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Ach. Brito: 100 anos de história, sabonetes e ralis

26 Setembro, 2018

A Ach. Brito celebra este ano 100 anos! Mas como é que uma empresa de sabonetes liderada por 4 gerações de homens conseguiu sobreviver ao tempo? Serem os favoritos de Oprah Winfrey ajudou bastante, mas há muito, muito mais por detrás desta história.


O olho para o negócio corria no sangue dos Achilles de Brito

Criar uma marca totalmente nacional era o grande objetivo de Achilles de Brito no dia em que fundou, ao lado do seu irmão Affonso, a Ach. Brito. Estávamos em 1918. E a verdade é que a experiência estava do seu lado: o empresário já tinha trabalhado 15 anos na alemã Claus & Schweder, a primeira e mais reputada fábrica de sabonetes a operar em Portugal, e que a Ach. Brito acabaria por adquirir passados 7 anos para consolidar o seu império. Mais tarde, seria a vez de comprar a outra grande concorrente, a Confiança, e o apogeu estava alcançado.

Com a consolidação do negócio, havia então tempo para dar largas à criatividade. Sim, foi nos entretantos que o empresário idealizou e concebeu o sabonete Patti e a água-de-colónia Lavanda que faziam – e ainda fazem! – parte das casas de muitos portugueses.  Mais tarde seria o seu herdeiro Achilles José de Brito a seguir-lhe as pisadas: olho para o negócio era o que não lhe faltava e, por volta de 1953, criou dentro da fábrica uma litografia onde passaram a ser feitos os rótulos, etiquetas, selos e embalagens das marcas.

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Mas não se ficou por aqui. O sucessor sabia que o segredo é a alma de qualquer negócio e decidiu que a partir daí todo o processo de produção, desde o fabrico, à rotulagem, ao acondicionamento dos produtos, se passaria a realizar única e exclusivamente dentro de quatro paredes. E havia outro truque na manga: sim, Achilles José de Brito e as suas três irmãs criaram uma empresa paralela de plantas aromáticas destinada a fornecer óleos essenciais à Ach. Brito que acabou por ser integrada na companhia em 1956, o que os diferenciava no mercado.

Nem só de sabonetes vivem os Ach. Brito: a paixão pelos carros

Ao longo dos anos, a Ach. Brito cresceu em reconhecimento, arrecadou prémios e tornou-se numa referência nacional tão imponente que quando assinalou 50 anos, em 1968, recebeu a visita do Presidente da República Américo Tomás. Mas se, por um lado, os Achille de Brito venceram num negócio pouco associado ao sexo masculino, tinham uma paixão que é comum a muitos: os carros! Na década de 50, o empresário Achilles José de Brito e quatro amigos conduziram 62 horas sem paragens para chegar a tempo ao rali de Monte Carlo. Tendo também um lado de colecionador: desde um Ferrari, ao Jaguar e ao Lotus, nada lhe faltava.

E o seu filho tomar-lhe-ia o gosto. Sim, Aquiles Delfim de Brito, o terceiro, – por esta altura o nome já se escrevia sem o  “ch” e só um “l” – aventurou-se pelo circuito de Lordelo do Ouro ao de Montes Claros, passando pela Rampa da Pena, pelo Circuito de Vila do Conde, pela Volta ao Minho e, por fim, pelo Grande Prémio de Portugal. Foi somando prémios e posicionando-se em lugares de destaque no mundo do automobilismo português nos anos 60 e 70, até assumir um papel ativo na Ach. Brito. No entanto, a sua passagem pela empresa não duraria muito tempo porque acabaria por morrer com apenas 39 de anos de idade…

A entrada de “estranhos” na família Ach. Brito

A empresa Ach. Brito carrega uma história de sucesso empresarial entre períodos conturbados da história: sobreviveu a coisas tão importantes como a passagem da Monarquia para a República, duas Guerras Mundiais, um Estado Novo e um 25 de abril. No entanto, com a CEE a possibilitar a entrada de novas marcas e multinacionais de produção em escala capazes de praticar preços mais competitivos e a moda dos géis de banho a entrar em força, a marca acabaria por passar por um período conturbado logo no início dos anos 90.

A perder terreno, é neste preciso momento que entra em cena a quarta geração dos Achilles de Brito. Em 1994, a liderança passa para a mão dos irmãos Aquiles e Sónia Brito, os bisnetos de Achilles de Brito, e dá-se início a uma verdadeira reestruturação. Mas em que consistiu? Ora, os herdeiros decidiram descontinuar áreas que já não eram determinantes e que envolviam toda a produção desde o início e especializarem-se em produtos mais premium. E isso ganhou expressão através da sua marca de luxo, a Claus Porto.

O processo envolveu alguns sacrifícios como o fecho da litografia criada pelo seu avô, a redução do número de trabalhadores e a venda, em 1999, do emblemático edifício do Porto. Em 2015, Aquiles de Brito toma outra decisão difícil: vende uma fatia maioritária das ações à Menlo Capital, uma sociedade de capitais de risco portuguesa, e confessa que não se arrepende que o sucesso tenha vindo de fora para dentro. E embora o empresário mantenha uma relação próxima com a fábrica fica a pergunta no ar: será que a quinta geração dos Achille de Brito vai ter olho para o negócio dos sabonetes?

Os sabonetes preferidos de Oprah! 

Há 100 anos que os sabonetes e perfumes da Ach. Brito passam de geração em geração, entre as famílias. O sucesso reside não só na qualidade dos seus produtos, mas também na riqueza estética dos rótulos e embalagens. Para não falar do preço: Patti, Lavanda, Rosalface e Luxo Banho, a gama mais económica da marca, saem atualmente da fábrica de Vila do Conde diretamente para supermercados, drogarias e mercearias.

No entanto, foram os sabonetes Claus Porto que conquistaram o coração da apresentadora de televisão Oprah Winfrey. Excusado será dizer que depois da revelação a marca esgotou o stock online! E a verdade é que a sua produção artesanal e o facto de serem embrulhados à mão um a um não deixaram também indiferentes os atores Nicholas Cage e Johnny Depp e a modelo Kate Moss, que os usam religiosamente.

Com o tempo, a aposta na internacionalização da Claus Porto foi-se consolidando e pareceu bastante acertada: sendo vendida em mais de 50 países, em 2017 as exportações representavam cerca de 40% das vendas! Além disso, hoje em dia os produtos da Ach. Brito estão em lojas tão reputadas e exclusivas como a Fashion Clinic, a Bergdorf Goodman, na 5ª Avenida em Nova Iorque, e a Harrod’s, em Londres.

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