Saúde

De onde virão os novos medicamentos?

3 Abril, 2018

A eficácia dos antibióticos atuais está a ser posta à prova pelas bactérias resistentes… Mas e se pudessem produzir-se novos medicamentos a partir do sangue dos Dragões-de-Komodo?


Bactérias resistentes matam 700 mil pessoas

Todos os anos as infeções causadas por bactérias resistentes matam 700 mil pessoas, alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS). E prevê-se o pior no futuro: estima-se que por volta de 2050 o número de mortes possa chegar aos 10 milhões! Isto porque, explica a OMS, as bactérias resistentes estão a aumentar para “níveis perigosos em algumas partes do mundo, ameaçando a nossa capacidade de tratar doenças infecciosas comuns, incluindo a pneumonia, a tuberculose, a septicemia e a gonorreia.”

A ameaça da resistência aos antibióticos é real e tem preocupado a comunidade médica e científica em todo o mundo. Agora há uma nova esperança.

Sangue do Dragão-de-Komodo: um novo antibiótico?

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Os Dragões-de-Komodo podem ser a chave para esta questão dos antibióticos. Sim, a verdade é que estes lagartos gigantes – que pesam mais de 135 quilos e chegam a medir mais de dois metros de comprimento – além de terem uma mordedura muito venenosa, têm mais de 50 variedades de bactérias na boca, mas raramente adoecem, e são imunes às dentadas de outros dragões. Os cientistas dizem que a resposta está no seu valioso sangue, composto por péptidos antimicrobianos, uma defesa versátil contra infeções produzida por todas as criaturas vivas.

Mas o que tem isto a ver com os antibióticos? É que o sangue dos Dragões-de-Komodo pode um dia vir a ser utilizado para produzir novos antibióticos para proteger os seres humanos. Uma ajuda preciosa, já que os antibióticos que existem atualmente estão a perder eficácia frente a bactérias resistentes. Para tal é preciso descobrir como é que os péptidos presentes no sangue destes animais são capazes de combater as bactérias e o que os faz ser tão bem-sucedidos, afirma Barney Bishop, autor do estudo, investigador e químico da Universidade de George Mason, nos EUA.

Mais de 200 péptidos nunca antes vistos

Como é que Bishop e a sua equipa conseguiram chegar à conclusão de que os péptidos antimicrobianos podem conferir uma proteção eficaz aos sistemas imunitários contra infeções perigosas? Para começar identificaram mais de 200 péptidos no sangue de um dragão-de-komodo, que até então nunca tinham sido vistos, através de um processo de bioprospeção.

E o que conseguiram a partir daí foi utilizar um dos péptidos do sangue do Dragão-de-Komodo para desenvolver uma substância sintética, a DRGN-1. Uma vez em contacto com bactérias vivas e com feridas infetadas com bactérias, esta substância “mágica” conseguiu algo fantástico: as feridas cicatrizaram de forma significativamente mais rápida do que se não tivessem sido tratadas.

A DRGN-1 foi desenvolvida depois de um espectrómetro de massa ter identificado péptidos no sangue do Dragão-de-Komodo capazes de atacar bactérias resistentes a antibióticos. Mas encontrar estes péptidos não é tarefa fácil. Para já, os investigadores identificaram 48 potenciais péptidos antimicrobianos que no futuro podem ajudar a travar problemas do dia-a-dia como a acne ou a pneumonia.

Além disso, o investigador Bishop e a microbióloga Monique van Hoek têm estado a testar os péptidos antimicrobianos do sangue de um Dragão-de-Komodo – morador há 13 anos no Zoológico de Aligátores de St. Augustine – contra um painel de bactérias. Os testes incluem bactérias altamente resistentes aos antibióticos e que a Organização Mundial de Saúde considera patogénicos prioritários.

Os desafios desta nova geração de medicamentos

Extrair o sangue de um animal como o Dragão-de-Komodo – que é difícil de capturar, vive num lugar remoto, está em vias de extinção, é considerado sagrado na Indonésia e tem uma mordidela letal – por si só já é um desafio. Sem esquecer que a recolha de sangue também é reduzida: sim, não existe anestesia e os investigadores só extraem o equivalente ao bico de um lápis através de uma picada rápida de uma agulha na cauda, de forma a não afetar o bem-estar do animal.

As coisas complicam-se se pensarmos que desde 2012 os investigadores só conseguiram recolher uma mão cheia de amostras e que para alcançar resultados consistentes Barney Bishop vai precisar de “mais sangue” e de “um número maior de animais para estudar”. Além disso, o investigador acredita que o sistema imunitário de um animal selvagem é muito diferente de um em cativeiro: deve ter mais péptidos curativos a correr-lhe nas veias porque viver na natureza força o sistema imunitário a funcionar ao máximo.

A boa notícia é que este projeto, que começou em 2012, não se centra apenas nos Dragões-de-Komodo, porque o investigador também tem especial interesse por jacarés-chineses e crocodilos de água salgada. É que estes animais também têm uma forte imunidade contra doenças, comem animais cheios de bactérias, vivem em ambientes ricos em bactérias e sobrevivem à perda de membros sem apanharem infeções… Fascinante, não é?

Veneno de serpente trata tensão alta há 40 anos

Sabia que os venenos dos animais letais são uma variedade incrivelmente complexa de proteínas e péptidos? E a verdade é que já há medicamentos produzidos a partir destas substâncias químicas: o captopril, por exemplo, é um medicamento para tratar a tensão arterial elevada que foi desenvolvido há 40 anos a partir do veneno de uma serpente da América do Sul, a Bothrops Jararaca. Aliás, o fármaco obtido a partir do veneno é agora um inibidor da enzima de conversão da angiotensina, sendo amplamente utilizado no tratamento cardiovascular.

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