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Adélio Mendes: o rosto por detrás da patente mais cara vendida em Portugal!

22 Fevereiro, 2018

Sabia que a ideia para a patente mais cara vendida em Portugal e a invenção da cerveja sem álcool partiram da cabeça da mesma pessoa?


Uma patente de 5 milhões de euros… mas que vale bem mais do que isso!

Quem conhece o português Adélio Mendes sabe que este tem uma carreira consolidada na área das energias renováveis. E a patente mais cara vendida em Portugal é um reflexo disso mesmo: consiste na produção de células solares de perovskita (PSC), capazes de possibilitar a conversão direta da luz solar em energia elétrica de forma renovável e sustentável – algo muito desejado e que pode revolucionar o mercado de eletricidade!

Vantagens? Baixo custo de produção aliada a uma alta eficiência e durabilidade (25 anos). Foi fácil? Não! Muitos tentaram e falharam. Até que chegou Adélio Mendes e conseguiu, em conjunto com a EFACEC – uma empresa que opera nos setores da energia, engenharia e mobilidade – chegar a bom porto. A sua patente acabaria por ser vendida por 5 milhões de euros, em 2015, à Dyesol, uma empresa australiana líder em energias sustentáveis.

Mas como é que o investigador chegou lá? Bom, a verdade é que Adélio Mendes pouco sabia sobre células fotovoltaicas quando começou a fazer investigação nas salas fotovoltaicas. Mas embora lhe faltasse competência na parte fotoeletroquímica, o investigador conseguiu perceber que um dos problemas que a tecnologia tinha, para ainda não ter sido bem-sucedida, prendia-se com a selagem das células! Esta noção e um momento de inspiração bastaram para ter sucesso.

Das construções de Lego aos reatores abertos

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Aos 53 anos, Adélio Mendes conta já com mais de 20 patentes no bolso, mas o gosto tomou-lho de criança, quando brincava com Lego e se divertia a construir gruas e tanques de guerra. Do Lego não tardou a passar à sua primeira criação, um aeromodelo apetrechado com um motor elétrico.

Tinha então 12 ou 13 anos e começava a dar os primeiros passos na química: em entrevista ao Expresso conta que queria ter um motor de explosão, mas que o pai não o tinha deixado. Alternativa? Fazer a produção de hidrogénio e oxigénio para fazer a combustão num reator aberto. Daí resultaram alguns estragos e o entendimento claro da reação violenta entre o oxigénio e o hidrogénio!

Viagem de sonho: Marte

Se desde criança que construía motores, fazia experiências e era muito curioso, o mais certo era mesmo Adélio Mendes ter virado um engenheiro químico e investigador nato! E quis o destino – e ele próprio – que assim fosse: sim, de há 25 anos para cá que o português se doutorou em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e começou a dar azo à sua capacidade inventiva. Ao som, possivelmente, da nona sinfonia de Beethoven, pela qual é apaixonado.

Adélio Mendes tem feito investigação por diversas áreas: no currículo conta com projetos relacionados com células fotovoltaicas, purificação 70% mais barata de hidrogénio, a criação de um novo tipo de tinta aquosa para a empresa CIN, separação de gases por adsorção e por membranas, preparação e caracterização de membranas de peneiro molecular de carbono, células de combustível, células solares sensibilizadas com corante, reatores catalíticos de membrana e reformação com vapor de metanol.

Nos entretantos, é professor na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, publica artigos científicos e ainda teve tempo para escrever um livro pedagógico, Laboratórios de Engenharia Química. Já nos tempos livres, tal como Elon Musk, sonha acordado com uma visita a Marte – a sua viagem de sonho – e com um dia poder ajudar as pessoas a viver melhor e fundar uma fundação que ajude a financiar a investigação em Portugal.

Cerveja sem álcool? Agradeça a Adélio Mendes!

O investigador português já tinha tentado fazer cerveja com base num processo por separação de membranas e tinha sugerido na Alemanha, onde estava a fazer o pós-doutoramento, que se podia fazer cerveja sem álcool de uma outra maneira, mas o seu orientador não acreditou. Inconformado, regressa a Portugal e bate à porta da UNICER. E a magia aconteceu: nascia assim em 2007 a primeira cerveja sem álcool, da Super Bock.

Em apenas um mês, a cerveja vendeu mais de um milhão de litros! E quer saber uma curiosidade? Adélio Mendes convidou o seu descrente orientador alemão para vir até Portugal para provar a cerveja com zero teor de álcool, mas que mantinha as características do sabor tradicional. O professor ficou tão admirado com o processo que insistiu bastante para que fosse patenteado. Para a história ficar ainda mais interessante, podemos dizer-lhe que Adélio Mendes nem sequer bebe cerveja!

Mais de 20 patentes em nome próprio e outros tantos prémios

Embora Adélio Mendes diga do alto do seu sotaque nortenho que o reconhecimento não seja algo para o qual trabalha, ao longo da sua carreira como investigador foi arrecadando vários prémios pelas suas invenções como o Troféu Inovação Tecnológica pela UP, o Faculty Excellent Award 2011 pela empresa norte-americana Air Products, o Prémio Universidade de Coimbra 2016, a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro – pela Câmara Municipal do Porto, o Solvay & Hovione Innovation Challenge SHIC’11, o Prémio Ramos Catarino Inovação e a lista continua por aí afora.

Além disso, em 2012 conseguiu outro grande feito: foi escolhido pelo European Research Council para receber uma bolsa, a “Adanced Grant”, no valor de 2 milhões de euros para desenvolver células solares sensibilizadas com corante. E não, Adélio Mendes não acha que as suas invenções sejam demais! Pelo que, se tudo continuar como até aqui, promete continuar a fazer o que gosta e a inspirar os que o acompanham ideia atrás de ideia.

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