pessoas e histórias

Qual é a pressa de chegar até Marte?

26 Junho, 2018

A conquista do espaço pelo homem começou pela Lua. Hoje aspira-se chegar a outra paragem: Marte. Mas quem é que está por detrás desta nova corrida espacial? E em que ponto estamos?


Quem nos levará até Marte?

Um dos planos de vida de Elon Musk não é mesmo deste planeta: estamos a falar de colonizar Marte até 2022. E já esteve mais longe da realidade. O dia 6 de fevereiro de 2018 vai ficar para sempre na história porque o foguetão reutilizável Falcon Heavy produzido pela SpaceX descolou e aterrou na plataforma de Cabo Canaveral, na Flórida, sem problemas. O mesmo lugar de onde partiram, entre 1961 e 1972, os foguetões das missões Apollo com destino à Lua.

A viagem de teste deste foguetão gigante com 70 metros de altura e capacidade para transportar até ao espaço 66 toneladas levava para já um Tesla Roadster vermelho a bordo. A próxima etapa? Fala-se num foguetão BFR com poder suficiente para levar pessoas!

Ao empreendedor Elon Musk junta-se o CEO da Amazon, Jeff Bezos que também está inscrito na corrida ao espaço com a sua empresa aerospacial, a Blue Origin, e o seu foguetão reutilizável. Mas não só. Ir até Marte também é um objetivo de agências espaciais públicas como a NASA ou a ESA. Ou seja, que vamos é certo. Não sabemos ainda é quem nos levará até lá pela primeira vez…

Mas porquê Marte?

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Sim, mas porque é que entrepreneurs e agências espaciais estão tão apostados em conquistar Marte? A ambição de chegar em primeiro lugar a um novo planeta e a curiosidade natural do ser humano sobre o espaço são motivos claros. E depois temos a questão da sobrevivência. Sim, Emmet Fletcher, porta-voz da Agência Espacial Europeia (ESA), refere em entrevista ao Observador que “um dia, talvez não consigamos escapar ao sufoco provocado pela nossa exploração exagerada dos recursos terrestres”.

Sem esquecer que um dia podemos ser nós a não conseguir sobreviver a “um meteorito tão implacável como o que extinguiu os dinossauros”, acrescenta. E a verdade é que de milhões de anos em milhões de anos, a Terra fica exposta a eventos potencialmente catastróficos como meteoritos, sismos, erupções vulcânicas e que embora já existam mecanismos para prever estes eventos há ainda muita coisa que nos escapa. E o perigo está precisamente no que escapa – por isso não calha mal ter um plano B à mão!

Além disso, a ideia de vida em Marte torna-se ainda mais plausível se pensarmos que se trata de um planeta parecido à Terra: a sua história começa há 4 mil milhões de anos quando ambos tinham rios, lagos, crateras e vulcões. Na Terra, a água morna e a química combinaram aminoácidos em moléculas complexas que por sua vez deram origem a células únicas que conseguiram multiplicar-se e dar origem a organismos que exalam oxigénio, as algas. Já Marte não teve a mesma sorte: secou.

Mas se estes dois planetas têm em comum evoluções tão semelhantes no início da formação dos planetas, será que existiu vida em Marte em alguma altura? É a peça do puzzle que falta à comunidade científica para descobrir se a existência de vida é um fenómeno exclusivo do planeta Terra ou não!

Marte está a 3 passos – gigantescos! – de distância

Hoje estamos mais tecnologicamente preparados para chegar em alguns anos a Marte do que estávamos em 1969 quando pisámos a Lua. No entanto, para concretizar este salto gigantesco para a humanidade há que dar resposta a três passos: reutilização plena dos foguetes, reabastecimento das naves em órbita e produção de combustível em Marte – ponto-chave para baixar os custos das viagens. É o que diz Elon Musk.

E a verdade é que o Falcon Heavy do empreendedor do espaço resolve em parte a questão financeira: este foguetão só precisa de 90 milhões de dólares para descolar e regressar enquanto que o seu concorrente direito, o Delta IV Heavy da United Launch Alliance, precisa de mais… 300 milhões! Ou seja, na corrida ao espaço Musk vai na frente porque o seu foguetão é o mais económico e eficiente!

Sobreviver à viagem até lá não é tarefa fácil!

São 60 milhões de quilómetros que nos separam de Marte. E a viagem até lá não é nada fácil, para não dizer mesmo potencialmente fatal. Por exemplo, uma viagem até Marte faria com que os músculos que suportam os joelhos e o fémur mingassem devido à ausência da força gravítica. E mais: esse facto também impossibilitaria que os líquidos do corpo fossem drenados.

Mas os efeitos da falta de gravidade não ficam por aqui. Por cada mês passado na viagem até Marte é retirado aos ossos 1% de densidade devido à perda de minerais, o que pode levar a fraturas ou osteoporose. E mesmo que se regresse ao planeta Terra, essa densidade óssea perdida nunca mais é recuperada.

Também a estadia prolongada acarreta riscos para a saúde. Sim, uma vez em Marte, o ser humano fica exposto a uma dose de radiação 200 vezes superior à que está exposto no planeta Terra ao longo de um ano. Consequência? Ora, isso é o que basta para alterar a cadeia de ADN e as células cerebrais.

E sabia que em Marte um dia dura mais 38 minutos do que na Terra? Como tal pode sofrer do efeito jet lag e perder qualidade do seu sono, um fator essencial para manter regulado o nosso relógio biológico.

Aprender a viver em Marte: a missão de um astronauta português

Como já vimos, Marte não é propriamente “human friendly”. Assim, como se pode preparar o ser humano para fazer desta a sua futura morada? Bom, é aqui que entra o astronauta João Lousada. O português licenciado em Engenharia Aeroespacial é engenheiro de operações de Voo na GMV, na Alemanha, e esteve no passado mês de fevereiro a aprender a viver em Marte com um grupo de astronautas.

A ideia da missão da AMADEE-18 passou por simular as condições vividas no Planeta Vermelho. Para tal, os investigadores do Fórum Espacial Austríaco criaram ao lado do Comité de Direção de Omã condições no deserto que fossem semelhantes a Marte. E porquê no deserto de Omã? O presidente do Fórum Espacial Austríaco, Alexander Soucek, referiu num vídeo publicado pela BBC que era o sítio mais parecido com Marte.

Os voluntários tiveram de usar fatos que pesavam aproximadamente 50 Kg e simular a pressão sentida no planeta vermelho para que experiência – que teve tanto de complexa como de emocionante, nas palavras do astronauta nacional – fosse o mais real possível. Mas não só. Tiveram entre mãos o desafio de conseguir fazer crescer vegetais onde parecia ser impossível fazê-lo e suportar temperaturas extremas. Para ficar a par dos resultados desta missão pode espreitar o site do Fórum Espacial Austríaco.

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