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Nelson Évora: esteve no topo, lesionou-se e chegou ainda mais longe

12 Outubro, 2018

Várias lesões e até a possível amputação de uma perna não impediram Nelson Évora de fazer história no triplo salto, a 12 de agosto de 2018: sagrou-se campeão europeu ao ar-livre aos 34 anos. O segredo do seu sucesso? Trabalho, controlo na pista e muita, muita “fome de saltos”.


Campeão da Europa ao Ar-Livre: o ouro e o título que faltavam

Estávamos em 2007 e sob os céus de Osaka quando o português Nelson Évora se fez ao triplo salto e atingiu, nada mais nada menos, do que marca dos 17,74 metros para agarrar com determinação a medalha de ouro nos Mundiais. Era a primeira e com ela augurava-se a esperança de que o jovem nascido em 1984 viria a ser a grande promessa do mundo do atletismo. E passaria apenas 1 ano para voltar a mostrar do que realmente é feito…

Sim, em 2008 Nelson Évora ascende a campeão olímpico! O evento decorria em Pequim e desta vez bastou-lhe voar 17,67 metros para ganhar o ouro. E neste momento acontecem duas coisas importantes: Nelson torna-se no quarto português a arrecadar a medalha mais desejada para Portugal e a fazer soar “A Portuguesa” a Oriente. Faltava-lhe então o título de campeão europeu ao ar-livre, porque o ouro no Campeonato Europeu de Atletismo em Pista Coberta (Praga) já tinha sido seu em 2015.

Faltava, mas já não falta: a verdade é que no passado dia 12 de agosto, em Berlim, Nelson Évora mostrou novamente a todos que aos 34 anos de idade ainda consegue saltar bem longe! Sim, um “salto controlado para ganhar a liderança da prova” ao quinto ensaio permitiu-lhe alcançar os 17,10 metros e fazer dele o campeão da Europa. Para trás ficaram Alexis Copello e Dimitrios Tsiamis, incapazes de o ultrapassar.

A estratégia mental de um vencedor de triplo salto

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Qual o segredo do sucesso de Nelson Évora? Bom, o medalhista confessa que os títulos se devem ao facto de saber jogar pelo seguro e também a algumas estratégias mentais. Conta, por exemplo, que em Pequim se assumiu à partida como favorito e saltou emocionalmente controlado. Além disso, o atleta diz que consegue atingir um estado de auto-hipnose que o coloca num elevado nível de concentração, em modo piloto automático, e que lhe permite executar na perfeição todas as ações motoras previamente treinadas.

Lesões e a quase amputação de uma perna não travaram a “fome de saltos”

Para vencer na pista, Nelson Évora, atleta do Sporting Clube de Portugal, podia justificar-se com o ADN cabo-verdiano que lhe corre nas veias, mas isso por si só não chega. E quem priva com o triplista, sobretudo amigos e familiares, sabe perfeitamente que vive e respira atletismo 24 horas sobre 24 horas – mesmo admitindo que não gosta de saltar com frio e chuva. Porquê?  A “fome de saltos” e a “busca pelo salto perfeito”, que o próprio diz existir dentro dele explicam-no. No entanto, fazer o mesmo diariamente ao longo de 23 anos desgasta músculos e tendões…

E ele que o diga! A carreira de Nélson Évora esteve em risco devido a recorrentes lesões desde 2010. Lesões essas que o impediram, por exemplo, de defender o título nos Jogos Olímpicos, em Londres, no ano de 2012, mas que nunca o fizeram sentir que era altura de baixar os braços. Nem quando o assombrou o medo da possível amputação da perna direita, aquando da fratura da tíbia que culminou numa série de operações, quis desistir.

Hoje, para o relembrar do que se passou, Nelson vive com um calo ósseo no perónio e na tíbia do tamanho de uma moeda de dois euros. A nós revela-nos o seu lado mais teimoso e perfecionista: sabe-se que o atleta já tinha dores devido a uma fratura de stress na perna quando decide fazer mais um salto no Centro de Alto Rendimento do Jamor durante um treino que já tinha dado por terminado e que, claro, acabou mal. Estávamos a 18 de janeiro de 2012 e nesta altura o regresso ao pódio parecia difícil, senão impossível…

Do jogo da mosca ao triplo salto

João Ganço, antigo saltador em altura, pai do seu melhor amigo de infância e seu treinador por mais de 20 anos, ao contrário de todos, não duvidou por um segundo que Nelson Évora voltasse ao competir ao mais alto nível após tantas lesões e operações. E ao que parece, o destino estava traçado desde o momento em que o atleta começou a pôr três pedras no chão e a saltar por cima delas (o chamado jogo da mosca), numa rua de Odivelas, onde chegou com apenas cinco anos com os seus pais, vindos da Costa do Marfim.

Já aí a competição e o salto começavam a surgir como interesses que, curiosamente, culminariam numa paixão e futura profissão: aos 11 anos, com 1,38 metros de altura já saltava 1,64 metros, o que faz com que entre no Benfica. Com o passar dos anos, o menino reguila transformou-se num atleta que canaliza as provocações e coisas menos boas do mundo do atletismo para a pista. Aliás, o ouro olímpico de 2008 deve-o a um rival que se sentou à sua frente só para “lhe moer o juízo”, pode ler-se no Expresso.

O que falta conquistar?

Medalhas que vão do bronze à prata e ao ouro e títulos nacionais e internacionais é o que não falta a Nelson Évora, mas isso não significa que não continue a trabalhar para fazer mais e melhor. E o que quer isso dizer? Para já, o atleta quer voltar a bater a marca pessoal dos 17,74 metros, isto até aos Mundiais em Tóquio, e o recorde nacional de 17,95 metros que Pedro Pablo Pichardo alcançou no meeting de Doha, no Qatar. Para tal, conta com a orientação do cubano Iván Pedroso, seu ídolo de infância e ex-campeão olímpico e mundial no salto em comprimento.

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