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Stephen Hawking: a história de um corpo preso a uma inteligência sem limites

20 Junho, 2018

Aos 21 anos Stephen Hawking recebeu uma sentença de morte: sofria de ELA. Não morreria em 2 anos como previsto, mas passados 55 anos… E embora preso a um corpo imóvel, a sua mente não parou de trabalhar até ao último minuto! Esta é a sua história.


2018: O ano sem Stephen Hawking.

Todos se lembram quando Stephen Hawking surpreendeu tudo e todos na Web Summit 2017 com uma aula sobre a Inteligência Artificial. Poucos meses depois, em março de 2018, chegava a hora de dizer adeus: aos 76 anos, o coração do cientista acabou por ceder e o mundo viu-se obrigado a despedir-se de um dos maiores físicos da história.

O seu maior feito? Muitos dizem que o seu “trabalho e legado viverão por muitos anos” – pegando nas palavras dos seus três filhos Lucy, Robert e Tim – porque pôs a humanidade a pensar sobre as coisas à sua volta. Outros falam da forma ousada como viveu a vida: embora a Esclerose Lateral Amiotrófica o mantivesse preso durante décadas a fio a uma cadeira de rodas – à qual sempre resistiu e que conduzia sem grande precaução – isso nunca o impediu de saber mais e mais sobre o Universo…

Uma carreira que orbitou em volta dos buracos negros

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A vida de Stephen Hawking dava um filme. E a verdade é que deu mesmo: A Teoria de Tudo estreou em 2014 nas salas de cinema e valeu um Óscar a Eddie Redmayne pela sua brilhante interpretação. Mas voltemos ao papel que Hawking teve no mundo da Física: sabe-se que depois de ter contribuído para a solidez da Teoria do Big Bang nunca mais se desviou dos Buracos Negros. Mas o que dizia de tão inovador? Ora, que os buracos negros são um dos tipos de singularidades de que falava o físico matemático Roger Penrose na sua palestra em Cambridge aos quais as leis da Teoria da Relatividade Geral não se aplicam.

Mais importante ainda: que uma dessas singularidades é, na verdade, o berço do universo. E numa altura em que ainda pouco ou nada se sabia sobre buracos negros, isto foi simplesmente revolucionário. Mas não ficou por aqui. Mais tarde, Hawking provaria que os buracos negros afinal não são assim tão negros e que não é verdade que engulam tudo à sua passagem: a radiação, por exemplo, consegue fugir àquele imenso campo gravítico.

Ao questionar Einstein e a sua Teoria da Relatividade Geral, Stephen Hawking chegou à conclusão que os buracos negros têm uma superfície que limita a parte de dentro e a parte de fora e que nessa superfície há partes de partículas que se formam na vizinhança e que enquanto uma parte é engolida, a outra consegue escapar e ser emitida, explica ao Observador José Mimoso, professor de Cosmologia e Astrofísica Relativista. A “Radiação Hawking” que escapa permitiu saber que os buracos negros são um sistema termodinâmico – porque têm características térmicas – e que essa é a razão pela qual vão perdendo massa, encolhem e evaporam.

Stephen Hawking e Einstein: o que têm em comum?

Curiosamente, Stephen Hawking morreu no mesmo dia em que se celebra o nascimento de outro génio da física, Einstein. E não, não é só isto que têm em comum. Antes do seu livro “Uma Breve História do Tempo” o ter lançado para as luzes da ribalta e ter ganho importância junto da comunidade científica à conta dos teoremas da singularidade que explicam a origem do universo, Hawking dedicou-se ao estudo das ondas gravitacionais. Tal como Einstein.

Stephen Hawking dizia que as ondas gravitacionais eram deformações no tecido espaço-tempo que podiam ser explicadas pela colisão de dois corpos altamente densos, como os buracos negros. O que se veio a confirmar na mesma altura em que a Teoria da Relatividade Geral de Einstein foi comprovada: um grupo de astrónomos conseguiu ouvir e gravar a colisão de dois buracos negros a mil milhões de anos-luz de distância, gerando assim ondas gravitacionais.

Ao contrário de Einstein, que ganhou um Prémio Nobel da Física, Stephen Hawking nunca conseguiu pôr em prática as suas teorias e é por isso que não foi distinguido com um dos prémios de maior prestígio do mundo da Ciência, esclarece o astrofísico Paulo Crawford.

Mas quem sabe se não acontece o mesmo que se passou com Einstein e após 100 anos se chega à conclusão que as suas teorias estavam de facto certas… Enquanto isso não acontece, continuará sempre a ser uma inspiração aos olhos de todos nós e uma referência no mundo da Física.

Poderíamos nunca ter ouvido falar de Stephen Hawking? 

Stephen Hawking nasceu a 8 de janeiro de 1942, em Oxford, e era o mais velho de quatro irmãos, filhos de Isobel e do investigador Frank Hawking. E foi exatamente na Universidade de Oxford que o seu brilhantismo começou a dar os primeiros sinais, num reconhecido empenho a meio gás: sabe-se que Stephen Hawking aprendia a matéria rapidamente, que raramente tirava apontamentos e que só estudava cerca de 1 hora por dia. Mas foi quando estava a fazer uma pós-graduação em Cambridge que a sua vida mudou para sempre.

Foi diagnosticado com ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica. Quanto tempo tinha de vida? Dois anos, no máximo. Stephen Hawking entrou em depressão e chegou mesmo a tentar pôr fim à vida, mas sem sucesso. E com a ajuda da mulher, com quem casou aos 23 anos, Jane Wilde, a dor parecia apaziguar-se. Conheceram-se numa festa de Ano Novo em 1963 e diz-se que o sentido de humor que caracterizava Stephen Hawking foi determinante para apaixonar a então estudante de linguística.

Apesar de muito jovem, Jane conseguiu lidar com a doença degenerativa do marido e ajudá-lo a alcançar todo o seu potencial científico. E assim foi até 1990, quando por fim se separaram. A ELA, a ciência e a fama acabou por fragilizar muito a relação e o divórcio oficializou-se cinco anos depois.

E se a sua vida pessoal não corria de feição, a sua saúde também não ia melhor: Stephen Hawking esteve entre a vida e a morte em 1989 devido a uma pneumonia e se já mal conseguia falar, depois da traqueotomia perdeu completamente a voz. E quando parecia que tudo estava perdido, chega um computador vindo dos EUA que mudaria tudo com um comando e um ecrã. Foi o que lhe permitiu falar – com a voz computorizada que tão bem reconhecemos -, de há 30 anos para cá!

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