Saúde

É possível ensinar o corpo a curar o cancro? A Imunoterapia responde.

7 Novembro, 2017

Há cada vez mais especialistas a utilizar o próprio sistema imunitário dos pacientes para combater o cancro: passámos de “tratar o cancro” para “tratar o paciente”. Preparado para descobrir o que é a Imunoterapia?  


Cancro mata 8.8 milhões de pessoas no mundo

Os cancros matam e muito, sobretudo porque são na sua maioria assintomáticos e rápidos. E as estatísticas não deixam margem para dúvidas: por ano, 8.8 milhões de pessoas em todo o mundo morrem de cancro, diz a Organização Mundial de Saúde. Os tumores a nível respiratório – traqueia, brônquios e pulmão –, seguidos do cancro do fígado, cólon e reto, estômago e por fim o cancro da mama são os que mais matam. Mas será possível contrariar a atual situação?

Imunoterapia: o sistema imunitário na luta contra o cancro

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Há anos que os pilares do tratamento do cancro são os mesmos: cirurgia, radiação ou quimioterapia. No entanto, sabe-se que os dois últimos danificam o tecido saudável e que no decorrer da cirurgia os médicos deparam-se com um cenário complicado: ou correm o risco de retirar tecido a menos podendo deixar para trás células cancerosas ou acabam por remover tecido a mais o que pode causar complicações de saúde.

Mas e se a reposta estiver em nós? Há muito que os cientistas têm tentando perceber como é que se pode ensinar o sistema imunitário – o mecanismo natural de defesa do nosso corpo – a reconhecer as células cancerígenas como o inimigo e a destruí-las. E este trabalho parece estar agora a dar os primeiros frutos: estudos recentes mostram que as imunoterapias fortalecem o sistema imunitário do paciente para fazer frente ao cancro, poupando as células normais.

Os medicamentos que desbloqueiam o sistema imunitário

Durante muito tempo pensou-se que o sistema imunitário não via o tumor. No entanto, os investigadores aperceberam-se que o problema estava nas moléculas cuja função é travar as defesas, segundo explica Bruno Silva Santos, imunologista do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. De facto, o sistema imunitário está equipado com uma série de travões que as células cancerígenas conseguem ativar e o que o tratamento de imunoterapia consegue fazer é libertar esses travões, permitindo que os glóbulos brancos ataquem os tumores ativamente.

Na reunião anual da American Society of Clinical Oncology falou-se sobre a aplicação da imunoterapia a vários tipos de cancro, nomeadamente do fígado, pulmão, bexiga e melanoma. Mas há forma de ativar o sistema imunitário para lutar contra estes tumores? Na verdade, já há medicamentos que o fazem: o estudo da Bristol-Myers Squibb, liderado pelo Dr. Jedd Wolchok, revela que foram usados dois tipos de medicamentos – um aprovado, outro experimental – em 52 pacientes com melanoma e descobriram que juntos provocaram a regressão do tumor de uma forma mais rápida e profunda em apenas um terço do tempo.

Este tipo de imunoterapia usa anticorpos que são aplicados de forma intravenosa, acelerando o sistema imunológico, e o especialista avança que as taxas de sobrevivência são significativas.

Imunoterapia e vacina: há uma relação de modus operandi 

No fundo, a imunoterapia atua como uma vacina. As vacinas funcionam como uma espécie de “gatilho” que leva o nosso sistema imunitário a defender-se – produzindo anticorpos – ao pensar que estamos a ser atacados por uma doença. Em comparação, as imunoterapias de anticorpos bloqueiam proteínas específicas que as células cancerígenas usam para se esconderem do sistema imunitário, permitindo assim que seja possível reconhecer o tumor como um invasor.

Mas como é que tudo se processa? Damos-lhe um exemplo prático de sucesso: o oncologista David Maloney, um dos especialistas na vanguarda da imunoterapia injetou pacientes que sofriam de linfoma com as suas próprias células T, geneticamente programadas para produzir uns recetores especiais, as células CAR T, que uma vez acionadas conseguem eliminar o cancro. Este tipo de procedimento leva cerca de 30 minutos e o processo várias semanas.

O melhor é que as células CAR T continuam a multiplicar-se na eventualidade de uma recaída. Ou seja, estes soldados do sistema imunitário são uma espécie de “medicamento vivo” que vai acompanhado o paciente durante toda a sua vida, ao contrário do que acontece com os anticorpos que são destruídos pelo corpo ao longo do tempo. Assim, a imunoterapia surge como uma nova esperança na luta contra o cancro e há médicos que falam mesmo em “cura”.

SIDA trava cancro: a imunoterapia em ação

Se a eficácia da imunoterapia tem surpreendido em todo o mundo, mais surpreendente ainda é o caso de Emily Whitehead, a criança norte-americana que foi considerada curada de cancro graças a um tratamento de imunoterapia muito particular.

Basicamente, este tratamento consistiu em retirar as células do sangue da paciente e manipulá-las em laboratório usando um vírus da SIDA desativado – a SIDA e o cancro têm em comum a falência do sistema imunitário – tornando-as capazes de eliminar o tumor. Depois, os especialistas reinjetaram as células melhoradas e esperaram que fizessem a sua magia. A esta técnica chamou-se CTL 019 e foi aplicada pela primeira vez este ano como tratamento para crianças e jovens adultos com leucemia linfoblástica aguda nos Estados Unidos.

Imunoterapia em Portugal

Mas este tipo de terapêutica já está a ser utilizado em Portugal? A Agência Europeia do Medicamento aprovou em 2016 dois medicamentos de imunoterapia e alguns hospitais portugueses já estão a participar em ensaios clínicos internacionais. Se os resultados forem positivos, os tratamentos de imunoterapia poderão vir a ser aprovados pelo Sistema Nacional de Saúde num futuro próximo.

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