Saúde

A carne vermelha provoca mesmo cancro?

3 Julho, 2018

Faz mais de cinco refeições por semana que incluem carne de vaca ou porco? Bom, então talvez seja boa ideia moderar: o consumo de carne vermelha em excesso está relacionado com o aparecimento de cancro, alerta a Organização Mundial de Saúde. E nós vamos explicar-lhe porquê!


A culpa é do gene CMAH

Há mais de 550 milhões de anos, um antepassado de todos os deuterostómios – um grande grupo de animais que incluía os seres humanos – foi dotado de um gene, o CMAH. E que de inofensivo não tinha nada: este gene é responsável por codificar uma proteína que estimula a conversão do açúcar Neu5Ac em Neu5Gc, um açúcar tóxico. A boa notícia é que, graças à evolução, algumas espécies – entre as quais os seres humanos – viram-se livres deste gene.

Ou quase! Sim, a verdade é que o gene CMAH arranjou uma forma alternativa de chegar até nós. Como? Através do consumo de carne vermelha de vacas, porcos, borregos ou cabras. E isto coloca a nossa saúde em risco: a combinação entre seres humanos, o gene CMAH e o seu açúcar em excesso – pode resultar em cancro, diz um grupo de cientistas da Universidade do Nevada, nos Estados Unidos.

Mas qual a ligação com o cancro?

Ler Mais

Já em 2015 a Organização Mundial de Saúde (OMS) revelava que o consumo em excesso de carne vermelha – sobretudo se for processada – está relacionado com o risco de sofrer de cancro colo-retal. Para o explicar, os cientistas e autores da investigação publicada na revista Genome Biology and Evolution relacionam o desaparecimento do gene CMAH nos seres humanos com o facto do Neu5Gc se ter tornado num antigénio estranho.

Isto é, os investigadores acreditam que quando comemos carne vermelha o que acontece é que, embora sejamos capazes de sintetizar o açúcar tóxico, o nosso corpo reconhece-o como um corpo estranho e desencadeia uma reação imunitária. Consequência? Pode originar inflamação crónica, artrite reumatóide e cancro. A reforçar esta hipótese está o facto do Neu5Gc se encontrar muitas vezes concentrado em tumores humanos e locais de inflamação.

Por seu lado, a Agência Internacional de Investigação do Cancro da OMS avança com alguns números. Refere que por cada 100 gramas de carne vermelha ingerida diariamente, o risco de cancro aumenta 17%. Já por cada 50 gramas de carne processada ingerida diariamente, o risco de cancro colo-retal aumenta 18%. Apesar de tudo, a OMS ressalva a importância alimentar da carne, uma vez que esta contém proteínas e micronutrientes muito importantes como o ferro.

Está provado: as carnes brancas são melhores para a saúde

Saber que animais possuem ou não o gene CMAH permitiu à equipa coordenada pelo investigador David Alvarez Ponce perceber que carnes são melhores para o consumo dos seres humanos. Para tal analisaram o genoma de 322 espécies, socorreram-se da bioinformática e concluíram: todas as aves – bem como alguns tipos de peixes – perderam este gene, razão pela qual é melhor para a saúde comer carne de frango ou peru!

Isto aconteceu graças à evolução das espécies. Mas nem todas tiveram o mesmo destino, isto é, algumas mantiveram o gene CMAH. Sim, deve pensar duas vezes antes de exagerar no consumo de carne de bovino ou até mesmo de salmão – um peixe muito procurado por ser rico em Omega3 e ter benefícios na saúde! E não ficamos por aqui. O mesmo se aplica a carnes muito presentes na dieta dos portugueses, como é o caso da carne de porco, coelho e vaca, onde o CMAH está presente.

Mas há algum tipo de carne vermelha mais perigosa do que outra? O responsável pela investigação, David Alvarez Ponce, dá a resposta, alertando que a carne de vaca é mais perigosa que a de porco porque parece conter mais Neu5Gc. Mas devemos deixar de comer carne vermelha ou não? Não! O importante em termos de saúde é moderar o consumo de carne vermelha – processada e não processada – evitando ultrapassar os 500 gramas ou as cinco refeições por semana.

Ler Menos