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Consegue imaginar voltar a viver sem a Netflix?

30 Julho, 2018

Nem toda a gente sabe, mas o serviço de streaming mais usado do mundo percorreu um longo caminho de transformações até chegar onde está. Sabia que a Netflix já conta com mais de 20 anos de história?


A lenda da Netflix

Em maio deste ano, a Netflix tornou-se a empresa de entretenimento mais valiosa do mundo, quando ultrapassou a gigante Disney. E a lenda por detrás da criação da atual produtora e distribuidora de conteúdos em streaming dava o início de um guião de fazer inveja à sua concorrente.

Reed Hastings, CEO da Netflix, gosta muito de dizer que a ideia do serviço surgiu após ficar inconformado por ter de pagar uma multa de 40 dólares pela perda de um VHS do filme Apollo 13 que tinha alugado à Blockbuster. É uma bela narrativa, mas já se sabe que não foi bem assim que a coisa aconteceu. De acordo com Marc Randolph, co-fundador da empresa, foi mesmo tudo resultado de longas horas a planear uma nova oportunidade de negócio.

O que realmente aconteceu?

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Hastings e Randolph trabalharam juntos nos anos 90 e desde cedo se aperceberam de que tinham algo em comum: partilhavam a mesma admiração pelo modelo de negócios online que a Amazon tinha implementado na época. A dupla também queria vender pela internet: mas o quê? Acabaram por escolher o mercado de aluguer de filmes, que movimentava muitos milhões de dólares por ano nos Estados Unidos.

O ano era 1997 e os VHS dominavam o mercado – algo que não era exatamente o ideal para o que pretendiam. Entretanto, o formato DVD tinha sido lançado há pouco mais de um ano e, mesmo longe de ser popular, era perfeito para o envio por correio: eram leves, resistentes e cabiam num envelope. Foi assim que nasceu a ideia por detrás da Kibble – que viria a chamar-se NetFlix.com e mais tarde, apenas Netflix. A lógica do negócio era muito simples: o utilizador acedia ao site, selecionava o título desejado, recebia o DVD por correio, ficava com o filme durante o tempo que quisesse, e depois devolvia-o gratuitamente – também por correio e utilizando a mesma embalagem.

Os dois empreendedores puseram a mão na massa, compraram os 925 títulos que seriam disponibilizados (quase todos os filmes produzidos em DVD na altura) e, em 1998, a plataforma começou a funcionar. Hoje em dia o processo pode parecer um pouco trabalhoso, mas para quem tinha de ir ao clube de vídeo ou ao cinema para ver um filme, poder fazê-lo sem sair do conforto da sua casa era simplesmente revolucionário. De início, o aluguer dos discos era cobrado em separado, mas não demorou muito para surgir o formato de assinatura mensal utilizado até hoje.

Naquele mesmo ano, Jeff Bezos, CEO da Amazon, ofereceu aos sócios 12 milhões de dólares pela Netflix, mas voltou a casa com um “não” na bagagem. Dois anos mais tarde, com um modelo de negócios bem estabelecido, foram os criadores que ponderaram vender a empresa. Hastings ofereceu a sua criação à Blockbuster por uma pechincha de 50 milhões de dólares, mas a rede negou a proposta por considerar o mercado online um nicho muito limitado e não ver futuro naquilo. Passados dez anos, a Blockbuster viria a declarar falência pública. E a Netflix? Bom, esta você já sabe.

Nem tudo o que reluz é ouro

Apesar do sucesso do serviço e da avaliação milionária no mercado, ao final do mês as contas nunca estavam equilibradas. A solução encontrada foi abrir o capital da empresa aos acionistas, o que aconteceu em 2001. Neste mesmo ano, o devastador ataque terrorista de 11 de setembro acabaria por impulsionar a Netflix, que viu o seu número de assinantes dobrar, uma vez que os americanos tinham medo de sair de casa. Mesmo assim, foi só em 2003 que, pela primeira vez, lucrou mais do que perdeu – facto que nem foi comemorado por Randolph, que já tinha deixado a empresa – sem grandes esclarecimentos – no ano anterior.

Em 2005, mais de 1 milhão de envelopes eram enviados por dia. Um número já surpreendente, não fosse a marca dos mil milhões que alcançaria em 2007 – altura em que o jogo realmente começaria a mudar: a Amazon já tinha percebido que o novo modelo de negócios estava a movimentar muito dinheiro e resolveu entrar também. Foi o melhor presente que Jeff Bezos, o rei do comércio online, poderia ter dado à Netflix. A concorrente acabou por “inventar” o streaming e 4 meses depois, em janeiro daquele ano, a Netflix anunciou que começaria a usar o mesmo tipo de transmissão. Note que foram precisos 10 anos para que isto acontecesse. Como dissémos, o caminho foi longo.

De início, os planos de assinatura do serviço de streaming funcionavam em conjunto com o aluguer de DVDs e havia limitação para a quantidade de vídeo a que o utilizador podia assistir – cerca de 17 horas por mês nos melhores planos e a pequena quantia de 2 horas de streaming a cada 30 dias para os planos mais básicos. Consegue imaginar não ser capaz de fazer uma maratona de filmes e séries? Entretanto, conforme as pessoas aderiam ao novo formato, a empresa fazia novos testes até chegar ao modelo ilimitado de que tanto gostamos.

A Netflix chega a Hollywood

A Netflix passou a fazer várias parcerias milionárias para poder ter o catálogo de que dispõe hoje, mas, como não é de admirar, não era o suficiente. Em 2011, deu o primeiro passo rumo à produção de conteúdo – e já o fez de forma ousada: comprou e produziu a aclamada série House of Cards por 100 milhões de dólares. Na época foi ridicularizada por estúdios que consideravam que o grande trunfo da Netflix era apenas ter muito dinheiro, mas que estava longe de representar uma verdadeira concorrência – ora, estamos a falar de uma empresa que até há bem pouco tempo alugava DVDs por correio!

A produção viria a estrear em 2013 com outro pormenor interessante: sem um piloto. A empresa deixou que os seus assinantes decidissem se a série vingaria ou não, poupou milhões de dólares com isto e ainda lançou mais uma fórmula de sucesso. Foi só o pontapé de saída para o que viria a seguir – as produções originais Netflix estão hoje no centro da estratégia da empresa e chamam cada vez mais a atenção do público.

Até o final de 2018, a Netflix deverá investir cerca de 12 mil milhões de dólares em conteúdo original – mais do que qualquer estúdio ou canal de televisão gastará nas suas produções neste período. Os assinantes do serviço de streaming terão acesso a 82 filmes num ano em que a Warner Brothers vai estrear 23 – a Disney, a sua princial concorrente de mercado (lembra-se?), vai lançar 10. Programas televisivos? Está a produzir ou negociar licenças exclusivas de cerca de 700 novas produções – entre séries, documentários, programas infantis, reality shows e talk shows – em 21 países.

E este fenómeno não está só relacionado com quantidade – a Netflix não deixa a qualidade passar ao lado: já trabalhou com realizadores de cinema de renome, como Spike Lee e os Irmãos Coen, e criadores de hits da televisão, como Ryan Murphy (Glee e American Horror Story) e Shonda Rhimes (Grey’s Anatomy e How to Get Away With Murder). David Letterman, Barack e Michelle Obama, Jerry Seinfeld e Chris Rock são apenas mais alguns nomes que se estão a juntar à equipa Netflix. Nada mal, certo?

Ao estudar as preferências dos seus espetadores, a empresa tem informações valiosas sobre o mercado e pode dar-se ao luxo de investimentos como estes, já que as probabilidades de acertar naquilo que vai funcionar ou não são mesmo muito boas. Assim, é capaz de produzir conteúdos de qualidade para nichos muito específicos e ainda os oferece on demand e sem publicidade – algo que Hastings promete continuar a fazer. Nesta altura, já ficou claro para a concorrência que a Netflix não está para brincadeiras. E quem pode dizer o contrário quando os americanos estão a consumir apenas metade do conteúdo televisivo que viam em 2010 e as vendas de bilhetes de cinema diminuíram em 20%?

Há pouco tempo, a empresa firmou um acordo com alguns cinemas de Los Angeles para que exibam algumas das suas produções. Estranho? Mas tudo tem uma razão: apesar da resistência da Academia, a Netflix quer participar nos prémios Oscar.

A Netflix em 2018

Sabia que o serviço de envio de DVDs da Netflix funciona até hoje nos Estados Unidos e conta com mais de 3 milhões de assinantes mensais? Só no primeiro semestre de 2017 este ramo do negócio gerou mais de 100 milhões de dólares de lucro para a empresa. E, com base nas informações sobre a perda de assinantes, calcula-se que o serviço ainda possa durar por mais 4 ou 5 anos, se a empresa quiser.

Já o streaming conquistou o mundo: o primeiro país – para além dos EUA – a assistir a uma transmissão foi o Canadá, em 2010. Logo em seguida viriam 43 países da América Latina e, em 2012, a Europa. A vez da Oceania chegaria em 2015. Hoje a Netflix está presente na vida de mais de 300 milhões de pessoas, espalhadas por 190 países em todo o mundo. Aproximadamente 140 milhões de horas de vídeo são vistas pelos assinantes num único dia – algo possível devido à sua modesta quantia de mais de 3.5 petabytes de dados (1 petabyte corresponde a 1.024 terabytes, ou seja, 1 milhão 48 mil e 576 gigabytes).

A Netflix na vida dos portugueses

Em Portugal, desde 2015 o catálogo de filmes e séries disponibilizado pela Netflix já quintuplicou. E a empresa está a conhecer cada vez melhor os hábitos dos portugueses, que preferem uma boa comédia ou romance a um filme de ação – a contrariar aquilo que imaginavam – e também são dos que mais vêem cinema e televisão em público – no café, no restaurante ou no comboio. Outro facto curioso é que, talvez por isto, somos dos países em que mais se espreita o ecrã do vizinho. Não há como negar, é mesmo difícil resistir à Netflix.

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