pessoas e histórias

Cinco investigadores que querem revolucionar o mundo

29 Dezembro, 2017

Há dez anos que o Conselho Europeu de Investigação financia vários projetos de investigação na União Europeia. Das células estaminais aos “robots” microscópicos que tratam doenças, passando por uma nova esperança contra o cancro, estes cientistas estão a agitar a Ciência no velho continente.


Maria Brandão Vasconcelos e a StemCell2Max: Multiplicar células estaminais 

Maria Brandão Vasconcelos (à esquerda) sempre quis juntar duas paixões que herdou dos pais: a saúde, área de trabalho da sua mãe, e a engenharia, formação do seu pai. Em conjunto com os colegas Filipa Matos Baptista, Henrique Veiga-Fernandes, Diogo Fonseca Pereira e Sílvia Arroz Madeira conseguiu-o. Depois de um projeto de investigação académica que durou 6 anos, em 2015 nasceu a empresa StemCell2Max, uma startup biotecnológica portuguesa que trabalha em medicina regenerativa e que se especializou em terapias baseadas em células.

Em 2009, os investigadores do Instituto de Medicina Molecular, liderados pelo professor Henrique Veiga-Fernandes fizeram descobertas pioneiras relativas à biologia das células estaminais hematopoiéticas (HSCs). A partir dessas descobertas, a StemCell2Max desenvolveu soluções de multiplicação e expansão das, tão escassas, células estaminais.

As células estaminais têm dois propósitos distintos. Por um lado, o tratamento de pacientes que sofrem de doenças malignas do sangue, como linfomas e leucemias, que necessitam ter acesso a estas células para poderem beneficiar de transplantes. E por outro, o seu uso em pesquisas que estão a ser levadas a cabo por investigadores em todo o mundo e que necessitam ter acesso às células estaminais para desenvolverem novas terapias.

O trabalho da SteamCell2Max é justamente conseguir ter células estaminais, não só em quantidade, mas também de qualidade para que a ciência e o seu potencial de cura em áreas como o cancro ou doenças genéticas, possam evoluir.

Ben Feringa: Nano-motores que abrem giga-oportunidades na Saúde

Ler Mais

Desde tenra idade que Ben Feringa demonstrou uma natureza questionadora e uma curiosidade infindável. Dessa vontade de descobrir como tudo funciona nasceu a sua paixão pela química. Atualmente é professor e investigador na Universidade de Groningen e é um pioneiro no desenvolvimento de motores moleculares rotacionais.

Em 2016, Ben Feringa ganhou o prémio Nobel da química, partilhado com Jean-Pierre Sauvage e J. Fraser Stoddart, pelo trabalho desenvolvido no desenho e síntese de máquinas moleculares. Com o tamanho de uma molécula, ou um bilionésimo de metro, os motores moleculares rotacionais são as mais pequenas máquinas do mundo e conseguem girar como uma hélice. Estas nano-máquinas moleculares são capazes de responder aos estímulos do ambiente e poderão vir a ser empregues na automontagem de nano-estruturas ou na regulação da transcrição do ADN.

Em conjunto com a sua equipa, o investigador desenhou um nano-carro em que as quatro rodas são motores moleculares rotacionais. A ideia é demonstrar que apenas com um nano-carro é possível passar do movimento de rotação para o movimento de translação, ou seja, desenvolver o potencial de deslocação horizontal e assim desenvolver materiais capazes de se repararem a si próprios.

As potenciais aplicações destas nano-máquinas na medicina e no tratamento direcionado são promissoras. Pode parecer ficção científica, mas para Ben Feringa, daqui a 50 anos, talvez seja possível desenvolver pequenos robôs que são injetados na corrente sanguínea e vão diretamente para as células defeituosas, como os tumores, reparando-as!

Deniz Kirik: A terapia genética no combate ao Parkinson 

Nascido na cidade turca de Antakya, Deniz Kirik sempre demonstrou interesse pela ciência, sobretudo pela área da medicina. Sonhava vir a ser médico e com esse objetivo entrou na Faculdade de Medicina de Ancara. Porém, cedo se apercebeu que na profissão médica sentia falta do desafio da investigação e da experimentação e procurou alternativas. Na Suécia, na Universidade de Lund, encontrou a oportunidade de estudar o que mais o fascina: o cérebro.

Com a sua equipa, Deniz procura utilizar a terapia genética para desenvolver novos tratamentos para a doença de Parkinson. Os investigadores utilizam vetores virais recombinantes, neste acaso um vírus adeno-associado não patogénico para fazer sobressair no cérebro determinadas proteínas. Um novo gene é inserido no vírus adeno-associado, que é usado para introduzir o ADN modificado diretamente nas células cerebrais. Se o tratamento for bem-sucedido, o novo gene vai produzir uma proteína funcional que restaura a funcionalidade das células.

Os primeiros resultados dos testes em animais têm sido muito positivos e em breve a equipa poderá começar os primeiros ensaios clínicos em humanos. O uso deste ripo de terapia genética é vantajoso porque se resume a um único tratamento, uma vez que a modificação das células nervosas do cérebro é permanente. Se os ensaios clínicos em humanos forem positivos, a doença de Parkinson poderá vir a ser tratável, sobretudo nos primeiros estágios desta doença degenerativa.

Magdalena Król: em busca do cavalo de tróia contra o cancro 

Magdalena Król cresceu rodeada de cães. Chegou a ser criadora de Bouviers da Flandres e essa paixão pelos animais levou-a a seguir a carreira de medicina veterinária. Enquanto trabalhava em clínicas veterinárias, esta cientista polaca encontrou muitos casos de cancro entre os canídeos e começou a interessar-se pelo tema. A sua atenção acabou por centrar-se no cancro da mama que é três vezes mais diagnosticado nos cães do que em humanos.

Enquanto professora na Universidade de Varsóvia, Magdalena trabalha no desenvolvimento de um método inovador que tem por base o uso de células para distribuir a medicação nos tumores sólidos. As suas descobertas relacionadas com as interações entre as células imunitárias e as células cancerígenas podem revolucionar a abordagem que é feita ao tratamento do cancro.

Os dados atuais demonstram que ainda há um longo caminho para percorrer na diminuição da taxa de mortalidade associada ao cancro. Só na União Europeia a cada 30 segundos morre uma pessoa de cancro. O problema passa muitas vezes pela ineficácia do tratamento. Nas terapias convencionais, como a quimioterapia, apenas 1% a 2% da medicação administrada chega efetivamente ao tumor, o resto perde-se em outros órgãos e é a causa dos efeitos secundários nefastos: náuseas, vómitos, diarreias, queda de cabelo, etc. Sem mencionar que existem mesmo pontos dentro do tumor que a quimioterapia não consegue alcançar.

A equipa de investigadores descobriu um mecanismo em que as células imunitárias transferem proteínas especiais que possuem uma estrutura semelhante a uma caixa, nas quais é possível colocar vários medicamentos para tratar o cancro. Quase como o cavalo de Tróia, as células imunitárias transportam essas proteínas, carregadas de medicação, diretamente para as células cancerígenas, matando o tumor. Este tratamento tem a capacidade de alcançar as zonas do tumor inacessíveis à quimioterapia. Os investigadores pretendem descobrir como é que estas interações se processam, porque compreender o funcionamento deste mecanismo abre novas possibilidades à imunologia.

Os resultados preliminares mostram graus de eficácia muito superiores quando comparados com a quimioterapia: cerca de 30% destas células conseguem atingir o tumor. Esta eficácia permite reduzir significativamente a quantidade de medicação necessária ao tratamento e logo diminuir também os efeitos secundários.

Valeria Nicolosi: Matérias bidimensionais para um futuro multidimensional 

Professora de nanomateriais e microscopia avançada no Trinity College em Dublin, Valeria Nicolosi era uma dessas crianças que desmonta tudo para saber como as coisas funcionam. Do leitor de vídeo à torradeira, nada escapava à sua curiosidade. Fascinada pelo conhecimento, esta investigadora financiada pelo Conselho Europeu de Investigação utiliza uma abordagem interdisciplinar para estudar nanomateriais de baixa dimensão como o grafeno.

A sua investigação centra-se em encontrar soluções de armazenamento de energia realmente eficientes. Para tal, trabalha com materiais como o grafeno, um material com propriedades muito especiais: tem a espessura de um átomo, é 300 vezes mais forte que o aço e é um melhor condutor de energia que o cobre. A sua equipa está a utilizar estes materiais para produzir baterias que podem ser feitas com recurso a impressoras a jato de tinta, ligeiramente modificadas. Uma bateria pode ser impressa em qualquer tipo de material.

Estas baterias duram muito mais do que uma bateria normal – para sermos exatos, 5.000 vezes mais! Esta tecnologia poderá ser aplicada para o armazenamento de energia de qualquer fonte: eólica, solar, das ondas, bem como, para carregarmos qualquer dispositivo eletrónico de forma muito mais eficiente. As bases para a tão desejada revolução energética podem também estar neste projeto.

Ler Menos