentida nas laterais do abdómen que não tem que ser contínua: em muitos casos desaparece e reaparece.

Por vezes a síndrome do cólon irritável é erradamente diagnosticada em casos de pessoas que têm na realidade intolerâncias alimentares, uma vez que ambas estimulam a sensibilidade do intestino. A diferença está em que, quando se trata de uma intolerância alimentar, retirando o alimento em causa, os sintomas tendem a desaparecer. No caso da síndrome do colón irritável não existe uma intolerância a determinado alimento, mas em vez disso, alimentos que podem exacerbar uma hipersensibilidade já existente.

Tratamento e prevenção

Da mesma forma que não existe um diagnóstico irrefutável para a síndrome do cólon irritável, tão-pouco há uma cura efetiva. Depois de diagnosticada a síndrome, o paciente deve alterar a sua dieta alimentar e o seu estilo de vida para que os sintomas aliviem. As refeições devem ser mais frequentes e com menores quantidades e deve-se aumentar a ingestão de alimentos não digeríveis como a fibra. É, no entanto, preciso ter atenção a este alimento, e fazer a sua introdução de forma controlada, uma vez que a fibra pode aumentar a formação de gases.

Deve-se ainda diminuir o consumo de alimentos ricos em gorduras e evitar alimentos com cafeína e outros compostos excitantes, álcool e produtos lácteos que podem agravar os sintomas associados à síndrome do cólon irritável. Assim, risque alimentos como o café, o chá, o chocolate, as bebidas alcoólicas, o leite, o queijo, a manteiga e outros derivados do leite. Porém, a mudança dos hábitos alimentares por si só pode não ser suficiente para aliviar os sintomas.

É importante que os pacientes consigam controlar o stress e a ansiedade, já que estes não podem ser descurados como principais causas desta patologia. Recorrer à meditação ou a um profissional de psicologia pode revelar-se necessário para combater as questões psicológicas. Não fumar e fazer caminhadas ou outro tipo de desporto, também tem efeitos benéficos, tão ao nível físico como mental, na saúde e bem-estar dos doentes.

Nas situações mais graves, o médico pode receitar medicamentos como suplementos de fibra, laxantes, antidiarreicos, antiespasmódicos ou antidepressivos, consoante os sintomas apresentados. Por vezes, podem ser prescritos antibióticos para os casos em que se demonstre a presença de crescimento excessivo da flora bacteriana no intestino delgado. E também já há quem use probióticos para aliviar os sintomas da síndrome do cólon irritável.

Uma boa relação médico-paciente é fundamental para que o clínico consiga perceber o estado emocional e as preocupações que afetam o doente e assim indicar o melhor tratamento. Além disso, sendo este um processo prolongado em que os resultados podem levar meses a atingir, essa relação revela-se ainda mais importante para manter o paciente motivado e diminuir a sua frustração. Quanto mais pensar sobre a doença mais esta se transformará numa fonte de frustração e stress, o que só agravará os sintomas.

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