Radar económico

A Quarta Revolução Industrial está aí. Preparado?

4 Dezembro, 2017

Fala-se em carros autónomos, de um sistema de saúde na palma da mão com a ajuda da inteligência artificial e de todos vivermos até aos 100 anos num futuro muito próximo… Estamos perante uma Nova Revolução Industrial?


O que é isto da Quarta Revolução Industrial?

A Revolução Industrial está de novo na ordem do dia. E de acordo com o World Economic Forum já assistimos a três: a primeira relaciona-se com a água e o vapor, a segunda com a eletricidade e a produção em massa e a terceira com a eletrónica, tecnologia de informação e produção automatizada. Podemos dizer que em todas houve uma disrupção, o nascimento de “um novo mundo”. Mundo esse que está agora a entrar na chamada Quarta Revolução Industrial, graças às novas tecnologias que combinam o mundo físico, digital e biológico.

Fonte: Forbes

Esta Nova Revolução Industrial caracteriza-se por unir Sistemas Ciberfísicos, Internet das Coisas e Internet dos Sistemas e vai estender-se em larga medida à Inteligência Artificial (IA), à saúde, aos transportes, à energia, à educação, à impressão 3D, ao dinheiro e até ao emprego. O que quer isto dizer? Não se sabe ao certo como será o futuro mas será definitivamente diferente e já é possível identificar algumas megatendências que o poderão moldar de forma significativa.

1. Inteligência Artificial: máquinas “inteligentes” ao serviço da saúde

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Uma coisa é certa: o software vai causar uma revolução nas indústrias mais tradicionais nos próximos 5 a 10 anos. Um exemplo disso é a Inteligência Artificial (IA). Este tipo de ciência e engenharia capaz de produzir máquinas inteligentes – palavras de John McCarthy que cunhou o termo em 1956 – permite coisas extraordinárias. Por exemplo, a IBM Watson – plataforma de IA orientada para negócios – poderá ajudar a diagnosticar o cancro com 4 vezes mais precisão do que um especialista médico.

Outro exemplo da aplicação prática da inteligência artificial chega-nos da Qualcomm. A tecnológica pretende que tenhamos acesso a um sistema de saúde na palma das nossas mãos e como tal decidiu patrocinar uma competição – a Qualcomm Tricorder XPRIZE – durante a qual 300 equipas tinham como missão construir um aparelho médico que trabalhasse em conjunto com o seu telemóvel pessoal. Objetivo: conseguir diagnosticar problemas de saúde de forma fidedigna, em qualquer altura e em qualquer lugar, evitando os 24 dias que se espera em média por uma consulta nos Estados Unidos.

E o futuro revelou-se estar mais perto do que se imagina. Os vencedores desta competição a Final Frontier Medical Devices e a Dynamical Biomarkers Group criaram umas “aplicações inteligentes” o DxtER e o DeepQ Kit, respetivamente, as quais já conseguem medir a pressão arterial, o ritmo cardíaco, respiratório, a temperatura, a saturação do oxigénio. No futuro, esperam conseguir diagnosticar doenças como a apneia do sono, pneumonia, diabetes, anemia e até a presença de uma infeção urinária.

Além disso, a comunidade de investigadores Singularity University, apoiada pela Google e a NASA, afirma que em 2030 os computadores conseguirão superar os humanos em inteligência.

É óbvio que todo este desenvolvimento também poderá acarretar os seus perigos. No entanto, sendo os respetivos riscos bem geridos, Stephen Hawking acredita que “Vamos finalmente poder acabar com a doença e a pobreza. Todos os aspetos das nossas vidas serão transformados”.

2. Carros autónomos: uma nova mobilidade

“Preparem-se para a era dos carros autónomos”. Esta foi uma das ideias em destaque no World Economic Forum no início deste ano, quando se começou a falar mais naquela que é conhecida como a nova Revolução Industrial. A Tesla e a Google estão a liderar a tecnologia e em 2018 já veremos carros autónomos por aí. Segundo a comunidade de investigadores, a tendência passará por deixar aos poucos de ser proprietário de um automóvel, já que poderá chamá-lo através de um telemóvel. A ideia é que o carro autónomo vá ter consigo, o deixe no destino que indicar e no final só terá de pagar a distância percorrida. Será que a próxima geração irá precisar de obter carta de condução?

A cada ano morrem 1,2 milhões de pessoas por todo mundo em acidentes de carro e a cada 100 mil quilómetros ocorre um acidente. O Think Tank Singularity University prevê que com a condução autónoma esse número desça para apenas um acidente a cada 10 milhões de quilómetros. As vantagens parecem evidentes, mas como é que as seguradoras se adaptarão a um mundo com muito menos acidentes de carro? Os preços dos seguros automóvel terão de descer certamente mas haverá mais aspetos, decorrentes desta nova realidade dos carros sem condutor, aos quais as seguradoras terão de se adaptar.

3. Impressão 3D: processos de produção em mudança

Uma impressora 3D é capaz de produzir objetos tridimensionais sólidos, desenhados em software 3D, através de um processo aditivo, em que a matéria-prima é aplicada, camada a camada, até se formar um objeto tridimensional. E espera-se que, por volta de 2027, 10% de tudo o que é produzido seja impresso em 3D. E é bem mais barato do que pensa: em 10 anos uma impressora 3D passou de custar 18 mil dólares para custar 400. Ou seja, passou de uma tecnologia inatingível a uma realidade em muitas indústrias. E como se isso não bastasse também ficou 100 vezes mais rápida.

A indústria do calçado, por exemplo, não ignorou as vantagens desta tecnologia e hoje em dia todos os grandes produtores de sapatos já fazem a impressão 3D dos seus modelos. Porquê? Ora, a impressão 3D permite aos designers eliminar erros muito mais cedo no projeto, o que leva a muito menos desperdícios na fase de prototipagem e até na fase de produção.

A aviação não é exceção: o peso das peças afeta o consumo de combustível nos aviões e por isso os fabricantes deste meio de transporte estão a utilizar a impressão 3D para o reduzirem. Menos 225kg de peso num avião pode resultar numa poupança de um quarto de milhão de dólares em combustível por ano.

A Stratasys, que desenvolve soluções de impressão 3D, diz mesmo que a tecnologia tem o poder para alterar a sociedade porque por si só consegue alterar os processos de produção e distribuição. A impressão 3D pode, de facto, descentralizar o fabrico de peças, aumentar a reparabilidade das máquinas e diminuir os custos ambientais associados ao transporte, o que por si só pode representar uma grande revolução em vários setores.

4. Longevidade: vamos viver mais anos, e agora?

A tecnologia que define esta quarta revolução industrial permite que vivamos mais anos e com qualidade e essa é outra grande tendência desta nova era. Neste momento a esperança média de vida cresce 3 meses por ano e só em Portugal há 4 mil centenários. Como consequência, o mercado de trabalho e tantos outros aspetos da economia e da sociedade vão alterar-se profundamente. Adaptar a idade da reforma ou os impostos sobre as populações mais velhas são apenas algumas das questões que terão de ser equacionadas, já dizia Hans Rosling, o guru das estatísticas.

5. Energias Renováveis: dizer adeus aos combustíveis fósseis

Há 30 anos que a produção solar está a crescer, no entanto só agora é que se começa a sentir verdadeiramente o seu impacto. No ano passado, a adesão à energia solar já superou a fóssil: isto significa que a cada dois anos aumenta para o dobro a quantidade de energia solar que é criada, sobretudo desde que está a ser aplicada nanotecnologia aos painéis solares.

Com a produção solar a crescer a este ritmo, os investigadores estimam que em 16 anos conseguiremos satisfazer 100% das nossas necessidades energéticas através de energias “limpas”. É que, felizmente, recebemos 10.000 vezes mais luz solar do que aquela que precisamos! Mas o que acontecerá quando a energia solar se massificar? O seu preço descerá e muito provavelmente as empresas de carvão vão tornar-se obsoletas.Quando? Os investigadores do Think Tank Singularity University apontam para 2025.

Mas não só. A energia eólica também está a ganhar cada vez mais terreno. Só em Portugal a energia eólica pesou 20% no total da eletricidade produzida, posicionando-se apenas atrás de países como a Dinamarca (43%), Lituânia (27%) e Irlanda (21%). A energia eólica foi responsável por 10% do total de eletricidade produzida na União Europeia em 2016 – um aumento de 8% face a 2005 -, sendo atualmente a quarta maior fonte de eletricidade.

6. Educação

Os smartphones estão cada vez mais baratos. Em 2020 é possível que 70% da humanidade tenha um smartphone. Isto significa que todos os jovens poderão aceder, por exemplo, à Khan Academy à velocidade de um clique e a custo zero. Por outras palavras, mesmo os menos privilegiados economicamente poderão ter acesso a um sistema de educação de classe mundial e, como sabemos, o conhecimento tem sido ao longo da história o principal transformador das sociedades.

A Quarta Revolução Industrial vai sentir-se em todos os aspetos da nossa vida

Estas são apenas algumas das tendências apontadas pelos especialistas e que parecem estar a marcar a chamada Quarta Revolução Industrial. Como vimos, se as ondas de mudança se confirmarem, o impacto será sentido em todos os aspetos da nossa vida, da saúde à indústria, do emprego à educação, e muitos outros.

No entanto é bom não esquecer que o futuro, independentemente de todas estas tendências, será sempre “um fim em aberto”. O desafio não é prevê-lo, pois isso está apenas ao alcance dos “bons feiticeiros”. O desafio está em identificar precocemente aquilo que já está a acontecer, mas que ainda não se vê bem, e em desenvolvermos soluções inteligentes para as surpresas que a mudança traz sempre.

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