pessoas e histórias

António Damásio, o neurocientista dos neurocientistas

14 Fevereiro, 2018

Se não fosse neurocientista, António Damásio poderia muito bem ter sido escritor. Com o passar dos anos, conseguiu ser ambos! Preparado para conhecer a história do português que é uma referência no mundo da Neurociência?


Cérebro e emoções: um caminho que começa aos 25 anos de idade

O que é a consciência? Como é que o cérebro processa a memória, a linguagem, a emoção e as nossas próprias decisões? Estas são as questões da vida de António Damásio. A sua inspiração! E mesmo com 73 anos ninguém pára o neurocientista português de cabelos brancos, óculos bem redondos e de ar sempre simpático: prova disso é o seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas.

A obra dá continuidade às investigações de vários anos, mas centra-se primordialmente na questão de como os sentimentos têm um claro peso na definição da nossa personalidade. Isto é, parte dos sentimentos que temos como experiência estão relacionados com as coisas mais valiosas da nossa vida como a doença, dor, sofrimento, amor, desejo, o cuidado com os outros… Palavra de cientista!

Desde que estudou Medicina na Universidade de Lisboa, em 1969, e partiu para o doutoramento em Neurologia, que António Damásio nunca mais se desviou do tema. E se os seus primeiros passos foram dados no Centro de Estudos Egas Moniz, depressa o palco nacional se tornou demasiado pequeno para o lisboeta que decide ir até aos Estados Unidos para voar mais alto.

Hoje as suas ideias ecoam um pouco por todo o mundo e valeram-lhe várias distinções como o Prémio Pessoa e o Prémio Signoret para as Neurociências Cognitivas, em conjunto com a sua mulher Hanna; o Prémio Golden Brain; o Prémio Neuroplasticidade pela Fundação Ipsen e, mais recentemente, a Medalha Freud 2017 na área da Neurobiologia da Mente.

E se lhe disséssemos que o António Damásio poderia não ter sido neurocientista?

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Bem antes de ficar fascinado pelas questões do cérebro humano, António Damásio encontrou a sua paixão noutro tipo de mecanismos: os motores. Adorava construí-los desde tenra idade. O cinema e literatura foram outras paixões que descobriu, já na adolescência. Não seria de estranhar, por isso, que Damásio, em vez de neurocientista, se tivesse tornado escritor ou cineasta!

Mas então porque é que António Damásio se decidiu pelo mundo da Ciência? O investigador confessa que sempre se interessou pelos problemas humanos, mas que não tinha encontrado ainda uma forma de os abordar a nível profissional. Conhecer no liceu o professor e filósofo Joel Serrão foi decisivo. Consta que, em conversas, Damásio explicou-lhe que estava dividido entre a vida literária e a vida científica e que o professor lhe respondeu: “O que tu queres ser é neurologista”. E assim foi.

Shakespeare é a referência de António Damásio

Quando perguntam a António Damásio qual é o maior cientista de todos os tempos na sua área, o investigador não tem dúvidas e responde convictamente: Shakespeare. Surpreendido? O investigador português explica que a literatura é extraordinariamente útil porque é uma entrada muito rica na mente, uma entrada subjetiva que utiliza a vida subjetiva, os sentimentos.

Além disso, diz em entrevista ao Público que no caso de Shakespeare “está lá tudo”. Nas peças históricas, nas comédias, nas tragédias e até na própria poesia, todos os grandes temas estão representados. Razão pela qual admite que se um dia tiver tempo gostaria de escrever algo como a neurociência ou a neurobiologia cognitiva a partir do ponto de vista de Hamlet ou de Otelo.

Escrever Ciência como uma peça literária

Para António Damásio, os artigos científicos não têm de ser maçadores e difíceis de entender. No fundo, devem ser tão bem escritos como uma peça literária. Mas o que é que motiva realmente António Damásio a escrever? Além de lhe dar um certo prazer colocar no papel aquilo que pensa e ter o bichinho da escrita desde jovem, os livros são de certa maneira uma forma de discutir com ele próprio e manter a discussão aberta a outras pessoas para que possam elas próprias dialogar.

E de facto a sua carreira tem sigo marcada pela publicação de vários artigos científicos em revistas internacionais prestigiadas, como é o caso da Nature, bem como de livros que o cunham como o neurologista dos neurologistas. Estamos a falar de livros como o Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro Humano (1994), O Sentimento de Si (2000), E o Cérebro Criou o Homem (2009), Livro da Consciência (2010), entre outros.

Menos neurologista, mais biólogo: o ponto de viragem para António Damásio

Embora no currículo de António Damásio se possa ler “Doutoramento em Neurologia”, o investigador é cada vez mais um biólogo. Até porque defende que a biologia se estende a várias áreas: a violência, por exemplo, é algo que nos é inato, é biológico. No entanto, António Damásio explica que a nossa herança pode ser combatida com a educação. Para o investigador, esta é a única forma de contrariarmos os nossos instintos mais básicos e que dão primazia à sobrevivência.

É este conceito de homeostasia – processo de regulação através do qual um organismo consegue realizar as suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo – que explora no seu último livro. Em A Estranha Ordem das Coisas, Damásio dá pistas sobre temas tão atuais como o aumento dos extremismos na Europa, à luz das suas investigações sobre a expressão do nosso sentimento pessoal e dos instintos básicos inatos ao ser humano.

Brain and Creativty Institute: há dois Damásios no projeto!

Nos dias que correm, pode encontrar António Damásio pela University of Southern California, nos Estados Unidos, onde dá aulas de neurociência. Mas não o encontrará sozinho. Já dizia o ditado que por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher e o neurocientista não foge à regra. É ao lado de Hanna Damásio, que dirige também aí o Brain and Creativty Institute, e a quem dedica o último livro.

O investigador acredita que no fundo são um dueto perfeito, uma vez que Hanna é possuidora de uma capacidade experimental elevada e ele detém a capacidade teórica. E, no fundo, grande parte do trabalho é feito em conjunto: António Damásio confessa que a sua mulher tem uma enorme influência naquilo que faz – e até naquilo que diz -, na escolha de temas, de apresentação e de um modo geral em “metê-lo na ordem”.

Mas o que é que os dois fazem por lá? Neste momento, dois dos grandes estudos de investigação que decorrem no Brain and Creativty Institute têm como mote “O Cérebro e a Música” e “as estruturas sociais e a forma como nos comportamos dentro dessas estruturas”.

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