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Mecânico, piloto, pai do Cavallino Rampante: a história de Enzo Ferrari

23 Novembro, 2017

Em criança, Enzo Ferrari sonhava ser três coisas: tenor, jornalista e piloto de automóveis. Tornou-se piloto. Mas o verdadeiro sonho alcançou-o com a criação da Ferrari, a marca que há 70 anos põe os carros de corrida na estrada.


Quem foi Enzo Ferrari?

“Think as a winner and act as a winner. You´ll be quite likely to achieve your goal”. A frase é do próprio Enzo Ferrari e não podemos contar a história de uma das mais prestigiadas marcas de carros de sempre, sem falar primeiro do percurso de vida do seu fundador. A história deste homem alto, de olhos azuis e de um lendário mau génio, começa a 18 de fevereiro de 1898, em Modena, Itália.

Dizem que até aos 10 anos Ferrari estava dividido entre ser tenor de opereta, jornalista desportivo e piloto de automóveis. Mas as dúvidas dissiparam-se quando, em 1908, o pai decide levá-lo a uma corrida de carros em Bolonha. Talvez tenha sido o ambiente, a excitação que pairava no ar ou o facto de dois dos grandes nomes do mundo das quatro rodas estarem na corrida – Vicenzo Lancia fez na altura a volta mais rápida e Felice Navarro devido à sua perícia ao volante ganhou a corrida. A verdade é que o jovem Enzo ficou fascinado. E foi um ponto sem retorno: a partir daquele dia, o jovem italiano nunca mais se desligaria do mundo automóvel.

Depois de ter trabalhado como mecânico até à Primeira Guerra Mundial e de lhe ter sido recusado um emprego na FIAT, Enzo Ferrari aproxima-se do sonho: torna-se no piloto oficial da Alfa Romeu e por esta altura já ganhava dinheiro com as corridas, conquistando boas metas como o 5º lugar na Targa Florio e o 2º lugar na Mugello. Pouco depois, em 1929, fundou a sua própria escuderia de competição, a Scuderia Ferrari, sob a insígnia do Cavallino Rampante, que é ainda hoje o símbolo dos carros da Ferrari.

Cavallino Rampante: a história do logótipo

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Toda a gente conhece um Ferrari quando o vê passar pelas ruas: o seu logótipo representa um cavalo preto erguido sobre duas patas num fundo amarelo. Além disso, na parte superior do símbolo encontra as cores da bandeira de Itália, na posição horizontal. E quer saber uma curiosidade? Nos automóveis de competição vai encontrá-lo na forma de escudo heráldico – representando a equipa de corrida da marca – e nos carros de estrada com um aspeto rectangular.

Mas porquê um Cavallino Rampante? Temos de recuar a 1923 quando Enzo Ferrari ganhou a corrida Circuito del Savio, em Itália, e onde conheceu o Conde Baracca, pai do herói italiano Franscesco Baracca, que durante a Primera Guerra Mundial costumava pintar um cavalo nas laterais do seu avião e que morreu em combate. Mais tarde conheceria a mãe do aviador que lhe pediu que pintasse um cavalo nos seus carros para “trazer-lhe sorte”, como se de um amuleto se tratasse. E assim foi.

O primeiro carro da Ferrari viu a luz do dia em 1947 

12 de março de 1947 assinala o dia em que Enzo Ferrari deu pela primeira vez à chave do seu Ferrari 125 S vermelho e o levou a passear pelas ruas de Maranello, em Itália. O carro tinha um complexo motor de 12 cilindros e todo o seu design exibia a capacidade de “perfeita performance”, pode ler-se na Forbes. Lançar um carro em pleno rescaldo da Segunda Guerra Mundial não era fácil, até porque o país estava a atravessar uma crise financeira, mas Enzo Ferrari conseguiu alavancar a pequena fábrica, que data de 1939, nascida do sonho de querer criar um veículo de competição exclusivo.

No entanto fabricar este tipo de carros é bastante caro e, como tal, Enzo Ferrari teve de começar na década de 40 a comercializar carros de estrada – modelos desportivos -, embora não fosse a sua missão original, para financiar as atividades desportivas da escuderia. Com o tempo, os carros de estrada começaram a ter a sua própria identidade e importância e acabaram até por ofuscar os carros de competição. “Toda a gente sonha em conduzir um Ferrari e esse foi o meu sonho de princípio”, costumava dizer Enzo Ferrari.

O caminho fez-se, tal qual como um carro da Ferrari, a toda a velocidade e os seus motores não tardaram a ganhar corridas e a chamar a atenção de clientes muito, muito ricos. E é de Maranello, com menos de 20 mil habitantes, que saem atualmente mais de 8 mil desportivos a envergar o cavallino rampante. Sem nunca esquecer a verdadeira paixão da marca, a competição. Das Mile Miglia à Fórmula 1, das 24 Horas de Le Mans a Daytona, os carros da Ferrari marcam presença em todas as corridas. E é como o próprio dizia “Não há carros de corrida bonitos ou feios. O que faz a sua beleza são as vitórias”.

Uma vida marcada pela morte

A vida do homem que deu nome à Ferrari apanhou-o desprevenido em muitas curvas. Enzo Ferrari foi ensinado desde cedo a lidar com a morte de entes queridos: perdeu o pai, um pequeno industrial metalúrgico, para a pneumonia e o irmão na mesma altura para a tropa. Tinha então 18 anos e teve de desistir dos estudos para começar a trabalhar. Mais tarde, em 1956, perdeu um filho com 24 anos que sofria de distrofia muscular, Dino Ferrari, enquanto trabalhava num motor de 6 cilindros destinado à competição. O Ferrari Dino 246 com motor V6 foi construído em sua honra.

A morte do seu filho deixou-o amargurado e desde aí que nunca mais pisou uma pista de corrida e se tornou inseparável os óculos escuros. “O único amor pleno que é possível ter nesta terra é o de um pai por um filho”, pode ler-se no seu livro de memórias “Enzo Ferrari, As Minhas Alegrias Terríveis” e que também foi dedicado ao filho. O último Ferrari que veria a sair de fábrica era o lendário F40 e Enzo gostou tanto do carro que proferiu a famosa frase: “Se Deus fosse um carro, seria um F40”. Ferrari despediu-se do mundo no dia 14 de agosto de 1988. Tinha 90 anos.

Para além de todas estas tragédias pessoais, a história da Ferrari ficou marcada ainda por outros acidentes trágicos. Um dos mais marcantes foi a morte do piloto canadiano Gilles Villeneuve – que Enzo Ferrari considerava um filho – ao volante de um Ferrari de Fórmula 1, em consequência de um terrível acidente a 8 de maio de 1982.

Ferrari: uma das marcas mais poderosas do mundo

Ao contrário do que se possa pensar, a Ferrari não é a marca de carros mais valiosa do mundo: vale 4.137 milhões de euros e a Porsche mais do dobro, 8.594 milhões, de acordo com a InterBrand. E não é de estranhar que assim seja. Como se trata de uma marca de luxo de produção limitada, a Ferrari não capitaliza em termos monetários o valor real da marca. Nem está interessada em fazê-lo. Até porque o nome Ferrari vai muito além de uma simples marca de carros, razão pela qual já foi considerada a marca mais poderosa do mundo!

E assim tem sido de há 70 anos para cá: a Ferrari simboliza o gosto pela velocidade ao volante, aliado à mais alta performance automóvel e a um design inconfundível. Mas o que torna estes carros tão distintos? Talvez seja o facto de utilizarem tecnologia de carros de corrida nos automóveis de estrada, a qualidade indiscutível do seu motor V12 ou ainda pelo facto de serem a única marca automóvel a ter uma pista de corrida para testar os seus próprios carros. E claro, o seu fundador, Enzo Ferrari, sabia o que fazia: Bolonha atribuiu-lhe um doutoramento honoris causa em engenharia, em 1960.

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