Saúde

Gota: Como a acumulação do ácido úrico pode ser muito dolorosa

8 Agosto, 2018

Estima-se que em Portugal 1,6% da população sofra de gota. Que doença é esta cujos primeiros sintomas aparecem entre os 40 e os 60 anos, sobretudo entre os homens? Quais as suas causas? Qual o tratamento? É possível prevenir o aparecimento da gota úrica?


O que é a gota?

A gota úrica, mais conhecida apenas por gota, é uma doença reumática inflamatória que surge como resposta à concentração de elevados níveis de ácido úrico no sangue. Numa situação normal, o ácido úrico é eliminado do organismo através da urina, nunca devendo superar os 6.8mg/dl. Quando a sua concentração é muito elevada, cristais de monourato de sódio depositam-se nas articulações, tendões e rins, podendo causar inflamações graves e dolorosas.

Quais os sintomas da gota?

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A gota é uma doença de duas fases: a aguda (intermitente) e a crónica. Na fase aguda surgem os primeiros sintomas sob a forma de crises súbitas de artrite gotosa: a articulação fica ruborizada e tumefacta provocando dor e uma sensação de calor na zona afetada. É frequente começar por se manifestar nas articulações dos membros inferiores, com especial incidência no primeiro dedo do pé. No entanto, outras áreas podem ser afetadas, nomeadamente tornozelos, joelhos, punhos, dedos e cotovelos. Normalmente estas crises passam espontaneamente ao fim de uma a duas semanas.

Com o fim da primeira crise, o doente entra na fase assintomática, ou seja, um período de tempo em que não existem sintomas visíveis. Porém, a doença continua lá e sem os cuidados e medicação adequados, mais tarde ou mais cedo um novo episódio de artrite gotosa aguda ocorre. A gota pode ainda dar origem a outro tipo de manifestações como os cálculos renais, a insuficiência renal, a hipertensão arterial e os triglicéridos elevados que contribuem para o aumento do colesterol. É, por isso, fundamental ir ao médico para que faça o seu correto diagnóstico.

A fase crónica, gota tofácea crónica, surge nos pacientes com níveis elevados de ácido úrico não tratado durante anos. A acumulação prolongada dos cristais de monourato de sódio em torno e no interior das articulações leva ao aparecimento de tofos gotosos, que a longo prazo contribuem para a progressiva destruição articular. É comum estes tofos surgirem nos pavilhões auriculares, nas bolsas serosas, nos antebraços, no tendão de Aquiles e nos dedos das mãos ou dos pés, podendo ocorrer a sua ulceração com a saída dos cristais sob a forma de um líquido leitoso.

Causas e fatores de risco

Existe uma certa propensão genética para a gota, por isso, pessoas que tenham historial da doença na família devem estar especialmente atentas e, sobretudo, terem cuidado com a alimentação. Não é por acaso que a gota ficou na história como a “doença dos reis”. O seu aparecimento está desde sempre ligado a uma alimentação rica em purina: marisco, carnes vermelhas, vísceras, enchidos, peixes gordos e ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas, com especial destaque para a cerveja por causa das leveduras, e de bebidas açucaradas. Ou seja, uma alimentação farta que nos tempos antigos apenas estava acessível às camadas mais ricas da sociedade.

Uma dieta rica em purina contribui para um excesso de produção de ácido úrico e os rins podem revelar-se incapazes de tratar da sua completa remoção do organismo. Alguns medicamentos também contribuem para o aumento do ácido úrico no sangue: é o caso da aspirina, de alguns diuréticos e imunossupressores. A obesidade, a síndrome metabólica e doenças como a hipertensão, a diabetes e psoríase são outros dos fatores de risco.

Diagnóstico: não é só o ácido úrico que conta

Elevados níveis de ácido úrico no sangue não determinam obrigatoriamente o diagnóstico de gota: há pessoas com hiperuricemia que nunca têm a doença. No entanto, o diagnóstico presuntivo é possível através de análises clínicas que detetem os níveis elevados de ácido úrico aliado à presença de sintomas: artrite e tofos, bem como uma resposta favorável aos fármacos receitados. Durante os episódios de gota, os níveis de ácido úrico podem estar normais, pelo que um diagnóstico definitivo será necessário. Nesta situação, o diagnóstico é feito pela identificação a nível laboratorial dos cristais de monourato de sódio no líquido sinovial ou no líquido extraído dos tofos gotosos.

Como se trata a gota?

Quando existem ataques agudos é importante ingerir dois a quatro litros de fluídos diários (dos quais pelo menos metade devem ser água) fazer uma alimentação regulada e colocar gelo sobre a área inflamada como método natural para atenuar as dores. Ao nível da medicação, nestes períodos, é comum receitar-se a colchicina/colquicina e anti-inflamatórios que diminuem a inflamação e aliviam a dor.

Já o alopourinol é o medicamento indicado para os períodos assintomáticos, uma vez que este medicamento não alivia os ataques agudos, mas é importante para bloquear a formação de ácido úrico. A sua toma só deve ser iniciada após o total desaparecimento de uma crise aguda. Se o problema não for de excesso de produção, mas sim de dificuldade de excreção renal, o probenecid é um medicamento que ajuda no processo de eliminação do ácido.

Prevenir crises de gota: cuide da alimentação

A prevalência de casos de gota tem vindo a aumentar, sobretudo entre a população ocidental, devido às mudanças na alimentação e a um estilo de vida geralmente menos saudável. Por isso, o primeiro passo para prevenir o seu aparecimento passa por fazer uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, frutas e cereais, diminuindo as quantidades de peixe, carnes e marisco ingeridos. O consumo de bebidas alcoólicas e açucaradas deve ser restringido. Alguns estudos recomendam o consumo de produtos lácteos sem gordura, já que o leite e os iogurtes magros parecem ter um efeito protetor em relação à gota.

Ter uma alimentação regrada, praticar exercício físico e tomar corretamente os medicamentos para a gota, vai evitar algumas das piores consequências desta doença:

  • Crises agudas cada vez mais frequentes, podendo mesmo estabelecer-se uma inflamação das articulações, dor e incapacidade permanentes;
  • Os tofos gotosos podem atingir grandes dimensões, podendo infetar e comprimir nervos ou vasos;
  • A acumulação do ácido úrico pode originar insuficiência renal e cálculos renais que aumentam o risco de morte
  • Pessoas com gota tendem a ter mais doenças coronárias e morrem mais de enfartes do miocárdio do que pessoas que não têm a doença.

Não desvalorize a gota, já que o não tratamento diminui a qualidade de vida e pode contribuir para uma mortalidade precoce. Na presença de alguns sintomas relacionados com a gota, fale com o seu médico e não se esqueça de fazer um check-up médico.

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