pessoas e histórias

Anthony Bourdain: o bon vivant que morreu como viveu

24 Julho, 2018

Passava 240 dias por ano a comer e a viajar, dizia sempre o que pensava e contrabalançava uma atitude irreverente com uma postura descontraída. Estamos a falar de Anthony Bourdain, o chef que morreu como viveu: de acordo com as suas próprias regras.


Portugal: três vezes com Anthony Bourdain à mesa

Antes de dizer adeus aos 61 anos de idade e em circunstâncias que deixaram o mundo gastronómico em choque, Anthony Bourdain ainda teve tempo de visitar Portugal. Não foram uma, nem duas, mas três as vezes que o crítico gastronómico Anthony Bourdain pisou terras portuguesas, à boleia dos seus dois programas de televisão, “No Reservations” e “Parts Unknown”. Na sua passagem marcante pelos Açores, em 2009, aproveitou para assistir à ordenha de cabras, provar o chá Gorreana e foi convicto e naturalmente franco quando disse que o cozido das furnas era “fantástico”.

Dois anos depois, numa passagem mais urbana pela capital adorou provar as “mágicas” bifanas, a famosa ginjinha, ouvir Dead Combo e não resistiu em ir a uma casa de fados na companhia de António Lobo Antunes e provar as iguarias dos novos chefs portugueses como Henrique Sá Pessoa e José Avillez. No Porto, em 2017, esteve à conversa com as peixeiras do Mercado do Bolhão e ainda foi a tempo de provar as tradicionais francesinhas num restaurante bem típico da cidade.

Por onde quer que passasse, eram muitos os admiradores de Anthony Bourdain, muito graças à sua abordagem irreverente e descontraída: “Não estamos interessados nos melhores restaurantes da cidade. Estamos muito mais interessados no tipo de lugar onde um local goste de ir, onde um chef goste de ir quando está bêbado às duas da manhã”, disse ao jornal Expresso. As tatuagens, o cabelo grisalho e a pele grisalha combinavam bem com o estilo mordaz e sarcástico tão característico do chef e crítico gastronómico.

O que Anthony Bourdain mais gostava de comer em Portugal?

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Marisco, morcela, queijo, vinho do porto e moscatel eram os produtos portugueses que faziam bater mais forte o coração deste homem nascido em Nova Iorque e criado em New Jersey. Mas não foi em Portugal, ao contrário do que possa pensar, que sentiu pela primeira vez os nossos sabores a fervilhar na boca. É que embora tenham sido os açorianos a apresentar a autêntica comida portuguesa a Anthony Bourdain, foi em Massachusetts, nos Estados Unidos, que o chef se interessou pela primeira vez pela nossa gastronomia, quando provou a deliciosa comida de pescadores portugueses que era servida nos bares e restaurantes da zona.

“Não era lá grande cozinheiro”: dos pratos às câmaras

O gosto que Bourdain tinha pela cozinha começou cedo. Logo aos nove anos de idade, quando estava num cruzeiro por França com os seus pais, pediu para comer ostras e outros pratos não tão comuns na altura, demonstrando já aí gostos mais aventureiros no que toca à comida! A partir daqui nunca mais se desligou do mundo gastronómico: começou a lavar pratos, passou de cozinheiro a chef e tornou-se crítico gastronómico.

Muito embora se tenha formado no Culinary Institute of America e se tenha tornado num conceituado chef no Les Halles, Anthony Bourdain largou a cozinha para viver de um emprego que muitos sonhavam ter: passar 240 dias a viajar pelo mundo e a comer iguarias. Talvez porque, como admitiu um dia em entrevista, “não era lá grande cozinheiro”! E foi no meio televisivo que acabou por se tornar numa verdadeira referência no mundo gastronómico e atingir o estrelato. Foi galardoado com o prémio Critics’ Choice na categoria de melhor programa de não-ficção, em 2012, venceu um Emmy para série de informação e em 2014 arrecadou o prémio Peabody pelo seu programa “Parts Unknown”, que estava a gravar antes de morrer.

Ao trabalho na cozinha e na televisão, Anthony Bourdain juntou também a escrita. Foi, aliás, na revista New Yorker que começou a dar os primeiros passos: o artigo Don’t Eat Before Reading This serviu de antecâmara àquele que foi o seu primeiro grande sucesso editorial, “Cozinha Confidencial”, e cuja versão original em inglês chegou a público em 2000. O livro deu bastante que falar: entre páginas e páginas, conta histórias de décadas a trabalhar na restauração em Nova Iorque, onde os seus ingredientes mais comuns eram mesmo sexo, drogas e, claro, rock´n roll.

Um legado muito para lá de gastronómico

Anthony Bourdain aproveitou a fama para dar nome a causas em que acreditava e que nem sempre estavam relacionadas com gastronomia. Foi, por exemplo, um claro ativista pelo movimento #MeToo – apoio às vítimas que sofreram agressões sexuais -, e um defensor de melhores condições de trabalho. A nível político, apelou à humanidade na questão de Gaza e do Irão, expressou a sua solidariedade pelos trabalhadores indocumentados e na televisão esforçou-se por demonstrar como as pessoas viviam, o seu contexto, acabando por chamar a atenção para questões que iam muito além da comida.

Além disso, através do seu percurso profissional, o chef conseguiu levar às pessoas ingredientes que não são tão conhecidos ou muito utilizados, como as entranhas do porco, os pés de porco ou até mesmo as patas de galinha. E mais. Levou cozinhas menos conhecidas para o mundo, procurando estender a cultura culinária e potenciar o melhor da street food, mesmo que por vezes tenha sofrido uma intoxicação ou outra! A morte, essa, apanhou-o em Estrasburgo, em França, sem que saibamos se chegou a comer sushi, o que idealizava como uma boa última refeição, mas com a certeza de que até ao fim Anthony Bourdain morreu como viveu, de acordo com as suas próprias regras.

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