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Como nasceu o futebol? A história do desporto-rei

18 Setembro, 2018

Com registos de origem milenar, o futebol continua a ser o desporto mais popular da atualidade. Num ano em que se estima que metade da população do planeta tenha assistido ao campeonato mundial pela televisão, fique a saber mais sobre o desporto-rei em Portugal e no mundo.


O pontapé de saída do futebol

Por detrás da popularidade que faz com que mais de 3 mil milhões de espetadores ao redor do mundo acompanhem o Campeonato Mundial de Futebol, tornando-o o evento mais visto do século XXI, está a diversidade das origens deste desporto. Embora não se tenha muita certeza sobre o seu início, várias atividades que se assemelham ao futebol foram descobertas por historiadores em diversas culturas antigas.

Os registos vêm mesmo de toda a parte, sendo que o primeiro data de 476 a.C. e refere-se ao ts’uh Kúh (cuju), um jogo baseado num manual de exercícios da dinastia Han, da antiga China. Cinco ou seis séculos mais tarde, no Japão, surge o kemari. Entre os anos 700 e 800, popularizou-se o harpastum, em Roma, e o episkyros, na Grécia. E a lista não fica por aqui! Na Era dos Descobrimentos, foi a vez de encontrar desportos similares ao futebol também no Novo Mundo: o pok ta pok da cultura maia e o manga ñembosarái do Paraguai. Na Oceania houve o marngrook, e no território que hoje chamamos de Estados Unidos praticava-se o pasuckuakohow e o asgagtuk.

Para além da peculiaridade dos seus nomes, o que todos estes jogos têm em comum são as características semelhantes às do futebol. E ainda que não se saiba até que ponto influenciaram os desportos atuais, já fica claro que o gosto mundial por este tipo de atividades não é de hoje.

As Ilhas Britânicas: o berço do futebol moderno

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Se o desporto é rei, não é de admirar que a sua versão moderna tenha nascido sob a jurisdição de uma das principais monarquias do mundo. Foi nas Ilhas Britânicas que, no final da Idade Média, se desenvolveram diferentes jogos de equipa conhecidos como códigos de futebol. E, em meados do século XIX, seriam dados os primeiros passos para a unificação destas regras e formas de jogo para a criação de um desporto único.

Uma série de reuniões entre 12 clubes de várias escolas londrinas, em 1863, acabaram por estabelecer as 14 regras que formariam o regulamento universal do association football, nomeado assim para diferenciá-lo das outras formas de futebol da época (que viriam mais tarde dar origem ao râguebi, ao futebol americano e outros desportos semelhantes). A data da primeira reunião, 26 de outubro, é considerada por muitos o nascimento do futebol – facto curioso uma vez que o Sheffield Football Club da Inglaterra, considerada a equipa mais antiga do mundo, foi fundado em 1857.

De qualquer forma, foi a partir desta fase que os primeiros jogos e torneios começaram a ser disputados. E a primeira partida oficial entre seleções nacionais aconteceria sem grande emoção em 1872, em Glasgow: um empate sem golos entre a Escócia e a Inglaterra.

Do Reino Unido para conquistar o mundo

A influência internacional do Império Britânico fez com que, já em 1880, o futebol começasse a sua rápida expansão para fora do Reino Unido. Nos Jogos Olímpicos de 1900 e 1904 aconteceram partidas de exibição até que, na edição de 1908, houve a primeira competição entre seleções.

O auge do desporto motivou a criação da Federação Internacional de Futebol, a FIFA (Fédération Internationale de Football Association), no ano de 1904, em Paris. Entretanto, a Primeira Guerra Mundial viria atrasar o desenvolvimento do futebol, que só voltou a recuperar a força nos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928. Foi nesta altura que a FIFA criou a competição que mais tarde ultrapassaria as Olimpíadas em popularidade e audiência, o Campeonato Mundial de Futebol, também realizado de quatro em quatro anos. Em 1930 acontece a primeira das 21 edições do torneio, no Uruguai, quando a seleção da casa se tornou a primeira campeã da história, ao vencer a vizinha Argentina por 4 a 2.

Como já tinha acontecido antes, a Segunda Guerra Mundial também acabaria por esfriar as coisas, sendo os anos de 1942 e 1946 os únicos em que a Taça Jules Rimet (prémio do Mundial entre 1930 e 1970, antes da sua substituição pelo atual troféu) não foi disputada. A consolidação mundial do desporto – para além da Europa e da América do Sul, onde já se encontrava organizado – acontece então nas décadas de 50 e 60, após o fim dos conflitos.

A chegada do futebol a terras lusitanas

O que muitos historiadores defendem é que o primeiro sítio a ver a bola rolar em Portugal foi a Ilha da Madeira, em 1875 – onde, curiosamente, nasceria Cristiano Ronaldo, 110 anos depois. O que se conta é que teria sido Harry Hilton, um jovem inglês residente na ilha e que estudava em Londres, a fazê-lo.

No Continente, já treze anos mais tarde, há registos do primeiro jogo informal de futebol organizado por Guilherme Pinto Basto, em Cascais. Os irmãos Pinto Basto, que estudavam em terras britânicas, vieram gozar as férias de Verão a Portugal e trouxeram consigo uma bola de futebol. Foram eles também os responsáveis pelo primeiro jogo oficial no país, que aconteceu no ano seguinte, a 22 de janeiro de 1889, no Campo Pequeno em Lisboa: um embate entre portugueses e ingleses, que calhou numa vitoriosa estreia da nossa equipa por 2 a 1.

Como é possível perceber, Portugal conheceu o futebol através da alta burguesia, que trazia as novidades do estrangeiro. Isto fez com que, no seu princípio, o desporto não fosse nada popular e até mesmo ignorado por grande parte da população portuguesa, que o considerava uma excentricidade das elites. Contudo, com o passar do tempo, o futebol conquistou lenta, mas irremediavelmente, o país. Em 1893, nasceria o primeiro dos grandes clubes portugueses: o FC Porto.

No que toca à Seleção Nacional de Portugal, esta jogaria pela primeira vez apenas em 1921, sob o comando do capitão Cândido de Oliveira, contra a Espanha, numa derrota por 3 a 1 que se deu nos relvados do país vizinho. Sete anos mais tarde, disputaria o Torneio Olímpico, em Amesterdão, a chegar aos quartos-de-final. Mas só em 1966 é que a Seleção das Quinas se classificaria para o Mundial. Contudo, se por um lado esta conquista foi demorada, por outro, resultou na nossa melhor atuação de sempre, quando alcançámos o terceiro lugar em Inglatera.

Se o futebol é rei, Eusébio Ferreira é o nosso “King”

Não há como falar de futebol e deixar passar ao lado o nome de Eusébio da Silva Ferreira. O moçambicano naturalizado português é símbolo incontestado e considerado por muitos um dos melhores futebolistas de todos os tempos. A sua velocidade, habilidade e um potente remate de pé direito, bem como o seu reconhecido fair-play e humildade fazem de Eusébio um tesouro nacional.

“O Pantera Negra”, “A Pérola Negra” ou “King”: as alcunhas eram muitas para definir o talentoso jogador que fez vacilar as redes do adversário num total de 733 vezes durante a sua vida profissional. E, apesar de ter começado no Sporting Lourenço Marques – filial do Sporting Clube de Portugal em Moçambique -, é incontestável que o seu coração era benfiquista. Dos seus 22 anos de atuação, contabilizam-se 15 anos, 638 golos marcados e mais de uma dezena de prémios conquistados com a camisola da equipa da Luz.

E a história de Eusébio no Benfica é daquelas que vale a pena contar: estávamos em 1960 e o Sporting já tinha a sua transferência acertada com o jogador de 18 anos, quando um funcionário benfiquista colocou o jovem num avião e disse aos leões que Eusébio ia de barco para Lisboa. Por cá, os dirigentes das águias já o esperavam. O clube de Alvalade chegou a duplicar a oferta feita à mãe do atleta, mas era tarde demais: ele já tinha sido escondido num hotel em Lagos para evitar a negociação. Uma semana mais tarde, Eusébio chegava a Lisboa, já benfiquista.

Entetanto, se acompanhou a recente transferência milionária de Cristiano Ronaldo para a Juventus, fique a saber que o interesse do clube italiano pelos craques portugueses não é de hoje. Em 1964 a Juventus ofereceu a Eusébio 16.000 contos, numa altura em que ele defendia o Benfica nos revaldos por 300. Mais uma vez, ninguém queria perder o Pantera Negra e, numa jogada de mestre, o governo envia Eusébio para a tropa para evitar a venda. O Benfica acabaria por lhe aumentar o salário para 4.000 contos. Anos mais tarde, os italianos vão ainda mais longe: a oferta agora é a modesta quantia de 90.000 contos. E quando parece não haver outra hipótese que não seja dizer adeus, surge a notícia de que os clubes da Itália não podem continuar a contratar jogadores estrangeiros. Parecia coisa do destino: o lugar de Eusébio era mesmo na “Catedral”.

Mas não foi só o equipamento benfiquista que o consagrou. O vermelho era mesmo a sua cor e, com a camisola das quinas vestida, foi um dos protagonistas da principal atuação da Seleção Nacional Portuguesa em Mundiais, em 1966. Por essa altura, foi galardoado com a Bota de Ouro, por ser o maior marcador da competição com nove golos, e recebeu também a Bola de Bronze. Prémios, aliás, não lhe faltam: são quase 30 entre distinções individuais e de equipa, nacionais e europeias.

Infelizmente, após breves atuações em clubes portugueses mais pequenos e equipas dos Estados Unidos e México, foram os joelhos que lhe tiraram a capacidade de continuar a marcar golos. Ainda assim, depois de se reformar em 1979, Eusébio fez parte da comissão técnica da Seleção Nacional até ao seu falecimento – no início de 2014, devido a uma insuficiência cardíaca, aos 71 anos de idade. Muitas foram as homenagens feitas ao jogador, tendo o Benfica decretado um ano de luto. Lendas destas dificilmente se esquecem, mas podemos recordar Eusébio quando passamos em frente ao Estádio da Luz, na Avenida Eusébio da Silva Ferreira.

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